Gil Reis*
O Brasil, independentemente das origens ou atividades, sempre foi aberto à imigração. Os imigrantes, ao longo dos séculos, nos ajudaram a construir a nossa cidadania e soberania. Alguém em sã consciência consegue pôr em dúvida a participação dos imigrantes na construção do nosso país? Os brasileiros têm convivido pacificamente com os ditos ‘estrangeiros’ que aqui chegaram. No início não havia brasileiros, apenas os povos originários (mal chamados de índios em razão de um erro geográfico – os navegadores acreditavam ter chegado em território indiano e a denominação ficou) e os portugueses que logo começaram a se miscigenar. A partir daí, a criação do povo brasileiro foi consequência de um ‘par de deux’ com os estrangeiros que aqui chegaram.
O relacionamento sexual, legal ou ilegal, com os imigrantes foi a origem do atual povo brasileiro que absorveu diversas culturas, religiões, crenças, ideologias e tudo o mais que trouxessem. Com o conceito jurídico do ‘Jus Solis’, deriva do latim e significa “direito de solo” e garante ao indivíduo o direito à nacionalidade do lugar onde nasceu. Não havia durante o processo de miscigenação grandes preconceitos, salvo por parte de algumas elites. O leitor pode conhecer através deste artigo, em passant, um pouco de como foi ‘construído’ o nosso povo.
Os governantes de alguns países não se comportam da mesma maneira. A Agência Reuters publicou, em 16/01/2024, matéria assinada por Andrew Macaskill, Elizabeth Piper e Alistair Smout, que nos mostra o que acontece na civilizada Inglaterra. “O primeiro-ministro do Reino Unido, Sunak, perde dois apoiadores vocais para a rebelião de asilo”. Transcrevo trechos:
“O primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, derrotou nesta terça-feira uma rebelião inicial de direita em seu partido sobre uma legislação para deportar requerentes de asilo para Ruanda, recusando-se a ceder terreno em uma batalha que levou dois de seus principais apoiadores a renunciarem. As demissões de dois vice-presidentes conservadores sublinharam as profundas divisões no partido do governo de Sunak sobre a legislação que ele acredita ser crucial para reverter a popularidade do seu partido antes das eleições deste ano.
Alguns legisladores conservadores dizem que o plano do Ruanda, que visa impedir que os requerentes de asilo interponham novas contestações judiciais contra as suas deportações, não vai suficientemente longe, enquanto outros temem que qualquer endurecimento adicional violaria o direito internacional e que Kigali poderia cancelar o acordo. Mas Sunak só venceu porque a maioria dos partidos da oposição também votou contra os rebeldes, e as dezenas que votaram a favor das mudanças poderão alimentar uma rebelião mais ampla que poderá ver o governo derrotado na votação final na câmara baixa do parlamento sobre a legislação na quarta-feira.
Um importante legislador disse que os rebeldes tinham números suficientes para derrotar Sunak na votação final, também convocada para uma terceira leitura. ‘Isto mostra a extensão da insatisfação no partido parlamentar. Houve rebeliões mais do que suficientes para derrotar o projeto de lei na terceira leitura, disse um legislador sob condição de anonimato.
Sunak fez da interrupção da chegada de migrantes vindos de França em pequenos barcos um objectivo central do seu governo. A maioria deles afirma estar a fugir de guerras e abusos no Médio Oriente, África e Sul da Ásia e à maioria das pessoas que chegaram nos últimos cinco anos e cujos casos foram concluídos receberam o estatuto de refugiado. Mas o governo britânico diz que cerca de 90% dos que fazem a viagem são homens, e muitos deles migrantes económicos, e não refugiados genuínos.
Sunak enfrentou a ameaça mais séria à sua liderança no mês passado, quando evitou uma potencial revolta de dezenas de seus legisladores na primeira votação parlamentar da legislação. Quase 60 membros conservadores do parlamento apoiaram uma alteração que teria impedido o direito internacional de bloquear as deportações, com alguns membros da direita do partido a dizerem que isto deveria persuadir Sunak a endurecer a legislação.
Os vice-presidentes do Partido Conservador, Lee Anderson e Brendan Clarke-Smith, disseram que renunciaram devido à falta de disposição do governo em endurecer a legislação. Embora o nosso principal desejo seja fortalecer a legislação, isso significa que, para votarmos a favor das alterações, precisaremos, portanto, apresentar-lhes as nossas demissões, disseram Anderson e Clarke-Smith numa carta conjunta.”
Pois é. Enquanto o ministro inglês e o parlamento se digladiam, por puro medo dos imigrantes, nós aqui os recebemos de braços abertos porque sabemos da contribuição que eles trouxeram para o nosso país nos diversos ramos do conhecimento e setores da economia. É impressionante como as coisas mudaram na Inglaterra.
“A riqueza de um país não necessariamente é construída com base nos recursos naturais próprios: pode ser obtida ainda que não haja nenhum. O recurso mais importante são as pessoas. O Estado só precisa lançar as bases para que o talento das pessoas floresça” – Margaret Thatcher, política britânica que exerceu o cargo de primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990 e líder da oposição entre 1975 e 1979. Foi a primeira-ministra com o maior período no cargo durante o século XX e a primeira mulher a ocupá-lo.
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

