Conectividade potencializa infraestrutura e lucratividade do agro brasileiro

Daniel Fuchs, sócio e CIO do Grupo Datora – Foto: Divulgação

Daniel Tibor Fuchs*

Responsável por 21% do PIB (Produto Interno Bruto), o agronegócio é um dos principais pilares da economia brasileira. Por sua relevância tanto para as exportações quanto para o mercado interno, a atividade se concentra em áreas remotas do país. Ao mesmo tempo que nossa dimensão territorial permite recordes e mais recordes de produção, ela também representa um grande obstáculo para a sua digitalização, já que as grandes operadoras de telecom costumam dar preferência às regiões de alta densidade demográfica. Esse cenário, no entanto, não é a realidade do meio rural, que fica desprovido da conectividade, que é o principal insumo de transformação digital hoje em marcha.

De acordo com dados atualizados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as áreas consideradas urbanas no Brasil representam menos de 1% do território nacional (ou precisamente 0,63%), concentrando 177 milhões de pessoas, ou seja, 84% dos 221 milhões que atualmente compõem a população brasileira. Já a outra parcela de 34 milhões de pessoas, ou 16% dos brasileiros, vivem em pequenos vilarejos situados em áreas rurais do interior do país. Entre eles, pequenos, médios e grandes produtores responsáveis pelo agronegócio brasileiro, mas cujo acesso limitado às telecomunicações – ou até mesmo inexistente –, impacta negativamente o seu negócio.

Por sua vez, o extenso território de áreas rurais isoladas e carentes por conectividade apresenta uma série de demandas por soluções que potencializa a infraestrutura no campo, agregando produtividade e maximizando lucros. Durante o fórum promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, em março deste ano, o coordenador técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Joaci Medeiros, trouxe um dado importante: no último Censo Agropecuário (2017), o IBGE escancarou a falta de conectividade do campo brasileiro: de um universo superior a 5 milhões de estabelecimentos rurais, apenas 1,4 milhão conta com um ponto de internet, o que é insuficiente para conectar toda a propriedade rural.

A cadeia que integra o agronegócio é extensa, complexa e inclui desde a aquisição de insumos, o plantio, o manuseio, a colheita, a logística de distribuição e a comercialização dos produtos agrícolas na ponta final, com grandes atacadistas e supermercadistas. De modo geral, a conectividade para o agronegócio tem como objetivos reduzir custos, fazer com que o agricultor tenha controle sobre a fazenda, aumente a produtividade e melhore a logística, tanto interna quanto no transporte da produção. Para facilitar essa compreensão, trago aqui alguns exemplos práticos de como a conectividade pode ajudar no agronegócio:

  • Uma aplicação está no uso da água na produção. Seu manejo, a quantidade que a Agência Nacional de Águas licencia para cada fazenda, e a movimentação do ponto de coleta até a área de uso são partes essenciais, e que a Internet das Coisas (IoT) pode ajudar de várias maneiras.
  • O acionamento remoto do pivô de irrigação; a utilização das bombas de água nos melhores horários para economizar energia elétrica; a adição de nutrientes na irrigação, assim como a liberação de pesticidas para o maquinário são outras formas de controle e otimização da produção que podem ser obtidas a partir de soluções de conectividade no campo.
  • O sensoriamento do solo também pode ser melhor compreendido a partir da conectividade, ao entregar informações precisas sobre a qualidade do solo, o uso de nutrientes, o modelo de rotação de culturas, a localização dos tratores e colheitadeiras, o posicionamento da montagem do fardo e a precisão da qualidade em cada setor de plantio. Tais atividades, quando não são devidamente organizadas, consomem tempo e recursos do produtor rural.
  • Outro ponto fundamental para reduzir custos no agronegócio é a logística. Perdas ocorrem no transporte de grãos, onde o peso da origem não é o mesmo no destino da carga. Assim como nos atrasos decorrentes do trajeto da fazenda para o porto e nos custos indiretos deste importante componente do preço da mercadoria.

Por falar nisso, é comum vermos reportagens sobre o engarrafamento de caminhões para entrar no porto de Santos, o que resulta em atrasos de entrega e deterioração do produto transportado. Também, neste caso, a conectividade permite ao fazendeiro antecipar possíveis problemas de logística, fazendo-o compreender todo o contexto para a tomada de decisões, como por exemplo:

  • Se há um gargalo no porto ou em um centro de distribuição, o horário previsto de chegada permite providenciar antecipadamente uma estadia para o caminhoneiro, programar sua chegada fora do horário de pico ou até redesignar o destino específico de uma carga;
  • Auxilia-o também a entender onde ocorrem exatamente as perdas no trajeto, seja por aumento do tempo para percorrer um quilômetro, seja por perda efetiva de mercadoria, possibilitando que caminhoneiros e produtores possam cobrar melhorias na infraestrutura viária, bem como apontar as localizações precisas para realizar tais reparos.

Esses são alguns dos benefícios que a conectividade e a produção digitalizada trazem para o agronegócio brasileiro: automatização, mais inteligência e eficiência.

Dentre outras medidas que devem ser adotadas para que as áreas rurais brasileiras sejam conectadas, o FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), hoje estimado em R$ 22 bilhões, não teve ainda o seu uso liberado para ser investido na melhoria da infraestrutura de telecomunicações do país.

* Sócio e CIO do Grupo Datora

 

 

AGROemDIA

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