Waldir L. Roque: : Quanto vale uma floresta em pé?

Fotomontagem AGROemDIA, com foto de Zig Koch/Embrapa/Divulgação e arquivo pessoal de Waldir L. Roque

Waldir L. Roque*

As ações antrópicas estão conduzindo o planeta a um ponto de inflexão que pode ser irreversível, ameaçando a própria existência humanidade. O efeito estufa, hoje um dos principais contribuintes para o aquecimento global, aliado a outros fatores como o crescimento populacional e demandas por mais alimentos, energia e bens de consumo, está indo além da capacidade de sustentabilidade do planeta Terra.

A quantidade de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases formadores do efeito estufa, tais como metano, oxido nitroso, ozônio e clorofluorcarbonos, são hoje os principais contribuintes para o aquecimento global. Por isso, é importante de se busque mecanismos para o sequestro e absorção dos chamados carbono equivalentes – principais gases do efeito estufa normalizado ao CO2 –, de modo a manter o crescimento da temperatura do planeta inferior a 1,5 graus, de acordo com as estimativas mais simplistas e expresso na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) em 2021.

Soluções Climáticas Naturais (SCN), de acordo com a definição adotada na Assembleia sobre o Meio Ambiente das Nações Unidas, realizada em março de 2022, são ações para proteger e restaurar sistemas ecológicos naturais ou modificados e para o gerenciamento sustentável, as quais lidam com desafios sociais de forma efetiva e adaptativa, provendo, simultaneamente, o bem-estar da humanidade, resiliência dos sistemas ecológicos e beneficiando a biodiversidade.

Genericamente, SCN são intervenções específicas destinadas a diminuir o efeito estufa provocado pelas emissões de gases e aumentar o armazenamento de carbono nas florestas, pastagens e áreas alagadas, a exemplo do pantanal e dos mangues, através de medidas de conservação, tais como eliminando o desmatamento, pela adoção das práticas de uso sustentável da terra e das práticas de recuperação. Já está comprovado, em bases científicas, que as SCN são capazes de prover em torno de 37% da redução das emissões de gases que são necessárias para limitar o aquecimento global, de acordo com o compromisso para o clima firmado na COP26. No entanto, apesar do tremendo potencial das SCN, estes recebem atualmente menos de 3% dos investimentos e financiamentos relacionados ao clima. É importante mencionar aqui que cerca de 50% das tecnologias necessárias para se alcançar o balanço zero de emissões, em torno de 2050, ainda estão em desenvolvimento, ou nas fases de protótipo ou demonstração; elas não estão ainda disponíveis no mercado.

As árvores possuem uma enorme capacidade de retirar (sequestrar) carbono da atmosfera por serem fotossintetizantes, processo em que transformam compostos orgânicos a partir da luz, água e dióxido de carbono (CO2), fixando o carbono em sua biomassa e liberando oxigênio para atmosfera. Este é um serviço ambiental natural fornecido pelas matas e florestas. Estudos mostram que as árvores são capazes de absorver, em média, entre 10 e 40 kg de CO2 por ano. Supondo uma árvore que absorva 25kg de CO2 por ano, um hectare com 400 árvores absorverá 10 tC/ano (toneladas de carbono por ano).

As araucárias (espécie araucária angustifolia) são árvores nativas da Região Sul do Brasil e pela qualidade de sua madeira foram intensamente e extensivamente exploradas por mais de cem anos. O corte delas levou a uma diminuição considerável das matas nativas de araucárias, sendo hoje uma espécie ameaçada de extinção. Estudos mostram que restam apenas cerca de 2% da cobertura original das araucárias. Embora, a partir de 2001, uma regulamentação proibindo o corte de araucárias no Brasil tenha sido legalmente aprovada, as ações de preservação e recuperação ainda estão longe de alcançarem o estado original das matas nativas de araucárias.

No Inventário Florestal Nacional de 2018, a área total de cobertura por floresta natural no Rio Grande do Sul é de cerca de 4.0 milhões de hectares (40 mil quilômetros quadrados em áreas descontínuas), mas apenas 9% desta cobertura corresponde a tipologia floresta ombrófila mista (FOM araucárias). Portanto, temos uma cobertura pela FOM equivale a 160 mil hectares (1.6 mil km2 não contínuos). Estudos anteriores indicam que a área original no RS, onde havia cobertura por araucárias (várias tipologias), chegava a cerca de 46.8 km2. Observe que este valor era superior ao valor de toda a região atual de cobertura por floresta natural no RS (40 mil km2).

