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Opinião: Cooperativismo de crédito, liberalismo e democracia financeira

Christophe de Lannoy*

As cooperativas de crédito precisam mostrar que são diferentes dos grandes bancos. Não podem se igualar com eles nesta corrida maluca por conquistar novos clientes. Às nossas cooperativas convêm se apresentarem cada vez mais como o equivalente a bancos locais, que pensam a economia e a sociedade localmente.

No Brasil, o sistema financeiro é como um câncer. No exterior, quando explico as taxas de juros que vigoram aqui, logo me perguntam: como pode funcionar uma economia assim? Ninguém consegue entender lá fora.

Felizmente nossas cooperativas de crédito cresceram e avançaram nos últimos anos. Que bom! O cooperativismo de crédito só não cresce mais rapidamente porque depende de novos sócios para se capitalizar, já que não pode ir ao mercado de capitais vender ações.

Mas as cooperativas já chegaram a um ponto em que, somados seus depósitos à vista, suas reservas e seu capital social, possuem uma considerável massa de recursos captados com juros muito baixos e podem, com eles, criarem linhas de crédito ou fundos para o desenvolvimento de um lugar, sem precisar do governo.

Os sócios não fazem a conta, mas cada um pode ter na sua cooperativa uma média de 15 ou 20 mil reais aplicados somente na soma do patrimônio líquido (cotas-partes e reservas) mais os depósitos à vista (sem juros) da sua cooperativa. As cooperativas de crédito não precisariam seguir o mercado na cobrança de taxa de juros (que são em geral absurdamente altas) e poderiam acordar entre elas linhas especiais de crédito para público ou setores determinados. Assim, o quadro social ganharia consistência de modo a evitar que o sócio se sinta apenas um cliente.

As cooperativas de crédito deveriam ser cada vez mais consideradas entidades públicas (não estatais). Ou seja, uma opção liberal, pois podem fazer política pública sem depender do governo, sem onerar as contas públicas. Na Itália, por exemplo, o cooperativismo é considerado parte do setor público. E o Brasil precisa aliviar o peso do Estado na sua economia fortalecendo o cooperativismo.

São as cooperativas que podem realizar melhor que ninguém a democratização do crédito e dos financiamentos. Sem dúvida, hoje as cooperativas de crédito animam a economia local e patrocinam muitas atividades que grandes bancos e grandes empresas não se preocupam em patrocinar.

Nosso futuro depende de mais cooperação e não de tanta competição. O ideário liberal defende a competição como condição para a redução de custos e avanço da inovação, mas a competição em excesso torna-se predatória, autofágica. Daí a importância da cooperação.

As cooperativas de crédito são a cunha da sociedade no nosso sistema financeiro muito perverso. Cada vez mais as cooperativas devem ser reconhecidas como sociedade de pessoas e não como uma sociedade de capitais. No cooperativismo, como no setor público, o mais importante não é a rentabilização de capital ou patrimônio, mas cuidar da sociedade, das pessoas. Por isso, é bom ser cooperativista e promover o cooperativismo.

*Engenheiro agrônomo, sociólogo rural e presidente da Cooperpinhais

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