Gil Reis: Crise de defensivos – Nos EUA, produtores querem maior oferta; aqui, ativistas pedem redução

Foto: Arquivo pessoal

Gil Reis*

No Brasil, há um hábito muito comum de criar epítetos desairosos a tudo, como forma de reação ao que a maioria desconhece. Esse é o caso, por exemplo, do que ocorre com os defensivos agrícolas, batizados de ‘veneno’ e outros termos de desmerecimento pelos ativistas ambientais, que desconhecem não só como funciona a cadeia de alimentos como qual o processo é utilizado para a produção abundante que mantém a mesa de todos livre de bactérias nocivas à saúde humana. Há uma guerra aberta contra novos defensivos com fórmulas mais modernas, usados em todo o mundo.

Os ativistas que trabalham para ‘emprenhar a cabeça’ de todos contra os defensivos desconhecem minimamente a história da evolução da produção rural. Ignoram também a revolução produtiva provocada pela chegada e aplicação dos defensivos em um mundo que era escravizado por uma pequena produção agrícola regional. Tal situação levava muitas pessoas a morrer de fome quando as lavouras eram infectadas por pragas e infecções bacterianas oriundas do que comiam. Estou falando de um mundo com menos de 3 bilhões de habitantes, muito mais fácil de alimentar.

Será que os ativistas ambientais não se perguntam como estamos conseguindo alimentar o mundo atual com mais de 7 bilhões habitantes, a caminho de mais de 10 em 2050? Caso não se usasse os defensivos, teríamos que multiplicar o volume de terras utilizadas para a produção rural, ocupando, pelo menos, a metade do planeta. Por que isto aconteceria?

A resposta é muito simples: a produção rural com o uso de defensivos reduz a necessidade de terras utilizadas, produzindo infinitamente mais por hectare cultivado. É a chamada produtividade, que resulta no maior rendimento de uma lavoura sem aumento da área, o que é um benefício para o meio ambiente, algo que muitos ativistas preferem ignorar.

Um outro mau hábito que temos é acharmos que o Brasil é uma ilha isolada no planeta e que coisas ruins somente acontecem conosco. Ledo engano. O mundo também sofre em razão dos defensivos, não pela utilização, mas sim pela quantidade produzida, limitando a produção agrícola. Os que não acreditam, por favor, leiam o que disse o jornalista americano Tom Polansek no artigo “Escassez de produtos químicos ‘fora dos gráficos’ atinge fazendas dos EUA”, publicado em 27 de junho deste ano pela Reuters. Transcrevo trechos:

“Agricultores norte-americanos reduziram o uso de herbicidas comuns, caçaram substitutos para fungicidas populares e mudaram os planos de plantio devido à escassez persistente de produtos químicos agrícolas que ameaçam reduzir as colheitas. Pulverizar volumes menores de herbicidas e recorrer a fungicidas menos eficazes aumenta o risco de ervas daninhas e doenças prejudicarem a produção agrícola em um momento em que a oferta global de grãos já está apertada porque a guerra na Ucrânia está reduzindo as exportações do país.

A escassez reduz ainda mais as opções para os agricultores que lutam contra ervas daninhas que desenvolveram resistência ao glifosato, o principal ingrediente do herbicida Roundup comumente usados, após décadas de uso excessivo nos Estados Unidos. Os preços do glifosato e do glufosinato, outro herbicida amplamente usado vendido sob a marca Liberty, saltaram mais de 50% em relação ao ano passado, disseram revendedores, aumentando o lucro de empresas como Bayer AG (BAYGn.DE), BASF SE (BASFn.DE) e Corteva Inc (CTVA.N).

A grande diferença é que aqui se combate, com absoluta ignorância, o uso de defensivos e lá [nos EUA] a luta é pelo aumento da produção dos agroquímicos”

O Departamento de Agricultura dos EUA disse que ouviu de agricultores e empresas de alimentos preocupados se o agronegócio está elevando os preços de produtos como produtos químicos, sementes e fertilizantes para aumentar o lucro, não apenas por causa de fatores de oferta e demanda. A agência lançou um inquérito sobre a concorrência no setor, e alguns grupos de vigilância disseram que está indo muito devagar.

A Agência de Proteção Ambiental aprovou novas restrições ao uso de dicamba este ano em Iowa e Minnesota, dois grandes estados agrícolas. O herbicida, aprovado em 2016, enfrenta regulamentações mais rígidas porque atinge fazendas vizinhas e danifica outras culturas além da soja da Bayer, projetada para resistir ao dicamba. A ascensão de uma variedade rival de soja da Corteva, a Enlist, está aumentando ainda mais a demanda por glufosinato porque a safra pode ser pulverizada com glufosinato, entre outros produtos químicos, disseram os revendedores. Versões genéricas do Liberty à base de glufosinato foram vendidas por cerca de US$ 100 o galão, contra US$ 32 o galão no ano passado, disse Dion Letcher, proprietário da Letcher Farm Supply em Garden City, Minnesota. O aumento reduz os lucros dos agricultores com os altos preços das safras.

A escassez de Liberty e outros produtos começou no ano passado, quando os distribuidores usaram suprimentos de backup para compensar as interrupções no fornecimento em 2021, disse Letcher. Agora, não há reservas, disse ele. “Qualquer coisa da BASF é curta este ano”, disse Letcher. “Estou preocupado com o ano que vem.”

Para o glifosato, os preços chegaram a US$ 50 por galão a US$ 60 por galão, acima dos menos de US$ 20 por galão em meados de 2021, disse Inman, proprietário da Spinner Ag Incorporated. A Bayer informou que as vendas de produtos à base de glifosato foram “particularmente fortes” no primeiro trimestre, à medida que os preços aumentaram e os volumes caíram. No geral, suas vendas de herbicidas subiram 67% em relação ao ano anterior, para 2,5 bilhões de euros (US$ 2,64 bilhões).

A unidade de soluções agrícolas da BASF registrou vendas trimestrais de 3,4 bilhões de euros, um aumento de 21% em relação ao ano anterior. A Corteva também vendeu mais de US$ 2 bilhões em produtos de proteção de cultivos, um aumento de 23% em relação ao ano anterior, já que os preços subiram 11%. A BASF está procurando adquirir matérias-primas mais cedo para evitar escassez futura, disse Kay. A Bayer disse que ampliou sua base de fornecedores de matérias-primas e adicionou caminhões a granel para entregar produtos com mais eficiência. Os agricultores que não conseguem encontrar glifosato e glufosinato estão mudando para alternativas, disse Corteva.”

Creio que todos percebem que outros países sofrem com o problema de defensivos, principalmente o gigante americano, usado como exemplo por alguns. A grande diferença é que aqui se combate, com absoluta ignorância, o uso de defensivos e lá a luta é pelo aumento da produção dos agroquímicos. O que chama muita atenção no artigo de Tom Polansek é a informação sobre o uso, sem quaisquer restrições, do ‘glifosato’, tão combatido aqui, como se o mundo abominasse o produto.  Agora ‘durma-se com um barulho desse’.

Mais uma vez, escrevo algumas poucas linhas para desmentir o que vem sendo pregado pelos ativistas ambientais, financiados por países concorrentes da produção brasileira no mercado internacional. Afinal, quem tem razão? Os ativistas ou a realidade e a verdade?

*Consultor em Agronegócio

AGROemDIA

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