Devemos refletir melhor sobre quanto vale uma floresta em pé, e não apenas o quanto custa para recuperá-las”  

Estudos recentes mostram que as araucárias apresentam um grande potencial de neutralização de carbono, sendo capazes de realizar um sequestro médio para 1.000 árvores/ha da ordem de 293 a 367 toneladas de CO2 em 20 anos, um valor bastante significativo, mesmo quando comparado com outras espécies comerciais de árvores, comumente usadas para silvicultura, que apresentam valores um pouco superiores. Além disso, as pesquisas mostraram que árvores na sua senescência são tão importantes quanto árvores jovens, uma vez que tanto as árvores jovens quanto as mais velhas são capazes de capturar e absorver carbono e produzir oxigênio em volumes muito próximos. Portanto, neste sentido, uma floresta antiga em pé é tão eficiente quanto uma floresta jovem e assim deve ser mantida, preservada e custeada.

A pegada de carbono de uma pessoa varia amplamente de acordo com o seu estilo de vida e, claro, depende muito da riqueza de um país. Por exemplo, nos Estados Unidos, o valor médio dessa pegada é de 21 tCO2e (toneladas de carbono equivalente) por ano, enquanto em Malawi, na África, é apenas de 0,2 tCO2e por ano. Isso é uma injustiça e ironia climática, uma vez que aqueles que menos contribuem serão, certamente, os primeiros a sofrerem os maiores impactos das consequências do aquecimento global. O valor médio global da pegada de carbono é da ordem de 7,0 tCO2e por ano, mas, para drasticamente reduzir-se as emissões de gases do efeito estufa (GEE), com foco no balanço líquido zero, especialistas afirmam que o objetivo seria alcançarmos no máximo um estilo de vida de 5 tCO2e por ano. Nas estimativas, cerca de 330 araucárias são capazes de sequestrar em torno de 5,5 tCO2e por ano. Em outras palavras, em menos de um terço de hectare, um pequeno bosque de araucárias é capaz de fazer o trabalho de compensação da pegada uma pessoa.

De acordo com o recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC – um órgão das Nações Unidas para estudos científicos relacionados às mudanças climáticas) estima-se que aproximadamente 730 bilhões de toneladas de CO2 precisam ser removidas da atmosfera, durante o século 21, a fim de limitar o aquecimento global em 1,5°C. Então, as alternativas não são muitas. Os SCN, dentre eles, as árvores, têm um papel fundamental nesse contexto.

Mundialmente, se fala muito em créditos de carbono, quando uma pessoa ou empresa faz uma redução na emissão dos GEE em seus processos produtivos, gerando tais créditos. Mas, quando se tem uma floresta produzindo serviços ambientais, qual seria a forma apropriada de se custear a quem prover tais condições para a preservação e ampliação de tais serviços? No Brasil, os mecanismos de pagamentos por serviços ambientais (PSA) ainda são bastante incipientes, apesar de termos muitos discursos e até legislações, como a recente Lei 14.119. Os dispositivos compensativos devem ser mais eficientes e efetivos, alcançando todos, pequenas, médias e grandes propriedades ecoconscientes.

O serviço ambiental produzido por uma mata nativa é tão ou mais relevante do que uma plantação de arroz, soja ou trigo. Não é só a Amazônia que deve ser preservada e regenerada, mas há muitos ecossistemas em diferentes biomas que devem ser regenerados e preservados. Uma mata nativa de araucárias, ou mais amplamente, uma Floresta Ombrófila Mista, desempenha um papel tão fundamental quanto outras tipologias de florestas. Vale salientar também que as florestas nativas ou plantadas de araucárias são mais bem adaptadas aos seus ecossistemas naturais, produzem uma gama enorme de benefícios relacionados à biodiversidade e ainda diversos serviços ambientais, quando comparados às florestas comerciais com plantas exóticas. Uma dissertação mostrou que as araucárias, de qualquer idade, são capazes de armazenar mais carbono nos seus fustes do que as árvores comerciais Pinus Taeda.

As nucleações de matas de araucárias existentes nos estados do Sul, mesmo estando sobre a proteção da lei anticorte, devem receber incentivos para as suas preservações e sustentabilidade, visando um manejo mais adequado para a manutenção de tais ambientes, inclusive contra ameaças que estão levando ao desaparecimento de novas mudas em tais matas, como as provocadas por animais exóticos como a crescente população de javalis.

Por isso, devemos refletir melhor sobre quanto vale uma floresta em pé, e não apenas o quanto custa para recuperá-las.

*Professor universitário aposentado e escritor

email: wlroque@gmail.com

AGROemDIA

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