
Felipe Augusto Philippsen, médico veterinário*
– Olá Tudo bem com vocês?
– Então, pessoal, estou aqui para desabafar um pouco e tentar, assim, melhorar um pouquinho do que eu espero pro meu futuro. Conto com a contribuição de todos que vão ler esse “desabafo”.
– Bem, meu nome é 517. Apesar desta cara de moça brava, sou um anjo. Resido em um ambiente MUITO legal, tenho uma cama confortável, água limpa à disposição e, na hora que quiser, uma comida MUUUUUITO boa, e, o melhor, SEMPRE à disposição.
– Ah, esqueci de mencionar: na minha cama, onde vivo junto com outras amigas, tenho ventilador também. E, onde fazemos nossas refeições, temos ventiladores e, acreditem se quiserem, no verão (sofremos muito com o calor) temos VENTO e ÁGUA enquanto comemos, para nos sentirmos melhor.
– Hoje nós liberamos o nosso leite duas vezes ao dia, uma beeeem cedinho da manhã e outra no fim da tarde. Lá, também temos algumas regalias!! Tem um ventilador que faz um vento muito bom, além de termos um equipamento de ordenha que está sempre em dia. Assim, não machuca os nossos tetos e, ainda por cima, o nosso tutor contratou duas pessoas que são muito queridas, não nos batem, não gritam conosco, estão sempre com luvas nas mãos e são bem carinhosas para mexer nos nossos tetos, até nos colocam apelidos!
– Temos um médico só pra nós! Seguidamente, ele está aqui conosco, sempre nos avaliando com um aparelho que eles chamam de Ultrassom! Além do fato de que ele também deixa nossa comida no jeito!!!! Assim, estamos sempre com um corpão perfeito!
– Só que estamos com um problema!!! Nosso tutor está com dificuldade financeira… É, escutei ele falando no telefone esses dias que se continuasse assim talvez até tenha que parar de trabalhar conosco, pois, além de não sobrar nada…, às vezes ainda fica no vermelho…
– E aí eu pensei. Bom, se ficar mesmo pior do que está, será que ele vai conseguir plantar milho, colher certinho, aproveitando tudo que tem nesse milho?
– Será que ele vai conseguir comprar mais os alimentos que compõem a nossa dieta?
– Será que ele vai conseguir pagar a conta de luz para manter a ordenha, nossos ventiladores e nossa água nos dias quentes?
– Será que ele vai conseguir trocar os equipamentos de ordenha no tempo certo para que isso não nos machuque?
– Será que????
– Poxa… estou triste. Já faz tento tempo que vejo o meu tutor assim, aflito, preocupado, mas ele diz que ama o que faz, e que ama todas as minhas companheiras que aqui estão junto comigo…
– Entra ano e sai ano, entra um presidente e sai outro… e NINGUÉM olha pra nós… Será que vamos ter que realmente parar de produzir um ALIMENTO para virar outro na mesa das pessoas?
– Estou com medo do rumo que isso possa tomar.
*Presta serviço na propriedade do produtor Joel Dalcin, no município gaúcho de Doutor Maurício Cardoso

