
Gil Reis*
É impressionante o esforço e o trabalho que os produtores fazem por todos. Sempre é bom lembrar que a produção rural nasceu por volta de 12.000 anos e os núcleos urbanos surgiram no ‘entorno’ das áreas onde os alimentos eram produzidos em razão do acesso fácil ao ‘pão nosso de cada dia’. Durante séculos, os seres humanos desbravaram o planeta, mas, mesmo assim, as comunidades urbanas se mantiveram próximas às zonas de produção, para que os alimentos pudessem ser transportados de ‘carroças’ de tração animal.
Com a maior ocupação do 1/3 de terras existente no nosso planetinha e o desenvolvimento de veículos que se deslocavam a grande velocidade e cobriam em pouco tempo distâncias que um veículo de tração animal levaria semanas, as comunidades urbanas se distanciaram da produção de alimentos. Nascia assim um fenômeno trágico: pessoas que não tinham origens no campo deixaram de valorizar os produtores e a produção rural. E, do alto de seus gabinetes confortáveis e de restaurantes ‘chics’, começaram a denegrir as mãos que os alimentam.
Quem descreve a situação de hoje é Lutero de Paiva Pereira, advogado especializado em direito do agronegócio, em artigo publicado no site Direito Rural, no dia 10 deste mês, sob o título “O agro alimenta seus inimigos”. Transcrevo.
“É incrível pensar que o agronegócio tem a vocação quase religiosa de cuidar dos seus próprios inimigos, ao invés de combatê-los. No entanto, ao dispensar-lhes bem-estar, enquanto por eles é maltratado, o agro se enobrece. Afinal, nos muitos eventos que se multiplicam afora, onde incansável e ferrenhamente é hostilizado, o agro vê o emprego de prédicas homéricas para agredir o setor. Tais faladores inconsequentes não se dão conta, propositadamente ignoram a realidade ou fazem questão de ver somente o que lhes interessa, que, ao se reunirem para difamar o agro, do próprio agro se beneficiam naquele. É incrível, inacreditável, mas verdadeiro. Vamos aos fatos.
Em toda reunião que congrega altas autoridades para estudar as mudanças climáticas que ocorrem no mundo, coisa que acontecia desde antes que a história passou a registrá-las, a tônica é difamar um setor em especial. Qual? O agronegócio. Sim, o agro queima, desmata e faz o diabo contra a terra, e isto em prejuízo de todos, dizem. Insistem que o produtor rural é o agente causador de todo mal que provoca o derretimento das geleiras, o aumento das ondas de calor e frio, a elevação dos níveis dos mares etc.
Não são diferentes os encontros voltados aos estudos que tratam da poluição dos ares, dos rios etc. Novamente, o setor é lembrado negativamente pelo tanto de fumaça que lança na atmosfera e coisa que o valha. Ah, o agro, esta “chaminé” a céu-aberto que insiste em intoxicar a todo ser que respira. Melhor seria se não existisse, pensam, para que o resto existisse. Mas existiria alguém sem a existência do agro?
O que não dizer então das cúpulas que denunciam com vigor o tal furo na camada de ozônio que, como dizem, têm reflexos desastrosos no planeta terra. De quem é a culpa? Isto mesmo, do produtor rural, mais especificamente do pecuarista que não ensina seu boi a arrotar menos e com mais educação, quem sabe colocando a pata à boca para evitar que os gases subam causando o furo lá em cima para desastre aqui embaixo. Aliás, dizem também que o animal, soltando gases noutro local do corpo, também prejudica a camada de ozônio. Talvez desejassem que fosse aplicada uma boa dose de luftal na boiada, a fim de proteger o mundo dos efeitos do pum coletivo.
Tão revoltados contra o agro, tais eventos, para manterem coerência, deveriam adotar a seguinte postura: ao término de tudo, o clímax coerente seria proclamarem um grande e saboroso jejum. É isto mesmo. Deveriam convidar todos a se assentarem à mesa e, imediatamente, ao sinal de quem estivesse na sua cabeceira, cruzar os talheres antes de serem servidos, sinalizando aos garçons para retirarem os pratos, pois, naquele momento, em protesto contra o agro, o inimigo do planeta, não comeriam nada e nem beberiam coisas que só o agro produz.
No entanto, não agem assim. Durante as conferências, como também no seu último e derradeiro dia, os congressistas, em estado de euforia por tudo que criticaram, fazem questão de serem bem servidos. E, no encerramento do congresso, da conferência ou da cúpula, o ponto alto é provarem de um farto e apetitoso jantar, onde se come e bebe do melhor. E quem patrocina o jantar? Justamente o agro, que a despeito de maltratado, trata bem os que lhe são contrários. Se um dia o agro perder esse “dom” ou vocação de tratar bem seus inimigos, e deles começar a se distanciar, quem sabe se convertam em amigos para ajudá-lo a ser reconhecido à altura do que merece.”
O Lutero abordou somente o tema alimentação. Não citou os diversos confortos da vida dita ‘moderna’ ensejados, justamente, por produtos originados no agro e que não pretendo enumerá-los, porque levaria muito tempo e ocuparia muito espaço neste artigo. Você, meu caro leitor, não sei onde está lendo estas ‘mal traçadas linhas’, pode ser que esteja sentado em uma poltrona de couro ou se estiver trabalhando em um computador ou através do celular, deve estar rascunhando em papel a lápis (de madeira) o que vai transcrever para a máquina.
Os que são interioranos ou de famílias da área rural sabem a origem dos alimentos e os valorizam, os demais, cidadãos urbanos de 2ª., 3ª ou 4ª geração, se forem incultos devem imaginar que aquele suculento bife, as verduras, legumes e leite nasceram nas gondolas dos supermercados, no talho dos açougues ou nas geladeiras das mercearias. Pior que o desconhecimento das origens dos alimentos é a enorme ingratidão que escurece o coração dessas pessoas que, além de desmerecer o produtor rural e a produção de alimentos, os denigrem, acreditando na perversa onda do ambientalismo forjada para tirar a vida dos mais pobres, que estão perdendo o acesso aos alimentos e sucumbirão de fome.
“A gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar” — Samuel Johnson (1709-1784) escritor e pensador inglês.
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA
