Pecuária bíblica, dos pastores ao assédio ongueiro  

Gil Reis*

O início da pecuária se perde nas areias do tempo. A atividade é tão antiga quanto à existência da humanidade. A proteína animal tem garantido a sobrevivência dos seres humanos através dos séculos. Sem quaisquer deméritos a quaisquer outros, ela pode ser considerada o mais nobre dos alimentos. Foi pelas patas dos animais que o planeta foi conquistado e dominado. Caso não houvesse a proteína animal, talvez a evolução humana tivesse sido completamente diferente e não tivéssemos chegado ao que chegamos hoje.

O site Educa+Brasil traz informações sobre o surgimento da pecuária:

“A categoria de pecuária existe desde a época do período Neolítico (Idade da Pedra Polida), naquela fase em que os homens realizavam a atividade de criação e domesticação do gado com interesse apenas de extrair alimento, o homem precisou domesticar o gado para extrair carne e leite. Na época da Roma Antiga, os animais eram cuidados para o abate, mas também eram usados como uma forma de guardar valor, ou seja, era considerado um bem valioso.

A origem da pecuária se deu a partir das evoluções da atitude praticada pelos caçadores-coletores que viviam há cerca de 100.000 anos. Esses caçadores-coletores eram pessoas que existiam em uma comunidade em que a maioria ou toda a comida era alcançada por meio da busca pela alimentação.

Esses caçadores-coletores descobriram que podiam, além de prender os animais vivos para depois promover o corte, também administrar a reprodução dos mesmos. No passado, os povos nômades costumavam domesticar os rebanhos em suas jornadas e, assim, eles não iam mais atrás da caça somente, buscavam também novas pastagens para os bichos.

Os produtos mais importantes resultantes da atividade pecuarista são: carne – bovina, de aves etc.; leite, ovos, mel – principais produtos; couro, lã, seda – fibras usadas na indústria de roupas e calçados; ossos e outros. O couro também é bastante usado na indústria de automóveis e mobiliária.

Antigamente, os animais eram criados somente para servir como fonte de proteína. A atividade pecuarista é praticada por meio de rebanhos de: Suíno – porcos, Rangífero – renas, Asinino – jumentos, Bovino – bois e vacas, Muar – burros e mulas, Equino – cavalos e éguas, Caprino – bodes e cabras, Ovino – carneiros e ovelhas e Bubalino ou bufalino – búfalos.”

A pecuária é acusada de contribuir decisivamente com os gases de efeito estufa, mas o país que tem o maior rebanho comercial do mundo contribui apenas com 2,9% de tais gases”

Recentemente, em 17/6/2022, Evaristo Miranda publicou artigo fazendo um paralelismo da pecuária com a religião oficial do Brasil, sob o título “Produzir sêmen e embriões, a nova pecuária”. Transcrevo trechos:

“O Brasil é um país pecuário e cristão. Além de carne e leite, o sucesso da pecuária tropical brasileira se projeta aos poucos através da genética, da venda de sêmen, óvulos e embriões. Só em 2021 foram comercializados cerca de 29 milhões de doses de sêmen bovino no Brasil. A inseminação artificial tem sido fundamental no melhoramento genético da pecuária.

Pecuária vem da raiz latina pecua (termo coletivo para gado, rebanho), a mesma na origem de pecúlio. Na Roma antiga, o pecúlio era a pequena parte do rebanho deixada em pagamento ao escravo responsável pela sua guarda, por oposição ao peculiar: a parte própria do rebanho do proprietário. Essa palavra evoluiu para o sentido de específico ou próprio. Pecúnia vem da mesma raiz. Na origem, designava riqueza em animais, posteriormente em dinheiro, por extensão, moeda e ainda honorários, primitivamente pagos com animais. Com o tempo, pecuniário, significado latino de rebanho, estendeu-se para dinheiro. Resumo: bovino igual riqueza.

O Brasil é cristão, e a Bíblia prefere pecuaristas a agricultores. C´est la vie. Desde os relatos míticos do Gênese, o pecuarista Abel tem os favores divinos em face do agricultor Caim (Gn 4,3). Na vida nômade original dos hebreus, os arquétipos, símbolos e imagens da pecuária predominam sobre os agrícolas. A palavra pastor aparece cerca de 90 vezes na Bíblia, tanto no sentido próprio como no figurado. Deus é assemelhado a um pastor, como no conhecido Salmo 23. O próprio Jesus se apresentou como bom pastor, abrigo de suas ovelhas (Jo 10). Seu primo João Batista o chamou de Cordeiro de Deus (Jo 1,29). E, ao deixar este mundo, Jesus encarregou a Pedro, por três vezes, de apascentar o seu rebanho e o seu gado (Jo 21).

