Crise no leite 2: “Governo não dá a devida importância à cadeia leiteira”

Joel Dalcin (E) e Awilson Viana: Dimensão do setor leiteiro não é levada em conta na hora de apoiar os produtores

Da redação AGROemDIA

A esperança dos produtores de leite em contar com o apoio do governo federal para alcançar melhorias para a cadeia produtiva está dando lugar a uma insatisfação crescente. Para eles, falta vontade política para atender suas reivindicações, especialmente neste momento, quando o setor vive uma crise provocada pelos altos custos de produção, recuo de preços ao produtor e retração de consumo em consequência da queda de renda da população por causa da pandemia de covid-19.  

Embora venham conversando, nos últimos meses, com a ministra Tereza Cristina (Agricultura) e a equipe técnica do Mapa, os representantes dos movimentos Construindo Leite Brasil, Aliança e Ação/Aproleite Goiás, União e Ação e Inconfidência Leiteira reclamam que não há avanços nas negociações para adotar medidas emergenciais para apoiar o setor.

Eles também estão descontentes com o andamento das tratativas para construção do Compete Leite Br, o plano nacional de desenvolvimento da cadeia leiteira, por entender que há obstáculos ao acolhimento de suas propostas.

“O governo parece não conhecer e não conseguir mensurar a grandeza deste setor para a economia do país. Por isso, não dá a devida importância à cadeia leiteira, que passa por grandes dificuldades”, afirma o produtor Joel Dalcin, do município gaúcho de Doutor Maurício Cardoso.

“Tudo se valorizou no agro, o que gerou um grande aumento nos custos de produção do leite.  A maioria dos setores está comemorando colheitas e preços bons (alta lucratividade), mas o produtor de leite amarga prejuízos, com alto nível de endividamento”, sublinha Joel Dalcin.

“Manda quem tem dinheiro e margem garantida”

O produtor de Doutor Maurício Cardoso cobra ainda resultados das entidades representativas da base rural. “Assistimos ao trabalho ‘incansável’ das entidades representativas do setor e não conseguimos colher resultados que mudem a realidade de quem produz leite neste país. Parece que manda quem tem mais dinheiro, previsibilidade e margem garantida. O ônus fica sempre para o produtor, que produz a matéria-prima e sustenta toda a cadeia láctea, pagando inclusive a ineficiência e a ociosidade das indústrias.”

Para Joel Dalcin, está hora de as entidades representativas do setor mostrarem resultados. “O produtor está cansado de ser feito de palhaço. Todos dizem nos defender, mas as soluções não aparecem. Vejo fotos e vídeos sobre as demandas do setor, mas nenhum resultado efetivo. Isso é muito triste. Precisa mudar.  Está faltando respeito e consideração com o produtor. Está na hora das entidades que nos representarem de verdade não aceitarem lobbies, para que as demandam passam avançar.”

De acordo com Joel Dalcin, é preciso “limpar e moralizar este sistema”. “Só assim poderemos progredir e fazer deste o país ser o maior produtor de leite do mundo, mostrando a importância do produtor de leite para o agro brasileiro. Dias melhores virão se nossos representantes tomarem atitudes para as mudanças acontecerem de verdade. Juntos somos mais fortes, mas vale destacar que muitas vezes precisamos ser fortes para estarmos juntos.”

“Chegamos ao fundo do poço?”

Na avaliação do produtor Awilson Viana, do município de Candeias (MG), a situação enfrentada pelo setor leiteiro nos últimos tempos é simplesmente reflexo da ineficiência. “Chegamos ao fundo do poço ou ainda temos mais alguns metros para cair?”, pergunta, fazendo, em seguida, um desabafo sobre a crise do setor.

Segundo ele, a situação vivida pelos produtores de leite é resultado da “ineficiência do setor produtivo em ser competitivo em custo de produção com o resto do mundo.”

“Ineficiência na união entre os produtores”, acrescenta Awilson Viana. “Ineficiência para conseguirmos segurar nosso alimento dentro do país para dar ao nosso rebanho. Outros países nos deixaram sem a soja e sem o milho que produzimos aqui.”

O produtor mineiro prossegue: “Ineficiência do governo (executivo) em evoluir e assegurar a prosperidade dos produtores, em acabar com doenças crônicas que fecham o mercado para o leite brasileiro, em diminuir taxas e tributos que encarecem tudo que o produtor de leite precisa para produzir: adubo, insumos, medicamentos, energia, combustível, máquinas e equipamentos”.

“Ineficiência na relação entre as indústrias e os produtores.  Ineficiência de nossos políticos (Congresso Nacional). Ineficiência das nossas entidades representativas (OCB, CNA, ABRALEITE)”, pontua.

“Todos, e coloco todos, têm a sua contribuição para a ineficiência e, consequentemente, para situação que chegamos hoje.”

Clique aqui para ler mais sobre a crise no setor leiteiro.

 

 

 

 

AGROemDIA

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