Gil Reis*
Independentemente de qualquer cunho ideológico, o alerta que vem da Rússia deve nos fazer repensar a forma como tratamos e abordamos os problemas que afetam a nossa juventude. Os promotores do caos que não conseguimos identificar e apenas assistimos as consequências de suas ações vêm trabalhando a juventude mundial contra a cultura de seus próprios países. O que está acontecendo com a juventude do mundo requer um exame bem mais acurado de qualquer autoridade consciente dos países do nosso sofrido planeta pela forma como os jovens são tratados. Afinal, eles representam o futuro da civilização como conhecemos hoje.
Trago neste artigo a transcrição de trechos de uma matéria publicada pelo site RT, em 01/09/2024, sob o título “Governo russo lista ameaças à juventude do país”. Creio todos deveriam ler com bastante atenção, sem qualquer tipo de preconceito.
“De acordo com uma revisão estratégica, os jovens são suscetíveis a conceitos estrangeiros como cosmopolitismo e individualismo. O cosmopolitismo e o individualismo entre os jovens podem se tornar um obstáculo ao desenvolvimento e ao crescimento econômico da Rússia, disseram autoridades russas. O aviso foi feito na Estratégia para a política de juventude da Rússia até 2030, que foi aprovada pelo governo em Moscou na quinta-feira. O documento foi preparado a pedido do presidente russo Vladimir Putin.
‘Há quase 38 milhões de pessoas com idade entre 14 e 35 anos na Rússia. Cuidar do futuro delas é Importante para garantir a segurança nacional. Isso exigiria esforços conjuntos dos órgãos governamentais e organizações sem fins lucrativos e, mais importante, envolver homens e mulheres jovens na tomada de decisões’, disse o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin durante uma reunião de gabinete.
No documento de estratégia, foi apontado que o funcionamento da Rússia como um ‘estado poderoso e economicamente desenvolvido’ necessita de uma população que seja ‘nacionalmente orientada e apoie valores tradicionais’. Isso deve ser alcançado por meio do ‘desenvolvimento harmonioso dos jovens e seu potencial criativo’, dizia.
Devido ao seu papel fundamental na sociedade, a geração mais jovem foi selecionada como ‘o principal alvo da intervenção ideológica realizada de fora para enfraquecer o estado russo’, enfatizou o jornal. Uma das maiores ameaças aos jovens do país é ‘a imposição do estilo de vida e hábitos de consumo ocidentais’, que incluem visões extraterritoriais, apolíticas e desvios sexuais. O sistema moral da geração mais jovem na Rússia ‘reflete mudanças de valores do coletivismo para o individualismo e do estatismo para o cosmopolitismo nos últimos 30 anos’, afirmou.
O documento observou que ‘valores individualistas frequentemente levam a dificuldades para os jovens na formação de relacionamentos na família, com amigos e no trabalho’. Ele destacou o desenvolvimento de valores coletivistas dentro da faixa etária como uma tarefa importante para o governo nos próximos seis anos. Alguns dos outros perigos para os jovens mencionados na estratégia são o enfraquecimento da conexão entre gerações, a degradação dos valores espirituais e morais tradicionais, o niilismo legal, o envolvimento insuficiente em atividades socialmente úteis e um número crescente de crimes cometidos por jovens, inclusive com o uso de tecnologias de informação e comunicação.
De acordo com o documento, as principais áreas da política de juventude da Rússia até 2030 seriam apoiar o movimento voluntário e as organizações patrióticas, introduzir oportunidades adicionais de estudo e treinamento avançado, expandir o acesso a conteúdo online de qualidade como parte de iniciativas culturais e educacionais, promover o idioma russo como base para cooperação em plataformas internacionais e criar infraestrutura adicional para recreação e esportes.”
Não pretendo enveredar pela defesa dos valores, política interna ou ideologia existentes na Rússia. Apenas chamo a atenção para o fato de que aquele país resolveu prestar mais atenção à juventude. Tanto lá como cá há um ‘solapamento de valores culturais tradicionais’. Cada país do mundo possui sua própria cultura, que deve ser preservada. Não existe cultura melhor ou pior, o que existe é a cultura que os habitantes foram criados. Na minha modesta opinião o ‘proselitismo’ cultural é extremamente danoso para qualquer comunidade. Culturas evoluem e tal evolução deve ser responsabilidade de cada povo com vista ao que acha melhor.
Em um mundo cada vez mais globalizado é mais do que admissível os vazamentos e a influência cultural, o que deve ser observado e corrigidos são valores que possam atingir as futuras gerações subvertendo seus valores prejudicialmente. O choque cultural deve ser evitado. O que todos devemos fazer é buscar o equilíbrio. Equilíbrio é uma expressão quase mágica que ninguém deve se iludir achando ser fácil. Este é um trabalho ‘geracional’. Está convencionado que a cada 10 anos surge uma nova geração e neste tempo o mundo sofre mudanças.
O nosso país está inserido no dito mundo ocidental e precisamos cuidar melhor da nossa juventude. Devemos cuidar melhor se pretendemos alcançar o desenvolvimento social e econômico do Brasil. Não devemos esquecer jamais que a juventude é o futuro de qualquer país. É preciso, também, que ninguém se iluda achando que se pode reverter o quadro de pobreza existente com uma mágica econômica caída do céu ou com ações de sábios. O que devemos fazer é cuidar dos jovens de forma a preparar a juventude para enfrentar os novos tempos que se avizinha, estejam preparados para superar as dificuldades que enfrentarão. Não podemos deixar aos nossos jovens uma ‘herança maldita’ por descaso e desatenção.
Aqui no Ocidente costumamos a responsabilizar as mudanças de comportamento dos jovens às drogas. Atenção: tais males não são causa e sim consequências. Tudo se relaciona com as oportunidades e opções que oferecemos à juventude. Estou falando de opções sérias e não aquelas jogadas à esmo no terreiro e cada um consuma como achar melhor. A publicação dos procedimentos que a Rússia vem adotando em relação ao tratamento da juventude deve ser uma ‘dica’, não que devamos copiá-los e sim que visualizemos que devemos mudar.
Costumo dizer que quando entrei para a faculdade existiam poucas profissões respeitadas e admitidas. O mundo mudou e hoje existem dezenas de novas profissões que devemos ofertar aos nossos jovens para que tenham um futuro saudável e próspero. Que tal começarmos fortalecendo a educação pública de base? Sempre me orgulho de dizer que fiz todos os meus estudos em escolas públicas e cheguei até aqui. Não que seja contra a educação privada, cada uma tem o seu papel na história do país.
Precisamos tratar melhor os nossos jovens sem descaso e com mais atenção. Hoje o que oferecemos a eles? Talvez valha a pena refletir sobre o futuro que queremos para o Brasil.
“A educação é o nosso passaporte para o futuro, pois o amanhã pertence às pessoas que se preparam hoje” – Malcolm X.
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

