Tecnologia: Cooperativa do litoral norte gaúcho tem 100% dos sócios conectados

Com a plataforma, produtores estão tendo bons resultados no mercado – Foto: Ubirajara Machado/Divulgação

O cooperativismo avança na sinergia com a inovação. No litoral norte do Rio Grande do Sul, todos os 273 associados da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt) têm acesso a uma plataforma digital, que auxilia no controle dos cultivos e garante a rastreabilidade adequada da produção. O uso da tecnologia vem mudando a rotina dos agricultores que, unidos e conectados, estão alcançando resultados importantes e se diferenciando no mercado.

“Acreditamos que informatizar fortalece a propriedade e facilita muito para os agricultores. A Coomafitt saiu na frente, nos informamos, corremos atrás e nos organizamos”, resume Micheli Bresolin Jacoby, vice-presidente da entidade.

Além de comercializar hortaliças, frutas, mel, derivados de cana-de-açúcar e produtos de panificação direto ao consumidor, a cooperativa também abastece escolas públicas, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e, desde 2020, fornece mel e bananas (prata e caturra) a um dos maiores hospitais do estado.

“As chamadas públicas exigem rastreabilidade das frutas, que foi obtida graças ao histórico de produção. Fica mais simples, também, solicitar financiamento do Pronaf ou alguma cooperativa de crédito, tudo ficou mais fácil”, exemplifica. Fundada em 2006, a Coomafitt oferece ao mercado mais de 80 variedades de alimentos.

Áreas mapeadas

Os associados da cooperativa estão com as áreas produtivas mapeadas e colocam as informações, no sistema, através de um aplicativo. A plataforma Demetra funciona como um caderno de campo digital, em que o agricultor faz, de maneira fácil e prática, sem a necessidade de conexão com a internet, o registro de atividades do dia a dia nas lavouras, como adubação, irrigação, podas de galhos e aplicações, desde o preparo do solo até o plantio. Todo o manejo pode ser acessado à distância.

O extensionista rural da Emater/RS, Cícero Costa Santos, que atende os associados com propriedade em Itati (RS), vê ganhos no trabalho para ambos os lados. “Tenho acesso, em tempo integral, às anotações do caderno de campo digital. Com isso, sei onde estão as áreas de produção, o registro dos produtos que utilizam e qual a forma de manejo de cada agricultor. Quando vou até a propriedade, já tenho um ‘briefing’ do que vamos fazer. Antes do aplicativo, ele relatava o problema só quando vinha até a cidade, ou precisava esperar que a gente fosse fazer uma visita.”

As ferramentas da plataforma possibilitam também, o atendimento remoto. “O agricultor tem suporte. Caso precise, ele pode enviar mensagem com uma dúvida ou foto da planta com problema e a gente tenta responder o mais breve possível. Assim, eu vou acompanhando o ciclo, até as colheitas de cada um dos agricultores, então fica bem mais fácil”, relata Santos, que vê os resultados de todo esse trabalho na produtividade final das propriedades.

A Coomafitt tem como característica forte a presença de jovens na administração. “Observo que os mais jovens utilizam todas as funcionalidades possíveis da plataforma Demetra, como o envio de imagens e o registro de todos os manejos. O pessoal mais velho tem mais resistência e utiliza mais a parte de produção e um pouco do manejo. Os mais moços estão indo super bem”, acrescenta o extensionista rural.

Jovens cooperativados

A exemplo do presidente da Cooperativa, Bruno Engel Justin, 25 anos, um terço da diretoria e dos conselhos são integrados por jovens que querem viver bem, com renda e condições, sem precisarem ir para as cidades. Eles veem o campo não só como o local onde nasceram e um espaço para a produção de alimentos, mas também de vivência.

A vice-presidente Micheli, aos 31 anos diz que é a ‘vovó’ entre o grupo que atua na administração da Coomafitt. “Somos jovens e encontramos quem conversa conosco na mesma língua e isso foi bem forte”, explica, ao justificar a escolha pelo caderno de campo Digital produzido pela startup Elysios Agricultura Inteligente. “A Elysios também é gurizada, que quer trabalhar fortalecendo as propriedades e facilitar para os agricultores. Com a parceria, agora temos um mapeamento completo, a setorização de cada alimento que o agricultor está produzindo e quanto cada um está colhendo, tudo especificado. Dá segurança para a cooperativa, para o agricultor e para o mercado que vai consumir. A Demetra facilitou, ajudou muito a manter o jovem na propriedade e ajudar os pais a trabalharem com essa ferramenta. Esse jovem se responsabiliza por utilizar e lançar os dados nesse aplicativo”, conta Michele, que é de uma família de produtores de banana e frutas cítricas. “Confiamos, também, porque eles vêm aqui todo mês e ajudam o agricultor que tem dificuldades ou dúvidas, para acessar a plataforma. Eles ouvem nossas sugestões para melhorar o sistema da cooperativa ou para o agricultor. Temos que estar abertos a mudanças, senão não funciona”.

Idealizada por cinco ex-alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a AgTech Elysios, com sede em Porto Alegre (RS), tem um perfil bem jovem. A média de idade dos 18 integrantes da equipe, que atuam tanto no desenvolvimento quanto na aplicação da tecnologia junto aos clientes, é de 25 anos. “Hoje, precisamos ser mais ágeis. Nós levamos mais capacitação e conhecimento aos produtores de forma simples, fácil e acessível, com a tecnologia na palma da mão, literalmente, via smartphone”, explica Frederico Apollo Brito, CEO da startup. “Paralelamente, o técnico agrícola é essencial para garantir que a informação correta chegue ao produtor e acompanhá-lo no melhor uso da plataforma, ajudando na tomada de decisões. Os produtores estão se atualizando e crescendo. E a tendência é isso tudo se intensificar”, completa Brito, um dos fundadores da empresa, que tem como foco os pequenos e médios agricultores familiares

O diferencial alcançado pela Coomafitt é a organização que, aos poucos, também vem proporcionando rastreabilidade aos cultivos, uma exigência do mercado. Com informações sobre o processo de produção de vegetais frescos ao consumidor, há, ainda, um ganho em credibilidade. “Uma cooperativa familiar que informatiza os produtores através de parceria com uma startup, muitas cooperativas profissionais não têm isso. Eles valorizam muito mais a como empreendedores do que como empresa”, afirma Brito. “O novo foco no campo é a acessibilidade e ela ajuda a planejar com mais agilidade e hoje precisamos ser mais ágeis. Esses produtores estão no caminho certo porque o conhecimento aumenta, também, a produtividade por hectare”, assinala Brito.

 

 

 

 

AGROemDIA

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