Em igrejas protestantes e evangélicas, pastor designa o líder da comunidade. Na Igreja Católica, o termo é próprio dos bispos. Eles têm no cajado ou báculo de pastor um dos símbolos episcopais, desde os primórdios do Cristianismo. No século 4, o báculo já era usado por bispos. Cristianismo e pecuária começaram juntos no Brasil. Em 1500, para os descobridores, na Terra de Santa Cruz parecia não haver agricultura nem pecuária. Em sua carta, Pero Vaz de Caminha assinalava: “(os índios) não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem nenhum outro animal acostumado a viver com os homens”.

Para atender às necessidades básicas de alimentação, saúde e vestimenta, os portugueses introduziram e aclimataram espécies vegetais e animais. As da pecuária foram todas importadas: galinhas, patos, gansos, abelhas, coelhos, jumentos, burros, búfalos, cavalos, ovinos, caprinos e bovinos. Quanto às necessidades espirituais, a Igreja evangelizou indígenas e povoadores.

Já lá se vão cinco séculos. Nos últimos 30 anos, graças à evolução tecnológica, o rebanho bovino aumentou 13% e a produção de carne 108%! A produtividade avançou 147%. A produção nacional de leite ultrapassa 35 bilhões de litros/ano e coloca o país em terceiro lugar no ranking mundial. E nesse período houve redução na área de pastagens. Todo ano diminui a área das pastagens no Brasil, ao contrário do propalado por alguns.

Em cinco séculos, o Brasil tornou-se o maior país cristão da Terra e líder na produção bovina. Paradoxo, agora há gente torcendo e trabalhando para um retorno ao Neolítico: um Brasil sem cristãos nem bois. Cristãos, bois e pecuaristas enfrentam ataques de toda natureza. Contudo, os pecuaristas prosseguem. Aboiam e tocam seu gado, com fé e trabalho. Alimentam o mundo. Com o melhoramento genético, mais pecuaristas conseguem, além da produção de carne e leite, aumentar sua renda com a venda de sêmen e embriões, aqui e no exterior. Mais pecúlio, sem peculato. Para honra e glória dos bovinos.”

Evaristo Miranda tem razão quando mostra a evolução da pecuária no Brasil e a perseguição que sofrem hoje os pecuaristas. O Brasil passou de importador de bovinos vivos – a importação de animais da Índia foi decisiva na melhoria e crescimento do nosso rebanho – a dono do maior rebanho comercial do mundo, sendo atualmente o quarto maior exportador de bovinos vivos do planeta.  Essa condição, aliás, é mais um motivo para a perseguição dos extremistas que desconhecem a história da pecuária em nosso país. Mesmo assim, hoje exportamos para a própria Índia a genética da nova raça desenvolvida aqui.

Hoje estudam-se alternativas para substituir a proteína animal por outras, o que inevitavelmente alterará a genética humana. Caso os extremistas obtenham sucesso – e pudéssemos viajar para o futuro –, talvez encontrássemos uma raça completamente diferente da que hoje somos, que nem pudesse ser classificada como humana.

Afinal, o que há por trás de tal sanha contra a humanidade? É compreensível que alguns movimentos de adeptos de determinado tipo de alimentação, liderados por ONGs com patrocínios vultosos, queiram promover suas preferências e crenças. No entanto, é espantoso que tentem insistentemente querer substituir a proteína animal pela vegetal, quando sabemos que o ideal é o consumo equilibrado das duas. Será que não se dão conta que humanidade precisa de alimentos de origem animal – entre eles, a carne bovina? Ou querem ampliar o número de famintos mundo afora?

Para encerrar, pasmem, cria-se aqui um novo paradoxo: a pecuária é acusada de contribuir decisivamente com os gases de efeito estufa, mas o país que tem o maior rebanho comercial do mundo contribui apenas com 2,9% de tais gases. A propósito, a pecuária brasileira desenvolve, hoje, uma séria de projetos, alguns parceria com instituições de pesquisa como a Embrapa, voltados a alimentar os bovinos de forma que emitam menos gases do efeito estufa.

*Consultor em Agronegócio

 

 

AGROemDIA

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