Agricultura comercial divide povos indígenas

a indigena 4
Fotos: Eliane Santos

O uso de terras indígenas para agricultura comercial não é unanimidade entre os índios. Foi o que ficou claro na última quarta-feira (18) na Câmara dos Deputados: enquanto no auditório da Comissão de Agricultura cerca de cem lideranças de diferentes etnias se declaravam a favor das parcerias agrícolas com produtores e cobravam políticas de crédito rural, outro grupo tão numeroso e representativo dos povos indígenas protestava do lado de fora, denunciando o que considera uma estratégia de dominação dos territórios desses povos, por meio de arrendamentos de áreas e outros mecanismos.

“Querem acabar com nossa terra, com nossa água, com nossa biodiversidade. A riqueza de um país não se mede em volumes de exportação agrícola, mas em vida”, repetiam os índios que estavam em frente ao anexo 2 da Câmara dos Deputados. Em determinado momento, um grupo de indígenas tentou entrar pelo anexo III. Vidros foram quebrados e a Polícia Legislativa reagiu jogando bombas de gás lacrimogêneo. Com o tumulto, as entradas da Câmara foram fechadas e o acesso ficou restrito a parlamentares e servidores.

a indigena 0

“Já mataram o Rio Doce. Agora querem nos matar”, disse a índia tukana Daiara, do Amazonas. Ela se referia ao rio que atravessa Minas Gerais e Espírito Santo e foi atingido pelo vazamento de rejeitos de minério da barragem de Fundão, no município de Mariana, em 5 de novembro de 2015, sofrendo sérios prejuízos ao seu ecossistema, especialmente o marinho. “Tão matando nosso povo”, reforçou o cacique Darão, de Itaporanga (SP).

Parcerias agrícolas

Se do lado de fora o clima era de aversão à bancada ruralista, no auditório da Comissão de Agricultura havia sintonia entre os indígenas e os parlamentares do agro. “Queremos fazer parcerias agrícolas, por meio das quais entraremos com a terra e a mão de obra e o parceiro com os insumos, e ter linha de financiamento para plantar e comercializar via cooperativas”, ressaltou o índio caingangue coronel Airton Ribeiro, da reserva Guarita, no Rio Grande do Sul.

a indigena 10

“Temos que abrir o debate para termos política agrícola para as terras indígenas”, acrescentou o índio parecis Arnaldo Zunizakae, de Mato Grosso. Com 2 mil indígenas, a etnia parecis ocupa 1,2 milhão de hectares e tem lavouras em 15 mil hectares. “Plantamos algodão, arroz, feijão, milho e soja e temos criação de gado. Por isso, viemos aqui para participar da discussão, porque precisamos ter nossa atividade regularizada.”

O debate deve voltar a ganhar força durante o 1º Encontro Nacional da Agricultura Indígena, dias 5 e 6 de dezembro, em Brasília. O deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e um dos autores do requerimento para realização da audiência na Comissão de Agricultura no último dia 18, está participando da articulação para promover o encontro.

a indigena 12

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: