Covid-19: O dia depois de amanhã

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Gil Reis, consultor em agronegócios – Foto: Divulgação

Gil Reis*

Venho acompanhando o noticiário sobre o Covid 19 com perplexidade. Vejo o governo federal tentando se descolar dos exemplos adotados por outros países mundo afora em busca de solução para a crise de saúde pública provocada pela virose. Até mesmo porque as soluções são tão diversas que não há uma estratégia única para o enfretamento do novo coronavírus.

Percebo que o esforço do governo é seguir um caminho próprio, condizente com a nossa realidade. No entanto, alguns governadores e prefeitos resolveram adotar suas próprias políticas de prevenção, deixando de obedecer às orientações do Ministério da Saúde. Criaram, assim, as suas próprias recomendações, como se o Brasil não fosse uma Federação, e sim uma Confederação.

O mundo descobriu de repente que não estava preparado para a “globalização viral”. Tanto que, num primeiro momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) relutou em reconhecer a pandemia. Em vez disso, tentou debelar o surto com medidas tradicionais, mas fracassou. Só então, declarou a pandemia.

A partir do reconhecimento da OMS da ocorrência do Covid-19 em escala global, cada país passou a adotar as medidas que melhor lhe conviessem para enfrentar a situação. Paralelamente, o planeta foi tomado por pânico e histeria coletiva.

Ao passar a divulgar o número de suspeitos de infecção, de casos confirmados e de mortes, a mídia mundial contribuiu para criar grande parte desse clima.

A publicização de suspeitas de doença tem efeito semelhante ao que ocorre quando a polícia ou o Ministério Público se baseiam em indícios para responsabilizar alguém por um crime sem que a culpa esteja provada e o caso julgado. Mesmo que venha a ser inocentada logo adiante, a pessoa leva anos para recuperar a sua reputação e, não raro, convive para o resto da vida com a desconfiança.

Num cenário de pandemia, o problema não é a culpa, mas a potencialização do medo, a instalação do pânico. Ao longo dos meus bem vividos anos, nunca havia testemunhado tal coisa. A propósito, nasci logo após o término da 2ª Grande Guerra, atravessei a recuperação do mundo ocidental e inúmeras viroses terríveis.

Nos países com regimes ditatoriais, medidas radicais foram tomadas. Na Ásia, após um período, tais medidas deram certo. Não sou infectologista, mas aprendi, ao longo de 73 anos, que há um ciclo viral: primeiro, o vírus se manifesta, depois atinge o pico de contaminações e, em seguida, enfraquece, até desaparecer. Felizmente.

Já no mundo democrático, as coisas estão sendo mais complicadas. Os países foram surpreendidos sem muito tempo para preparar o sistema de saúde pública e cada um tomou suas medidas baseadas no exemplo de alguns países asiáticos, sem levar em conta fatores culturais e hábitos de liberdade arraigados após um longo tempo de democracia. Erraram, corrigiram e estão no caminho do sucesso. Tudo com muito sofrido.

No Brasil, houve tempo para que a saúde pública, que bem ou mal sempre atendeu a população carente e que está informatizada na maioria das capitais, se preparasse para enfrentar a pandemia, apesar dos parcos recursos de um governo que herdou uma economia combalida, sabotada e exaurida por anos de corrupção desvairada.

Li, neste fim de semana, entrevista do advogado Pinheiro Pedro, no qual ele afirma que, no final da crise de saúde pública, o Brasil precisará de um novo “Plano Marshal”, referência à estratégia utilizado pelos Estados Unidos para ajudar a recuperação dos países da Europa Ocidental após a 2ª Guerra Mundial.

Talvez Pinheiro Pedro não tenha percebido, mas as recentes medidas do governo federal já se constituem numa espécie de “Plano Marshal” verde e amarelo. Não para recuperar a economia, mas sim para evitar, com os recursos disponíveis, a sua ruptura.

Estava sentindo falta apenas de maior centralização das medidas de saúde pública para evitar que prefeitos e governadores continuassem adotando providências que fogem à orientação do governo central. Isso começou a ser equacionado com a edição do Decreto nº 10.282, de 20 de março de 2020, que define quais são os serviços e as atividades essenciais ao país.

Nesta fase inicial da disseminação dos casos de Covid-19 pelo Brasil, tivemos algumas providências assustadoras de estados e municípios. Algumas interferem no direito de ir e vir da população e ameaçam a iniciativa privada, como o fechamento de lojas e shoppings, sem contar com o ataque ao agro, com o fechamento de rodovias, que inviabilizaria o escoamento da produção de alimentos.

O governo federal agiu a tempo e deixou claro, por meio do Decreto nº 10.282, que cabe a ele disciplinar o que pode ou não funcionar em tempos de pandemia.

A crise vai passar e vamos chegar ao dia depois de amanhã. Não como estados que tomam medidas isoladas, mas como nação unida em torno de um único objetivo: o de garantir a saúde pública de norte e sul, baseado em decisões do poder central, eleito democraticamente para exercê-lo, e com a colaboração de todos, desde o empresariado até outros segmentos da sociedade.

*Consultor em agronegócio

AGROemDIA

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