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Crise habitacional na UE

Gil Reis*

Para termos uma noção de pobreza vamos citar o Brasil – A pobreza multidimensional na infância e na adolescência atingia, em 2019, 63,1% da população brasileira de até 17 anos, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Esse percentual corresponde a 32 milhões de crianças e adolescentes, do total de 50,8 milhões – um contingente maior do que a população de muitos países latino-americanos e que a soma do total de habitantes das sete cidades mais populosas do Brasil.

Um dos indicadores de pobreza é a moradia inacessível para a classe média baixa. Mas, o Brasil não é o único país a ter problemas habitacionais para esse tipo de habitante. A Reuters publicou, em 27 de fevereiro de 2026, matéria “Os quartos à venda evidenciam a gravidade da crise imobiliária na Europa”, assinada por Corina Pons e Iain Withers, demonstrando que o nosso país tem companhia e que transcrevo trechos.

“A startup espanhola Habitacion.com vende quartos em apartamentos compartilhados, conectando compradores por meio de um teste de compatibilidade. Na Grã-Bretanha, os empréstimos hipotecários são personalizados para grupos de amigos e, em vários países, os empréstimos hipotecários sem entrada estão voltando a ser populares. Analistas afirmam que soluções não convencionais refletem como os europeus mais jovens estão sendo excluídos do mercado imobiliário tradicional devido aos altos preços. Uma startup espanhola está vendendo quartos em apartamentos compartilhados com desconhecidos, uma construtora britânica oferece financiamento imobiliário para amigos que desejam comprar juntos, enquanto participações em imóveis para aluguel ajudam alguns inquilinos a cobrir seus custos de moradia.

Essas soluções pouco convencionais evidenciam até onde alguns jovens europeus estão dispostos a ir para lidar com a crise habitacional que os atingiu com mais força. Segundo pesquisa da Comissão Europeia, na última década os preços das casas na União Europeia cresceram 10% mais rápido do que os rendimentos, e todos os indicadores mostram que os jovens são os que mais sentem o impacto. E enquanto isso, os planos anunciados pelo executivo da UE.  Embora as medidas para tornar a habitação mais acessível ainda não tenham se concretizado em dezembro, algumas empresas oferecem maneiras inovadoras de conquistar um espaço no mercado imobiliário cada vez mais desafiador.

O aluguel de apartamentos nos principais centros urbanos europeus é inacessível para quem tem um salário médio. Na Espanha, onde a escassez de moradias em Madri, Barcelona e outras grandes cidades foi agravada pelo aumento dos aluguéis de temporada, o Habitacion.com oferece quartos individuais por até 80.000 euros (US$ 95.200), cerca de um terço do preço de um apartamento de um quarto em locais semelhantes. A empresa afirmou ter vendido 200 quartos no ano passado e ter uma lista de espera de 32.000 pessoas, com propriedades em sete cidades listadas em seu site.

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O fundador e CEO, Oriol Valls, afirma que sua empresa oferece uma solução para a crise financeira — dados oficiais mostram que os salários médios mensais na Espanha aumentaram 26% na última década e os preços dos imóveis, 81% — e para as mudanças nas circunstâncias da vida. ‘As pessoas já não se casam, ou se casam, não têm filhos… ou têm muito mais tarde’, disse ele. ‘Precisam de espaços habitacionais muito menores e também muito mais acessíveis.’ Os clientes devem preencher questionários de compatibilidade, que incluem perguntas sobre se têm parceiros ou se lavam a louça depois das refeições, para serem emparelhados com coproprietários ou inquilinos. Também precisam usar empréstimos pessoais em vez de hipotecas e devem recorrer à empresa caso queiram revender o imóvel.

Álvarez, um potencial comprador que preferiu não revelar seu primeiro nome, disse que o Habitacion.com se ofereceu para ajudá-lo a obter um empréstimo pessoal de 10 anos de um banco regional com juros de 6%, o dobro da média de uma hipoteca comum, mas no final não conseguiu encontrar nenhum quarto disponível em Madri, onde ele mora. Para ser sincero, o que isso significa potencialmente para mais atividades de fusões e aquisições ao longo do restante de 2026? E então, se eu sou um investidor e estou tentando pensar sobre isso…Ele também disse que o programa, embora seja uma boa opção em geral para jovens com poucas economias, ‘perde todo o atrativo se eu não puder morar com meu parceiro’.

Enquanto isso, em Londres, a incorporadora Fairview tem um programa chamado ‘Buddy Up’, que oferece a conexão de amigos com um corretor e um advogado, além de cobrir até 2.000 libras (US$ 2.726) em honorários advocatícios caso decidam comprar um imóvel juntos na capital ou arredores. Bancos na Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália também estão retomando os financiamentos imobiliários com entrada baixa ou zero, que desapareceram após a crise financeira de 2008. Esses financiamentos têm custos mais elevados e geralmente exigem que os solicitantes comprovem renda alta e estável, mas, embora ainda raros, representam uma opção para aqueles que não conseguem juntar dinheiro para a entrada, mas desejam muito ter uma casa própria.

Natalie e Martin Walker, de West Yorkshire, no norte da Inglaterra, contam que uma notificação de despejo recebida quando seu bebê tinha apenas um mês de idade os levou a optar por um financiamento imobiliário sem entrada no ano passado para comprar uma casa, após quatro anos morando de aluguel. ‘A sensação de estabilidade que isso proporciona é a maior alegria para mim’, disse Natalie.

De volta à Espanha, Carlos Sempere, um engenheiro industrial de 36 anos que aluga um apartamento no centro de Madri, onde os imóveis estão sendo vendidos por cerca de 1 milhão de euros – um valor muito acima de suas possibilidades –, comprou um imóvel para alugar no sul da Espanha por meio da empresa de investimentos PropHero. ‘Ou me ajuda a pagar o aluguel, ou eu vendo no futuro’, disse ele. Para quem não tem condições de comprar um imóvel inteiro, a PropHero também oferece participações em prédios de apartamentos para alugar na Espanha e na Irlanda por valores a partir de 20.000 euros.

Em última análise, são as condições de mercado desfavoráveis ​​que fazem com que os potenciais compradores de primeira habitação ignorem as complexidades legais e o custo dos novos empreendimentos, afirma Patricio Palomar, consultor imobiliário e diretor de investimentos alternativos da AIRE Partners. ‘Todas essas soluções habitacionais servem para mostrar como as pessoas estão ficando mais pobres.”

Esse cenário se tornou ainda mais desafiador por conta da pandemia, porque, apesar dos avanços em determinadas áreas até 2019, entre 2020 e 2022 houve piora em alguns indicadores que compõem a pobreza multidimensional, de acordo com os dados disponíveis analisados pelo UNICEF.

“Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem.” Milton Santos (1926-2001), geógrafo brasileiro.

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

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