Banco Central perde batalha de defesa do poder de compra do Real

Ivanir José Bortot, jornalista especializado em finanças públicas e macroeconomia

Ivanir José Bortot*

O Banco Central conseguiu vencer os especuladores de câmbio com expressivos ganhos, mas perdeu a batalha da defesa do poder de compra do real. O Brasil teve, no governo de Jair Bolsonaro, a segunda maior desvalorização cambial do mundo. Só não ganhou da Venezuela. Os exportadores estão sendo favorecidos com ganhos maiores, mas o choque cambial no médio e longo prazo terá impacto sobre todos os preços da economia e comportamento futuro da inflação.

A autorização do Conselho Monetário Nacional (CMN) de repasse R$ 325 bilhões do resultado dos lucros do Banco Central (BC) neste primeiro semestre poderia ser um ato corriqueiro, a não ser pelo fato de onde veio o ganho deste dinheiro.

A mesa de operações de câmbio do BC conseguiu um ganho líquido de R$ 478 bilhões entre janeiro a julho de 2020 nas operações de compra e venda de dólar dentro de sua missão de evitar ataque especulativo contra nossa moeda. A diferença entre os dois números vai continuar no BC como reserva para um eventual prejuízo que possa ocorrer neste negócio no segundo semestre, o que é normal. O dinheiro que será enviado ao Tesouro Nacional deverá ser utilizado para abater parte da dívida pública.

Se o resultado das operações for visto pelo lado missão de enfrentamento à volatilidade cambial, pode-se considerar um fracasso retumbante. O real teve uma perda de 29,6% nos últimos seis meses diante do dólar. O poder de compra dos brasileiros no exterior caiu na mesma magnitude. Todos os insumos importados, mercadorias estrangeiras tiveram aumento de custos na mesma proporção.

Hoje o real, diante do dólar, vale R$ 5,474, ou seja: no governo de Bolsonaro tivemos uma perda frente ao dólar de 43,71%.”

O outro lado desta moeda são os ganhos que os exportadores estão tendo com a desvalorização da moeda. Em condições normais estes segmentos da economia deveriam estar gerando mais empregos e renda aos brasileiros, mas não é o que vemos.

A grande missão do BC é preservar o poder de compra da moeda com sua política monetária e cambial. No caso em análise, a impressão é que a atuação da autoridade para evitar a volatilidade cambial deixou a desejar, mesmo com US$ 354 bilhões de reservas internacionais.

Com reservas dessas magnitudes, que foram constituídas para enfrentar ataques especulativos como o que estamos vivendo, nossa moeda é a segunda mais desvalorizada do mundo, só perde para a da Venezuela. A cotação do real era de R$ 3,809 em 2 de janeiro de janeiro de 2019, no primeiro dia de trabalho do presidente Jair Bolsonaro.

Hoje o real, diante do dólar, vale R$ 5,474, ou seja: no governo de Bolsonaro tivemos uma perda frente ao dólar de 43,71%. Isso tem reflexo no poder de compra e sobre o valor patrimonial das pessoas.

Os brasileiros que têm investimentos em moeda no exterior estão rindo à toa com os ganhos. Os ativos estão depreciados e, mesmo assim, os investidores estrangeiros não estão investindo no Brasil, seja pela crise da covid-19 ou pela incerteza sobre os rumos da economia.

O anúncio na última semana do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, de sinalizar a tolerância com inflação maior e juros nos atuais patamares, deu uma acalmada no processo de desvalorização do real no Brasil na última sexta-feira. Com isso, a tendência do destino de parte dos dólares de investidores estrangeiros é o nosso país, onde os juros são 2% maiores que nos Estados Unidos. Isso não significa o fim da volatilidade no câmbio, pois há outros fatores em jogo e a posição do Banco Central neste enfrentamento não tem sido clara.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

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