Abrapa: É cedo para avaliar impacto do acordo EUA-China no mercado do algodão

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Foto: Abrapa/Divulgação

Ainda é cedo para arriscar um prognóstico acerca dos efeitos, no mercado de algodão, do fim da guerra comercial entre Estados Unidos e China e da epidemia de coronavírus no mercado de algodão, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em nota divulgada nesta quarta-feira 29, a Abrapa lembra que o coronavírus derrubou, por três dias seguidos, na semana passada, os preços da commodity. Detectado inicialmente na China, o vírus já se espalhou por vários países.

“Hoje, é a China quem dá o ritmo do mercado no globo, e, literalmente, um espirro que vem de lá pode chacoalhar a economia mundial. Acreditamos que o trade deal [acordo comercial] não põe em risco a nossa posição, pois os Estados Unidos terão de ser competitivos para vender para a China na quantidade e qualidade que eles se propõem a comprar”, assinala o presidente da Abrapa, Milton Garbugio.

“Nossa safra já está plantada. Temos que ficar de olho nas notícias para balizar nossas decisões de plantio para a próxima safra”, diz o dirigente da associação. Segundo ele, nos últimos dois anos, o algodão brasileiro entrou fortemente no mercado chinês, ocupando o vácuo deixado pelos EUA, que, por sua vez, buscaram novas praças.

Em 2019, ressalta a nota da Abrapa, o Brasil alcançou a segunda posição no ranking mundial de países exportadores. A China foi o destino de 34% do total de algodão nacional exportado.

“A produção e o consumo de algodão no mundo estão equiparados em torno de 26 milhões de toneladas de pluma, com a produção ligeiramente mais alta. Nós temos 2 milhões de toneladas que precisam ser exportadas e serão. É uma questão de rearranjo de mercado. Mas é fato que os chineses gostam do algodão brasileiro, o que obriga os americanos a ser competitivos”, reforça Garbugio.

Ele destaca ainda as ações de marketing internacional que a Abrapa – por meio de convênio com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), via Apex-Brasil, e a Anea (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão) – está implementando para intensificar a presença do algodão brasileiro na Ásia.

Coronavírus e multilateralismo

Quanto ao coronavírus, o presidente da Abrapa afirma que esta é uma preocupação maior para os cotonicultores atualmente pelo temor que a epidemia se agrave e se alastre pelo mundo.

A alta volatilidade marcou a terceira semana de janeiro, quando surgiram as primeiras notícias sobre a epidemia. Em apenas três dias, os preços em Nova Iorque variaram entre 69,12 e 71,25, fechando a semana em 70,05 centavos de libra-peso.

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Foto: Abrapa/Divulgação

Em relação ao acordo entre Estados Unidos e China, o que mais preocupa o professor de agronegócio do Insper Marcos Jank é o risco de rompimento das conquistas de regulação do mercado mundial alcançadas desde o final da 2ª Guerra, que tinham na OMC o seu principal foro balizador.

“Precisamos descobrir se esse acordo é compatível com as regras multilaterais de comércio da OMC. Elas foram assinadas por todos os países. Como é que as duas maiores economias mundiais se propõem a selar um pacto bilateral que pode claramente prejudicar os demais países?”, questiona.

“Passamos da busca do livre-comércio para a guerra comercial.  Agora, estamos indo, depois desse acordo, para uma era de comércio administrado”, define.

Jank teme que para aumentar as exportações de produtos agrícolas dos EUA para a China, de US$16 bilhões em 2019 para US$ 36,5 bilhões em 2020, e US$ 44,5 bilhões em 2021, seja necessário criar canais privilegiados de comércio que não respeitarão a livre concorrência que hoje reina no mercado mundial.

Atenção e promoção

“A China tem o Brasil como um fornecedor estratégico e importante. Precisamos acompanhar de perto se haverá um movimento ‘mandatário’ que favoreça o algodão americano, considerando que o Brasil esteja competitivo em preço e qualidade no mesmo momento”, avalia o presidente da Anea, Henrique Snitcovski. De acordo com ele, é importante recordar que o algodão americano representou praticamente metade das importações da China antes da guerra comercial.

“Paralelamente, a China também aumenta a participação nas importações mundiais, voltando a assumir o posto de maior importador global já na temporada 2018/2019, seguida por Bangladesh e Vietnã”, pondera.

O presidente da Anea pontua que a maior preocupação dos mercados hoje está voltada para os possíveis impactos no consumo e movimentação de mercadorias com o coronavírus.

“Mais do que nunca, é importante esse esforço das entidades que representam a produção e a exportação da fibra, a Abrapa e a Anea, junto com o governo federal, para promover o produto no mercado asiático”, enfatiza Snitcovski.

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