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Aumento no valor dos fretes

Gil Reis*

Nada ocorre por acaso nas relações comerciais humanas. Os compradores pouco percebem as causas para existirem preços maiores ou menores no que adquirem. Há uma cadeia complexa na formação dos preços dos produtos vendidos no mercado. Entre os vários fatores que têm influência nos preços estão os fretes, ou seja, a distância entre a origem do que é produzido e o mercado. É a tradicional lei da oferta e procura, que alguns hilariamente tentam revogar, impactando diretamente no preço dos fretes.

John Kemp, analista de mercado, publicou na Agência Reuters, em 27 de março deste ano, o artigo “A aceleração global do frete aumentará os preços dos combustíveis”. Reproduzo trechos:

“Os fluxos comerciais globais mostraram sinais de aceleração no início de 2024, à medida que as principais economias industriais começaram a sair da crise iniciada no final de 2022, o que deve impulsionar a demanda por combustíveis para transporte, como o diesel. Os indicadores de atividade de curto prazo foram distorcidos por padrões meteorológicos incomuns na América do Norte e na Europa, com um dezembro excepcionalmente ameno seguido de temperaturas mais normais em janeiro.

No geral, porém, a maioria dos indicadores apontam para que a atividade industrial e de transporte de mercadorias comece a acelerar por volta da viragem do ano, em alguns casos de forma bastante acentuada, apesar das taxas de juro relativamente elevadas. Os volumes do comércio mundial ajustados sazonalmente atingiram o máximo em 10 meses em janeiro de 2024, de acordo com dados compilados pelo Gabinete Holandês de Análise de Política Económica (CPB).

A produção industrial global ajustada sazonalmente aumentou em dezembro, antes de diminuir em janeiro, o que poderá ter sido causado pelas condições meteorológicas e pelo calendário dos feriados. Mas, nos três meses de novembro a janeiro, a produção aumentou 1,7% em comparação com o ano anterior, o aumento mais rápido desde outubro de 2022.

O aeroporto de Heathrow, em Londres, relatou o início de ano mais movimentado em termos de frete aéreo desde antes da pandemia do coronavírus. A carga aérea movimentada nos primeiros dois meses do ano foi a mais elevada desde 2019 e aumentou 21% em comparação com o ano passado. O enorme terminal marítimo de Singapura também relatou ter movimentado um volume recorde de contentores no início de 2024. O frete total de contêineres para Cingapura aumentou 18% em janeiro e fevereiro em comparação com o ano anterior, o crescimento mais rápido desde 2018 e antes de 2010.

Nos Estados Unidos, o frete de contentores movimentado pelos nove maiores portos aumentou quase 7% em janeiro, em comparação com o ano anterior. As principais ferrovias dos EUA transportaram quase 5% mais contêineres multimodais em janeiro em relação ao ano anterior, o crescimento mais rápido desde 2021 e antes de 2016. Outros indicadores, como a carga movimentada através do aeroporto de Narita, no Japão, e as cargas de camiões nas autoestradas dos EUA, pintam um quadro mais misto. Mesmo aí, no entanto, os movimentos de mercadorias mantiveram-se estáveis, após descidas consistentes em 2023 e no final de 2022, apontando para a formação de uma depressão.

Os ataques com mísseis e drones ao transporte de contentores no Mar Vermelho e no Golfo de Aden redirecionaram o comércio entre a Ásia e a Europa-América do Norte para a rota mais longa e mais cara que contorna o Cabo da Boa Esperança. A interrupção dos fluxos de contentores poderá distorcer as estatísticas de frete relativas a fevereiro e março, tornando mais difícil confirmar qualquer mudança na tendência. Mas o quadro geral é que os movimentos de mercadorias começaram a aumentar mesmo antes de a Reserva Federal dos EUA e outros grandes bancos centrais terem cortado as taxas de juro.

Se os principais bancos centrais reduzirem as taxas este ano, como indicaram os decisores políticos, para impulsionar os gastos com habitação e bens duradouros caros, o aumento do frete irá acelerar. A maioria dos destilados médios de petróleo (incluindo diesel, gasóleo e uma proporção de combustível de aviação) são utilizados no transporte de mercadorias, na indústria transformadora e na construção.

O crescimento renovado da atividade industrial irá, portanto, impulsionar o consumo de destilados e provavelmente elevar os preços dos combustíveis e as margens das refinarias, especialmente tendo em conta que os stocks já estão abaixo da média de longo prazo. Além disso, os destilados médios constituem o maior grupo de produtos petrolíferos, representando 29% do consumo mundial de petróleo, aumentando para 35% se for incluído o combustível para aviação.

Os óleos combustíveis pesados ​​representam outros 7% do consumo global, e parte disso é utilizado no transporte marítimo, bem como na geração de energia em terra e em fornos industriais. Volumes de carga mais elevados traduzir-se-ão, portanto, rapidamente num crescimento mais rápido do consumo, provavelmente elevando os preços do petróleo bruto, bem como dos combustíveis refinados médios e pesados.

A aparente estabilização da indústria transformadora e do transporte de mercadorias, bem como o delicado equilíbrio no mercado de combustíveis, estão entre os fatores que tornam os bancos centrais cautelosos quanto ao momento e à escala dos cortes nas taxas. O cenário mais provável é de cortes modestos nas taxas, uma aceleração modesta na indústria transformadora e no transporte de mercadorias, e preços moderadamente mais elevados do petróleo e dos combustíveis durante o resto de 2024.”

O mundo tornou-se uma aldeia global através da globalização, não por invenção de algum sábio e sim fruto do inter-relacionamento e necessidades de todos os países. Em linguagem bem simples, os países que não produzem o suficiente para as suas necessidades ou para satisfazer os anseios de seu povo os adquire de outros. No mercado interno a lógica é a mesma e impacta diretamente nos preços, principalmente em relação aos alimentos. Naturalmente existem novos fatores que influenciam nos preços dos alimentos como as novas regras do ambientalismo importado.

“A globalização internacional é uma realidade. E, em um país das dimensões do Brasil, a globalização nacional é praticada há muito.”

*Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA  

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