Mesmo sem turbulência, aviação agrícola voa em céu de incerteza na pandemia

Thiago Magalhães Silva, presidente do Sinda – Sindag/Divulgação

João Carlos Rodrigues//AGROemDIA

A aviação agrícola não parou neste período de pandemia da covid-19, a exemplo das demais cadeias do agronegócio, setor considerado essencial à atividade econômica pelo governo federal. Embora não tenha ocorrido perda de faturamento, o novo coronavírus causou incertezas entre as empresas aeroagrícolas, o que adiou investimentos e acentuou a necessidade de ampliar o mercado, já que hoje elas são responsáveis por 15% a 20% do trato das lavouras brasileiras.

“Isso deixa uma boa margem para crescer, apostando na eficiência e rapidez, além da tecnologia e nas vantagens da terceirização – o produtor não imobiliza patrimônio na entressafra, economiza com mão-de-obra e o custo é reduzido”, diz o presidente do Sindicato Nacional da Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), Thiago Magalhães Silva, em entrevista ao AGROemDIA.

Leia, a seguir, a entrevista:

AGROemDIA – Quais os reflexos da pandemia da covid-19 nas atividades da aviação agrícola brasileira?

Thiago Magalhães Silva – A aviação agrícola seguiu trabalhando normalmente. O maior reflexo da pandemia para o setor foi a incerteza sobre o futuro. Empresários que pretendiam investir em suas frotas ou instalações adiaram planos.  O maior susto para o setor foi com relação à alta do dólar, principalmente quando se aproximou dos 6 reais em maio, já que a manutenção e boa parte dos financiamentos de aeronaves têm os valores regidos pela moeda norte-americana.  O bom é que a cotação do câmbio começou a voltar a níveis praticáveis agora, quando estamos entrando na entressafra, período em que as empresas aproveitam para fazer a manutenção das aeronaves.

AGROemDIA – Houve redução no faturamento das empresas em decorrência da pandemia?

Magalhães – Não chegou a haver uma perda de faturamento por causa da pandemia, já que o setor é essencial às lavouras cujas commodities continuaram em alta, como a soja. Nem mesmo no setor algodão, que prevê queda na demanda mundial devido à pandemia, mas cuja safras são vendidas por antecipação. Ou no da cana-de-açúcar, que enfrentou problemas devido à queda na demanda de etanol em consequência da covid-19, associada à redução no preço do petróleo, o que tornou o biocombustível menos competitivo frente à gasolina.

AGROemDIA – O atual contexto permite projetar aumento de valor nos contratos de prestação de serviço da próxima safra?

Magalhães – O que ocorre agora é a negociação de contratos para a próxima safra. Por exemplo, o setor de cana, onde algumas usinas ainda podem sair do mercado, segue cortando custos. Nesse caso, as empresas aeroagrícolas também devem procurar otimizar a produtividade e verificar onde podem reduzir custos. Em algumas situações, renovando contratos de olho mais na parceria do que em um possível incremento no valor.

Empresários que pretendiam investir em suas frotas ou instalações adiaram planos”

AGROemDIA – Há espaço para o setor expandir suas atividades, a fim de compensar eventuais perdas?

Magalhães – O foco do Sindag agora é montar uma estratégia com as associadas para promover as vantagens da aviação agrícola entre os produtores. Atualmente, o setor é responsável por 15% a 20% do trato de lavouras no país. Isso deixa uma boa margem para crescer, apostando na eficiência e rapidez, além da tecnologia e nas vantagens da terceirização – o produtor não imobiliza patrimônio na entressafra, economiza com mão-de-obra e o custo é reduzido porque o empresário aeroagrícola dilui seus custos entre vários clientes.

AGROemDIA – Muitos setores da economia demitiram empregados durante esta pandemia. Isso também ocorreu nas empresas aeroagrícolas?

