Gil Reis*
A visão otimista sobre a agricultura não veio de nenhum cientista ou de um algum expert da agropecuária e sim de um estudante fazendo mestrado. Otimismo é o que precisamos cada vez mais no Mundo Rural tão achincalhado e espancado por ambientalistas e urbanoides que quando fazem suas compras de alimentos nos supermercado ou na vendinha da esquina não percebem que aqueles alimentos comprados e que garantem a sua sobrevivência são produzidos naquele mundo que costumam a criticar nas suas rodas de amigos e são aplaudidos.
O site Human Progress publicou em 24 de janeiro de 2025 o artigo “O futuro da agricultura: navegando pelo crescimento e pela inovação tecnológica” assinado justamente por aquele estudante que citei anteriormente: Mario Ottero Cricco, estudante de mestrado em Políticas Públicas e Gestão na Carnegie Mellon University, que transcrevo trechos.
“Os avanços agrícolas estão nos movendo em direção a um futuro mais próspero do que jamais imaginamos. O setor agrícola está à beira da transformação, impulsionado por inovações tecnológicas como agricultura de precisão, inteligência artificial e robótica. Embora esses avanços prometam aumentar a produtividade, eles também trazem novos desafios. Ao integrar tecnologia e mercados globais, a agricultura reduzirá a pobreza e abrirá caminho para um futuro mais próspero.
O setor agrícola está pronto para uma transformação significativa à medida que a população global continua a crescer. Embora os avanços na tecnologia, como agricultura de precisão e inteligência artificial (IA), sejam uma grande promessa para melhorar a eficiência e a produtividade, os desafios permanecem em termos de escassez de mão de obra e subutilização das tecnologias disponíveis. A conectividade aprimorada e o foco em soluções escaláveis serão cruciais para maximizar os benefícios das inovações agrícolas.
Há uma expectativa predominante de que a população global ultrapasse 10 bilhões nos próximos 20 anos. Embora esse número possa parecer assustador, é crucial lembrar que a população mundial triplicou desde 1950, mas a humanidade não morreu de fome. Esse notável crescimento populacional tornou-se administrável, principalmente no mundo desenvolvido, graças aos avanços na tecnologia agrícola, incluindo sementes, fertilizantes e técnicas agrícolas aprimoradas. Essas inovações não apenas aumentaram a produção agrícola, mas também minimizaram o uso da terra. Os Estados Unidos, por exemplo, precisariam de mais 100 milhões de acres há 30 anos para igualar os níveis de produção agrícola de hoje.
No entanto, discutir a agricultura é complexo, pois as práticas e os desafios variam significativamente de país para país e até mesmo dentro dos países. Nos Estados Unidos, o setor agrícola sofre com uma mudança geracional da agricultura, levando a uma persistente escassez de mão de obra. De acordo com um funcionário do governo da American Farm Bureau Federation, ‘A idade média de um agricultor é agora de 60 anos, e a mão de obra não está apenas encolhendo, mas também se tornando mais cara’.
Apesar do burburinho em torno da IA, tecnologias agrícolas sofisticadas, como aplicações de fertilizantes de taxa variável e monitoramento de rendimento, têm sido usadas desde a década de 1990. No entanto, apenas 27% das fazendas e ranchos dos EUA implementam atualmente práticas de agricultura de precisão para o manejo de culturas e gado, de acordo com dados de 2023 do Departamento de Agricultura dos EUA. Esse número é alarmantemente baixo para a maior economia do mundo e um grande produtor agrícola, sugerindo que as tecnologias disponíveis também são subutilizadas globalmente. Se a conectividade fosse integrada com sucesso à agricultura, poderia agregar US$ 500 bilhões em valor ao produto interno bruto global até 2030, de acordo com a pesquisa da McKinsey.
Inovações como IA e robótica também podem ajudar. O trator autônomo da John Deere e o sistema See & Spray, por exemplo, aproveitam o aprendizado profundo e a visão computacional para otimizar o uso de recursos e aumentar a produtividade, automatizando tarefas como a aplicação de herbicidas de precisão. Isso conserva recursos e melhora o rendimento das colheitas. Pesquisas em sistemas de visão de IA indicam seu potencial para melhorar a tomada de decisões em automação agrícola, levando a melhores rendimentos das colheitas entre 15 e 20%, custos de investimento reduzidos entre 25 e 30% e aumento da eficiência entre 20 e 25%.
No entanto, os desafios permanecem, principalmente com culturas especiais, como frutas, nozes e vegetais, que exibem diversas condições e requisitos de cultivo. Essa variabilidade pode dificultar a escalabilidade das soluções para algumas start-ups. Além disso, as empresas de capital de risco que investem pesadamente em empresas em estágio inicial geralmente buscam retornos de curto prazo, o que pode estar em desacordo com a natureza de longo prazo das startups de agritech. No entanto, apesar das recentes crises, o investimento de capital de risco em alimentos e agritech cresceu aproximadamente 20 vezes na última década, de acordo com a McKinsey.
O Banco Mundial concluiu que um setor agrícola mais produtivo tem o potencial de reduzir a pobreza, aumentar a renda e aumentar a segurança alimentar para 80% dos pobres do mundo. Também poderia diminuir o consumo de água em 25% e reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em 8%. Estamos caminhando para um futuro mais próspero do que jamais imaginamos. Os avanços tecnológicos e o empreendedorismo em todo o mundo tiraram milhões da pobreza e melhoraram os padrões de vida. Esse progresso não apenas inspira esperança, mas também cria oportunidades para as gerações futuras prosperarem.”
Mario Ottero Cricco, em seu artigo sobre as perspectivas do agro não traz para o produtor brasileiro nenhuma novidade, apenas o óbvio ululante, pois já houve a percepção há muito que este é o caminho a ser trilhado pelo agro e já está sendo trilhado. Caso alguém duvide basta um passeio por algumas propriedades de agropecuária. Lembro perfeitamente que há alguns anos estive na Universidade de Munique a convite de seu presidente em seguida professores daquela instituição de ensino superior fizeram visitas ao sul do Pará e no retorno estavam levando algumas ideias para alteração curricular para os cursos voltados ao agro.
E pensar que há quase 60 anos a mor parte dos alimentos que os brasileiros consumiam eram importados e hoje com o apoio do Ministério da Agricultura, da Embrapa, Senar e no passado das delegacias da Emater o Brasil se tornou um dos maiores produtores de alimentos do mundo, com o PIB do agro dando sustentação ao do nosso país.
“Aprendeu a preparar alimentos cultivados ou tirados da terra, fosse na cozinha da mãe, fosse sobre uma fogueira. Aprendeu que comida era mais do que ovos frescos que pegava no galinheiro ou uma truta bem grelhada. Comida significava sobrevivência” – Nora Roberts, “De sangue e ossos” (Trilogia Crônicas da escolhida).
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

