Preço do leite ao produtor pode recuar em outubro, apesar do custo elevado

Mesmo com os altos custos de produção no campo, o preço do litro de leite ao produtor em outubro, referente ao produto captado em setembro, deve recuar. É o que sinaliza a edição de outubro do Boletim do Leite do Cepea/Esalq/USP, divulgado nesta terça-feira (19).
Segundo a publicação, “o preço do leite captado em agosto e pago aos produtores em setembro atingiu R$ 2,3827/litro na “Média Brasil” líquida do Cepea, alta de quase 1% sobre o do mês anterior, em termos nominais.”
Ainda de acordo com o boletim, o COE (Custo Operacional Efetivo) da pecuária leiteira subiu 0,99% entre agosto e setembro na “Média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP). De janeiro a setembro, o COE avançou 15,75%.
“Os aumentos nos custos de produção seguem influenciados pelas altas dos adubos e corretivos, dos combustíveis e de rações e concentrados”, pontua a publicação.
Leia, abaixo, as análises de Natália Grigol e Caio Monteiro, da Equipe Leite do Cepea, sobre o mercado de leite em setembro:
Mesmo com custo alto, preço no campo pode cair em outubro
Natália Grigol/Da Equipe Leite do Cepea
“O preço do leite captado em agosto e pago aos produtores em setembro atingiu R$ 2,3827/litro na “Média Brasil” líquida do Cepea, alta de quase 1% sobre o do mês anterior, em termos nominais. Contudo, para este mês de outubro, a expectativa dos agentes de mercado consultados pelo Cepea é que o valor do leite captado em setembro se enfraqueça, mesmo diante dos elevados custos de produção.
Por conta da sazonalidade da produção, é típico que se observe queda de preços no campo entre setembro e outubro – meses em que a produção leiteira geralmente é favorecida pelo retorno das chuvas da primavera e pela consequente melhoria da qualidade das pastagens. Com o aumento da oferta, os preços tendem a cair. Contudo, neste ano, a recuperação da produção tem acontecido de forma mais lenta, tendo em vista a intensa estiagem e insumos da atividade bem mais caros.
Uma vez que o incremento na oferta ainda deve ocorrer de forma limitada, a possível queda no preço do leite ao produtor em outubro também se explica pela maior dificuldade das indústrias em repassar a alta do preço da matéria-prima para o consumidor.
A demanda por derivados lácteos não reagiu como esperado pelos agentes – que previam que a retomada de atividades presenciais pudesse sustentar as cotações dos lácteos em elevados patamares. Entretanto, a crescente perda no poder de compra do consumidor tem desacelerado as vendas de derivados desde meados de agosto.
Com demanda enfraquecida e pressão dos canais de distribuição, os estoques se elevaram, forçando as indústrias a reduzirem os preços.
Diante disso, as negociações do leite spot em Minas Gerais perderam força em setembro, e os preços caíram de R$ 2,58/litro, na primeira quinzena, para R$ 2,50/litro na segunda, recuo de 3%. O movimento de desvalorização continuou em outubro, e a média recuou mais 6,5% chegando a R$ 2,34/litro na primeira quinzena deste mês.
O aumento dos preços no campo e os elevados valores dos derivados também estimularam as importações de lácteos. Dados da Comex mostram que o volume importado de lácteos cresceu 23,5% do segundo para o terceiro trimestre deste ano. Ainda assim, a quantidade adquirida é 44% menor do que a do mesmo período de 2020, devido ao dólar e aos preços internacionais elevados.”
Em setembro, custos registram alta de 0,99%
Caio Monteiro/Da Equipe Leite do Cepea
“O COE (Custo Operacional Efetivo) da pecuária leiteira subiu 0,99% entre agosto e setembro na “Média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP). De janeiro a setembro, o COE avançou 15,75%. Os aumentos nos custos de produção seguem influenciados pelas altas dos adubos e corretivos, dos combustíveis e de rações e concentrados.
Quanto aos adubos e corretivos, a maior demanda devido ao início do plantio da safra 2021/22 e a escassez de matéria-prima para a fabricação desses insumos elevaram as cotações por mais um mês. O cenário tem sido agravado pela crise energética na China e na Europa, que vem dificultando a produção de fertilizantes, reduzindo a oferta global. Além disso, o dólar forte e os custos logísticos impulsionam ainda mais as cotações internas. De agosto para setembro, os adubos e corretivos se valorizaram 3,71%, sendo o nono mês consecutivo de alta. No acumulado do ano, esse grupo acumula expressiva valorização de 47,85% na “Média Brasil”.
Os combustíveis registraram avanço de 2,79% em setembro na “Média Brasil” e, no ano, de 38,54%.
Os aumentos, que encarecem o custo das operações mecânicas nas propriedades, estão atrelados especialmente à valorização do petróleo no mercado internacional, que é a mais significativa desde 2018. As altas nos grupos dos combustíveis e dos fertilizantes já elevam os custos das silagens produzidas no próximo ano.
O grupo das rações e concentrados, por sua vez, registrou aumentos de 1,21% e de 15,09% nas comparações mensal e anual – “Média Brasil”. Os estados de Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo registraram os avanços mais expressivos em setembro, de 5,27%, 1,55% e 0,31%, na mesma ordem.
Quanto à relação de troca entre o leite e o milho, foram necessários 38,80 litros de leite para a aquisição de uma saca de 60 kg do cereal (Indicador do milho ESALQ/BM&FBovespa, Campinas/SP) em setembro, contra 41,81 litros no mês anterior.
Essa relação de troca esteve ainda mais favorável ao produtor de leite comparando-se à média dos últimos 12 meses, de 40,78 litros por saca. Esse cenário está atrelado ao ligeiro aumento no preço médio do leite pago ao produtor, e principalmente à desvalorização de 6,3% do milho em setembro.”

