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O agro brasileiro e a COP27

Tito Matos*

Dizem que conselho só se dá a quem pede. Tem até uma máxima popular que diz: se conselho fosse bom´, ninguém daria de graça, vendia. Minha experiência, adquirida no mundo rural, me permite dar alguns conselhos ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que ora participa da 27ª Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, a COP 27. Nada dele ficar acanhado neste evento; ao contrário, pelo menos no setor do agronegócio, temos números positivos para apresentar de maneira eloquente, sem medo de ser feliz. Nada de constrangimentos em Sharm el-Sheik, no Egito.

Naquele palco, o Brasil tem condições de voltar novamente ao protagonismo das discussões mundiais climáticas, da preservação ambiental e da crescente produção de alimentos. Vale recordar aqui que o nosso país esteve diretamente envolvido na criação da COP e, inclusive, sediou o primeiro evento no Rio de Janeiro, em 1992. Infelizmente, durante a gestão do atual governo este tema foi relegado a um segundo plano, quando se registraram os piores índices de desmatamento. As cobranças sobre tais reprováveis procedimentos eram constantes. Sentou o Brasil no “banco dos réus” para ser condenado.

Em sua fala, Lula pode estufar o peito e dizer que a gente ainda preserva cerca de 60% de nossas florestas nativas, tais quais Cabral as viu aqui em 1.500. De lá para cá, a produção agropecuária brasileira cresceu exponencialmente, mas de maneira sustentável. De certo modo, em nossa agricultura tropical, a produção e a preservação ambiental não são excludentes como muitos imaginam. Não é exagero dizer que ambas vivem harmonicamente, com umas poucas distorções, é verdade. Os números que o agronegócio brasileiro apresenta todos os anos são de causar inveja ao mais bem-sucedido concorrente.

Basta revelar que, no ciclo 1976/77, o Brasil colheu uma safra de 46,9 milhões de toneladas de grãos numa área plantada de 37,3 milhões de hectares e uma produtividade de 1.260 quilos por hectare. Quarenta e cinco anos depois, ou seja, em menos de cinco décadas, a produção de grãos alcançará o volume recorde de 313 milhões de toneladas se as condições climáticas seguirem favoráveis, como até agora. Nesta safra, a área plantada foi de 76,8 milhões de hectares para um rendimento esperado de 4.075 quilos por hectare.

Merece destaque uma observação: enquanto a área plantada cresceu nesses 45 anos apenas 106%, a produção de grãos aumentou 567% e a produtividade quase triplicou no período: saiu de uma colheita de 1.260 kg/ha para 4.075 quilos por hectare, ou seja, aumentou 224%.

Este fenômeno é resultado de tecnologia, pesquisa e competência do produtor rural brasileiro, que trabalha dia e noite, chova ou faça sol. Não por acaso, o agronegócio é, sem qualquer dúvida, o setor mais exitoso da economia brasileira. Os números de todas as cadeias produtivas mostram tal sucesso.

Se ainda hoje o agro estivesse colhendo os mesmos 1.260 quilos por hectares, como na safra 1.976/1.977, a área plantada neste ciclo 2.022/2.023, seria de 248,8 milhões de hectares. Como se observa, 172 milhões de hectares foram preservados.

Estes dados são irrefutáveis. São da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) que tem expertise nessa área, daí sua credibilidade perante as agências internacionais de notícias e os agentes do mercado daqui e do mundo afora. O IBGE também confirma estes dados. Portanto, lá na COP 27, o presidente Lula pode citá-los à vontade sem receio de contestações. São estes mesmos números que assustaram e ainda assustam os concorrentes. Foram eles que, tempos atrás, patrocinaram um estudo denominado “Fazendas aqui, florestas lá.” Fizeram isso para inibir por aqui o setor produtivo rural, mas não teve jeito.

Aconselho o presidente Lula a dizer aos ouvintes que o Brasil dispõe de uma exigente legislação ambiental e que o importante agora é não permitir que se desfigure o Código Florestal Brasileiro. E, desde que, rigorosamente seguido, pode contribuir de uma vez por todas para evitar o condenável desmatamento de nossas matas.

Aliás, para aumentar cada vez mais a produção agropecuária, o agronegócio não precisa derrubar mais nenhum pau de qualquer bioma, principalmente da Amazônia. Nesta região, o Código Florestal prevê que as propriedades rurais devem preservar 80% de suas áreas. Quem aí desmata acima de 20% comete crime. E como tal deve tratado. Sim, temos áreas degradadas que podem ser aproveitadas.

Lá na COP 27, Lula deve assumir o compromisso de, em seu governo, estimular a geração de energia limpa. Para tanto, temos condições de sobra.  E que, a partir de agora, o mundo contará com um Brasil mais cooperativo, mais respeitoso com os compromissos assumidos, a fim de mitigar a elevada emissão de gases de efeito estufa e as intervenções destrutivas do  meio ambiente, flora e fauna.

Para atender tais compromissos, o Brasil não precisa renunciar ao seu protagonismo na produção de alimentos. Hoje, somos 8 bilhões de bocas no mundo. E todos sabem que panela vazia não rima com democracia, nem com paz, nem com harmonia. Outra coisa: nesta história do clima, é conveniente realçar que a natureza não sabe se defender, mas sabe se vingar. A hora de pensar nisso é agora, antes que seja tarde.

*Jornalista, ex-assessor de imprensa do Mapa, da Conab, da Comissão de Agricultura da Câmara e da FPA

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