Sempre aos Domingos: A amada de Leocádio

Tito Matos*

Ele era um pedinte bem popular. Todos gostavam dele na cidade de Ibipetuba, no Além São Francisco. De fala baixa, Leocádio sabia se dirigir a uma criatura para pedir esmolas, não lhe importando a quantia. Afinal, esmola é como a amizade, pouca ou muita, nunca se recusa.  Com a muleta de cedro embaixo do sovaco, mesmo com dificuldade para andar, perambulava pelas ruas o dia inteiro, de segunda a domingo. Cedo se recolhia. Tinha medo do escuro da noite. E cedo acordava para pedir esmolas e “filar” refeições na casa de alguma família acolhedora.

Aleijadinho, vivia de doações. Um de seus prazeres era fumar. Gostava de um bom cigarro de marca. Quando via alguém bem-apessoado, corria a lhe pedir um “cheiroso”, fosse Continental, Astória ou Capri e acendia ali mesmo o cigarro para soltar fortes baforadas pelas largas ventas. Que satisfação! Ficava instantes pendurado em sua muleta, encostado numa parede, a contemplar a fumaça que se desfazia no ar.

Seu amigo Zezi Paes Landim sempre lhe mandava pacotes de “cheiroso”, que o inveterado fumante retribuía com noturnas orações. Os fofoqueiros da cidade espalhavam aos quatro cantos que Leocádio namorava às escondidas. Sua “amada” era uma jovem morena coxuda, lábios carnudos, sorriso atraente, cheirosa, que cedo passou a se dar por dinheiro. Uma concorrida gata. Seria Maria? Seria Rita? Certo é que as cadeiras dela bulia com o juízo dele.

Ele foi visto saindo da casa dela, no Alto do Taboleiro, bairro pobre da cidade, sob um sol abrasador, suado como um cuscuz. “Fui lá tomar um cafezinho, fumar um cheiroso e tirar uma soneca”, assim dava satisfação aos inquisidores.

Diziam os mexericos que Leocádio tinha no coração o pulsar da mais pura paixão e que sua música preferida era “A beleza da rosa”, na voz do cantor José Ribeiro.

A verdade é que Leocádio sempre que encontrava um grupo de seresteiros pelos bares pedia e insistia que tocassem “A beleza da rosa”, uma música sentimental considerada pelos mais exigentes como brega.

O que se sabe é que esta canção despertava nele um libidinoso sentimento. Não se descobriu quem era o seu confiável e verdadeiro confidente. Se Leocádio amou mesmo, esse segredo ele levou consigo para o túmulo.

Contam que no enterro dele, ela botou uma beleza de rosa sobre o seu caixão e derramou algumas lágrimas. Durante os sete dias após a morte de Leocádio, sua “amada” não quis receber a visita de nenhum cliente tamanha a sua tristeza. Ela era sentimental e fogosa demais, que fazia qualquer freguês gemer sem sentir dor. Até hoje, porém, paira uma dúvida: teria Leocádio alguma vez gemido nos braços de seu amor platônico?

*Jornalista

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