Sistemas agroflorestais biodiversos conservam polinizadores

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Polinizadores são essenciais para a produtividade agrícola – Ronaldo Rosa/Embrapa

Resultados obtidos pelo Núcleo de Agroecologia da Embrapa Meio Ambiente (SP) mostram que áreas com sistemas agroflorestais (SAFs) biodiversos são capazes de contribuir para a conservação das abelhas sem ferrão.

Esses sistemas compostos de vegetação nativa e lavouras comerciais, destaca a Embrapa, conseguem manter uma grande diversidade de insetos polinizadores, tornando-se uma alternativa para aliar a produção à conservação da biodiversidade.

Ainda de acordo com os pesquisadores do Núcleo de Agroecologia da Embrapa Meio Ambiente, a presença desses polinizadores é fundamental para a produtividade das lavouras, além da preservação dos insetos.

Uma polinização adequada pode aumentar a produção e a qualidade em culturas de frutas, castanhas, oleaginosas e fibras, diz a pesquisadora Katia Braga.

“Já se sabe que cerca de 75% das 115 culturas consideradas as mais importantes em todo o mundo se beneficiam com rendimentos maiores quando polinizadas por animais. No Brasil, em estudo recente, foram analisadas 141 culturas e identificadas 85 como dependentes dos polinizadores”, assinala.

Nesse estudo, prossegue Katia Braga, a contribuição econômica dos polinizadores totalizou quase 30% (aproximadamente US$12 bilhões) do valor total da produção agrícola anual das culturas dependentes (somando quase US$45 bilhões).

A pesquisadora esclarece ainda que, para certas culturas, os visitantes florais promovem maior qualidade da fruta. “Esse é um benefício indireto e nem sempre fácil de medir, mas extremamente importante para o mercado agrícola.”

Kátia Braga ressalta também que os polinizadores estão fortemente relacionados à qualidade nutricional das populações humanas: no sudoeste da Ásia, por exemplo, 50% das plantas que são fonte de vitamina A dependem da polinização por animais.

Floradas ao longo do ano

Os resultados iniciais permitem prever que, com as floradas que ainda ocorrerão ao longo do ano, o percentual de espécies arbóreas visitadas pelas abelhas sem ferrão, nos SAFs, deverá aumentar. Para a cientista, as informações levantadas são de grande importância, uma vez que há pouco conhecimento sobre a relação entre essas abelhas e os SAFs.

Das 92 espécies de árvores já identificadas nos quatro SAF’s do Sítio Agroecológico da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), verificou-se que 42 delas (46%) são visitadas por abelhas sem ferrão e, dentre estas, 38% pertencem à família Fabaceae, que apresentou maior riqueza de espécies na área de estudo: 38. Das 28 famílias botânicas registradas até o momento para esses SAFs, as abelhas sem ferrão são visitantes florais em 17 delas (61%).

“Essas abelhas apresentam hábitos generalistas de forrageamento, coletando néctar e pólen em diversas espécies de plantas de famílias variadas, embora explorem com maior intensidade uma gama menor de espécies. Nas florestas tropicais úmidas, essas abelhas, que pertencem à tribo Meliponini (Hymenoptera: Apidae), constituem o grupo de insetos generalistas mais bem-sucedido, com grande abundância e riqueza de espécies”, explica a pesquisadora.

Para avaliar o potencial dos SAFs como uma alternativa para conservação da diversidade de abelhas, desde janeiro de 2017, estão sendo monitoradas as espécies de abelhas que visitam as árvores em floração nos SAFs agroecológicos da Embrapa Meio Ambiente.

Amostras de pólen dessas árvores são armazenadas para posterior avaliação da dieta das abelhas sem ferrão criadas racionalmente no local. Dados de observações anteriores e do referencial bibliográfico também são utilizados.

Na Floresta da Cantareira, em São Paulo, que é um fragmento da Floresta Tropical Atlântica, as abelhas sem ferrão exploraram 73% das 96 espécies de plantas lá presentes. Essas pequenas abelhas, também conhecidas como meliponíneos, representaram cerca de 70% de todas as abelhas em atividade nas flores das árvores.

Todas as 40 espécies de árvores nativas visitadas pelas abelhas sem ferrão nos SAFs da Embrapa Meio Ambiente estão presentes no Bioma Mata Atlântica, reforçando a estreita relação evolutiva e ecológica existente entre elas e as árvores desse bioma. Dessas 43 espécies arbóreas, 58,1% são indicadas para a restauração ecológica no Estado de São Paulo.

Nos últimos anos, os temas abelhas, polinização e a relação desses polinizadores com a agricultura têm merecido destaque internacional e nacional, principalmente devido ao declínio mundial na diversidade e abundância de abelhas.

Por isso, os pesquisadores consideram o conhecimento sobre a criação e a conservação das abelhas sociais nativas do Brasil, as abelhas sem ferrão (ASF), e das abelhas solitárias, uma demanda fundamental para a manutenção da produtividade nos agroecossistemas, bem como para a conservação da biodiversidade nos ecossistemas naturais, uma vez que tanto plantas cultivadas como plantas nativas dependem desses insetos para sua reprodução.

A criação de abelhas sem ferrão, conhecida como meliponicultura, é uma atividade reconhecida como geradora de renda pela produção de mel e de outros produtos das abelhas. Mas, como a criação depende diretamente da vegetação como principal fonte de recursos para as abelhas, essa atividade também contribui para a conservação da biodiversidade.

Os cientistas recomendam que a criação de abelhas sem ferrão seja integrada às atividades de restauração ambiental e em sistemas agroecológicos de produção, como os Sistemas Agroflorestais Biodiversos, visando, nesses últimos, um incremento na produtividade dos cultivos pela melhoria no processo de polinização.

Da redação, com informações da Embrapa

 

AGROEMDIA

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