Pandemia do coronavírus pode provocar crise alimentar global, alerta Cepea

Foto: ONU

A pandemia do novo coronavírus pode resultar em uma grande crise alimentar, mas com efeitos distintos de acordo com o nível de desenvolvimento dos países, a menos que sejam tomadas medidas para assegurar alívio econômico emergencial e manter a demanda a um nível minimamente adequado, principalmente nas economias de menor renda.

O alerta foi feito nesta quarta-feira 6 por pesquisadores do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, na 7ª edição do especial temático “Coronavírus e o Agronegócio”, em que apresentam um panorama da pandemia nos segmentos econômico, social, comercial e comportamental.

Na avaliação dos pesquisadores do Cepea, uma das piores consequências da covid-19 pode ser uma acentuada condição de miséria em países que já lidam com esse problema. “Assim, é de suma importância que lideranças tomem medidas políticas harmonizadas no que tange a políticas fiscais, monetárias e de comércio”, assinala a nota.

Além disso, enfatizam os pesquisadores do Cepea, os governos devem proporcionar o mínimo de recursos para a sobrevivência dos países e populações mais pobres. Caso contrário, advertem, a covid-19 pode provocar mais mortes não apenas pela transmissão, como também pela pobreza e fome de boa parte da população mundial.

Ainda segundo a análise do Cepea, as possíveis soluções para a atual crise precisam ser multilaterais, ou seja, exigem esforços de cooperação entre os governos para, de um lado, evitar restrições que reduzam ainda mais a atividade econômica, e de outro, proporcionar o apoio para as economias menos desenvolvidas para que tenham condições de manter políticas fiscais e monetárias que viabilizem os volumosos fluxos de bens, capitais, serviços e pessoas.

Neste momento, pesquisadores do Cepea indicam que é fundamental que os organismos e foros internacionais intervenham, garantindo soluções coordenadas e transparência por parte dos exportadores e importadores de alimentos básicos.

“O foco deve estar nas medidas que visam conter a recessão global e minimizar a insegurança quanto ao acesso de comida. Para isso, é necessária uma coordenação mundial na introdução de pacotes de estímulos fiscais e monetários, incluindo recursos para conter a propagação da doença e garantir a disponibilidade de cuidados de saúde adequados. Além, é claro, do aporte social adicional para compensar trabalhadores e famílias afetadas pelo vírus e por medidas de contenção”, ressalta a nota do Cepea.

Oportunidades para o Brasil

O Brasil é considerado o maior celeiro do mundo, sendo o setor do agronegócio responsável por 23,5% do PIB nacional, pontua o Cepea. Por isso, “a possível crise de abastecimento internacional pode ser vista como uma grande oportunidade para o país aumentar suas exportações, sendo favorecidas ainda pela atual depreciação do real frente ao dólar, o que possibilita a geração de superávits na balança comercial.”

Contudo, observa o Cepea, o Brasil precisa assegurar as condições para que isso venha a ocorrer.  “Os desafios para que isso ocorra são de natureza logística, impedindo o escoamento da produção de forma eficaz e a custos que não corroem as vantagens comparativas do país em diversos mercados globais. Além disso, é necessário garantir a abertura dos portos e também o acesso ao crédito para investimentos e manutenção do setor.”

Quando às questões sanitárias, destaca o Cepea, a experiência do país sinaliza aos parceiros comerciais a qualidade do produto nacional pela aplicação de legislações sanitárias que buscam adequação às boas práticas adotadas internacionalmente.

“Entre as medidas adotadas internamente, estão a criação e a manutenção de cadeias frias nos processos que abarcam desde o abatimento de animais até a preparação final do alimento e também a adoção do modelo de integração vertical entre produtor e processador nas cadeias de aves e suínos, em que cooperativas e indústrias alimentares fornecem todo o auxílio para aprimorar a sanidade e a segurança dos alimentos.”

Dessa forma, assinala o Cepea, o Brasil não pode vacilar frente à clara oportunidade de valorização e aprimoramento de seu papel no mundo agroalimentar.

 

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