Magalhães – Não chegou ao conhecimento do Sindag nenhuma demissão em empresa aeroagrícola por conta de dificuldades causadas pela pandemia. Como a aviação agrícola não parou e a safa de grãos, por exemplo, segue com estimativas em alta, fica fácil entender por que não houve redução salarial e nem de jornada de trabalho. Mas, pelas incertezas do período, também não houve novas contratações.

AGROemDIA – Quais as medidas adotadas pelo setor para proteger seus empregados?

Magalhães – As empresas têm adotado medidas como o uso de máscaras nos escritórios, hangares e outros espaços. Além disso, o pessoal de campo e pilotos já usavam máscaras em seus EPIs [equipamentos de proteção individual]. Algumas empresas dividiram os horários de almoço para aumentar o distanciamento em seus refeitórios. Outras fecharam refeitórios para o pessoal ir comer em casa. O álcool gel passou as ser presente em toda a parte, assim como aumentou a frequência da limpeza com produtos desinfetantes.

Em alguns estados, o Ministério do Trabalho começou a cobrar das empresas a elaboração de um plano detalhado de prevenção e de contingências para o caso de um funcionário ou dirigente contrair a doença. A partir disso, o Sindag fez uma parceria com um médico para elaborar o plano para todas as 181 associadas – elas representam 70% das empresas do setor no país –, nos 23 estados em que a aviação agrícola atua, com as medidas básicas de prevenção (uso do álcool, distanciamento físico e outras), além de treinamento e material informativo. Cada empresa está repassando suas informações, como número de funcionários em cada setor e detalhes de suas instalações e rotinas, para o plano ser adaptado à realidade de cada uma delas.

Se não houver mais nenhuma surpresa negativa na economia, a frota pode crescer, em 2020,  próximo a 4 %”

AGROemDIA – Qual deve ser o cenário pós-pandemia para o setor aeroagrícola?

Magalhães – Com o dólar e o mercado se estabilizando, a perspectiva é boa para o pós-pandemia. Passado o susto da queda do preço do petróleo e da alta o dólar, os empresários aeroagrícolas tendem a retomar os investimentos. A frota começou 2020 com 2.280 aeronaves, uma alta de 3,92% em 2019. Em 2018, o setor havia crescido 3,94%, recuperando-se de um 2017 em que cresceu 1,54%.

Com isso, se não houver mais nenhuma surpresa negativa na economia, o Sindag trabalha com a hipótese de que tenha, em 2020, um incremento na frota próximo a 4 %. Isso pelo aumento na demanda de aviões turboélices (parcela que cresceu mais de 250% desde 2011, enquanto a frota total aumentou em pouco menos de 35% no mesmo período) e pela demanda inerente à necessidade de tecnologia e eficiência nas lavouras.

Pelas estimativas do Sindag, o setor tem potencial de crescimento rápido até 3 mil aeronaves (hoje a frota é de 2.280 aparelhos), considerando as necessidades das lavouras e prevendo aumentos de safra para os próximos anos. A partir dos 3 mil aparelhos, a aviação agrícola ainda crescerá no Brasil, mas em ritmo mais lento.

AGROemDIA – Com a pandemia, o setor empresarial – incluindo o do agro – passou a recorrer mais à comunicação virtual em suas rotinas. Isso também ocorreu na aviação agrícola?

Magalhães – Talvez a mudança que mais vai se sentir nas empresas a partir do “novo normal” será o predomínio das ferramentas de videoconferências. No caso do Sindag, houve um aumento na frequência das reuniões internas e com parceiros, além do incremento das relações institucionais. Isso trouxe uma diminuição de custos com passagens, estadias e alimentação.

Paralelamente, o sindicato aumentou o número de palestras e treinamentos oferecidos às associadas, assim como os encontros regionais com essas empresas. Ao mesmo tempo, cada evento passou a ter um número maior de participantes do que quando eram feitos presencialmente. A internet otimizou tempo e recursos e, por isso, deve ficar.

Talvez a mudança que mais vai se sentir nas empresas a partir do “novo normal” será o predomínio das ferramentas de videoconferências”

 

 

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta