Dia da Mulher: Produtoras de leite, uma vida de sacrifício e luta por melhorias no setor

Antes do dia clarear, elas já estão na lida do campo. A rotina, de cerca de 14 horas por dia, de segunda a domingo, inclui ordenha de vacas, higienização dos galpões, alimentação dos animais e trato das pastagens, entre outros afazeres. No meio da manhã, retornam as suas casas para fazer almoço e outras tarefas. No fim da tarde, começam nova ordenha, que dura pelo menos mais três horas. São as mulheres da cadeia de leite, uma mão de obra quase invisível que por décadas divide com os homens um dos mais exigentes trabalhos rurais e que hoje engrossam a luta por melhorias no setor. 

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, elas relatam um pouco do seu cotidiano na produção de leite, nos serviços domésticos e, às vezes, em algum trabalho externo. Também reforçam as reivindicações da base produtora por melhoria nos preços do leite aos produtores, redução nos custos de produção e um novo modelo de remuneração na cadeia láctea. Expõem ainda outras necessidades, como a falta de assistência técnica, assistência médica e seguridade social.

“A gente não ajuda na propriedade, a gente trabalha”, diz Indianara Cristina Pires, pequena produtora do setor de leite em Congonhinhas (PR) e participante ativa dos movimentos que buscam melhorias na atividade leiteira, como o Construindo Leite Brasil, o Inconfidência Leiteira, o União e Ação e o Aliança e Ação. “Nós contribuímos para girar a roda da economia, da sustentabilidade, do equilíbrio social. Não somos coadjuvantes, mas atrizes principais e queremos resultados socioeconômicos.”

Indianara trocou a cidade, onde trabalhava com projetos agrosocioambientais, pelo campo em 2012. Por quatro anos, ela e o esposo estruturaram a propriedade para produção de leite, que começou em 2016. Desde então, ela se dedica exclusivamente a casa e à atividade leiteira. “É um trabalho puxado, mas foi uma opção minha”, assinala. “A gente teve como espelho o sítio dos pais do meu marido, vizinho ao nosso, mas tivemos que buscar conhecimento para tocar o nosso negócio.”

Indianara Cristina Pires, produtora de leite em Congonhinhas (PR) – Foto: Arquivo pessoal

“A gente não ajuda na propriedade, a gente trabalha”

A propriedade de Indianara tem 65 vacas, das quais 30 em lactação, e produz em média 400 litros por dia em duas ordenhas (de manhã e no fim da tarde). “O trabalho se inicia por volta das 5 horas. São cerca de duas horas de ordenha, limpeza dos galpões e alimentação de bezerras. Essas são as minhas tarefas, enquanto meu marido cuida da lavoura e do trato dos animais. Depois, começam as tarefas da casa, como preparar a comida e dar atenção às três filhas”, conta a produtora paranaense de 37 anos.

Nos intervalos, Indianara ainda cuida das finanças e dos estoques da propriedade, além de acompanhar o mercado agrícola, especialmente o do leite, e as previsões climáticas. “A gente controla as contas, os estoques e a produção leiteira, que também envolve a saúde e bem-estar animal. Tudo para que possamos ter ao final do mês renda para cobrir os custos, pagar os financiamentos e ter algum capital de giro. É um estresse semanal.”

Nos últimos 10 meses, entretanto, está difícil fechar as contas, assinala Indianara. “Os custos subiram muito devido à pandemia e às altas do dólar e das commodities. Se não controlarmos, trabalhamos o mês para pagar alimentação para os animais, combustível, material de limpeza, medicamentos veterinários e sementes. Os preços dos insumos dispararam, mas os do leite não acompanharam, o que reduziu nossa margem de lucro.”

Apesar das dificuldades, Indianara acha possível reverter o cenário. “Nós, mulheres, temos participado cada vez mais dos debates para construir uma política leiteira que atenda de fato os produtores, e não apenas a indústria. Também queremos ampliar o espaço feminino nos Conseleites e contamos com o apoio da ministra Tereza Cristina para que seja criada no Ministério da Agricultura uma secretaria para tratar exclusivamente do setor de leite.

Soeli Lopes Zampieri, produtora de leite em São Jorge (RS) – Foto: Arquivo pessoal

“Às vezes, fica meio puxado e esqueço de mim”

A rotina da produtora de leite Soeli Lopes Zampieri, do município de São Jorge (RS), é ainda um pouco mais sacrificante do que a de Indianara. Aos 42 anos, mãe de uma filha de 15 anos, a agricultora tem, ao lado do marido, uma jornada diária de trabalho puxado, que não para nem na hora do descanso, já no fim da noite:

“O dia aqui começa às 4 horas, quando vamos ao galpão tratar e ordenhar as vacas. São umas três horas de serviço. Em seguida, limpamos tudo, deixamos a comida pronta para a parte da tarde e soltamos os animais no pasto. Depois, organizo a casa e vou fazer faxina na cidade. Quando não trabalho fora, cuido da lavoura e de um pomar de caqui.”

Concluída a segunda ordenha, Soeli procura se informar sobre o mercado lácteo. “É a hora do descanso e do estresse, porque nunca sabemos quanto receberemos. Entregamos o produto [para o laticínio] e só vamos saber do valor no dia 15. E, ultimamente, os preços só baixam, é só notícia ruim, é um desgaste enorme.”

Antes de dormir, Soeli tem mais uma jornada de serviço. “Depois de tudo isso, eu vou para minha mesa decorar cuias e imagens de santos com pérolas. Às vezes, enquanto trabalho com artesanato, ainda faço chamada de vídeo para minha mãe, no Paraná, e para minha irmã, em Santa Catarina, para rezarmos o terço.”

Os trabalhos extras ajudam Soeli a pagar as contas da atividade leiteira quando os negócios estão no vermelho. Mesmo assim, ela não desanima, embora diga que há momentos em que acaba esquecendo de si. “Às vezes, a Soeli fica um pouco de lado, mas aí a relaxar e respirar que tudo volta ao normal.”

Cirlane Silva Ferreira, produtora de leite em Palmeiras de Goiás – Foto: Arquivo pessoal

Trabalho sem remuneração e falta de assistência

Mesmo com a jornada puxada no campo, somada às atividades domésticas, a imensa maioria das mulheres que trabalha com seus maridos nas cerca de 1,2 milhão de propriedades leiteiras não têm ganhos só delas. “A nossa remuneração é da família”, pontua a produtora e biomédica Cirlane Silva Ferreira, de Palmeiras de Goiás. “No fim do mês, nunca temos um salário para que possamos comprar uma roupa, um eletrodoméstico.”

Cirlane sublinha ainda que a maioria das produtoras de leite também não conta com atendimento específico à saúde nem tem seguridade social, uma vez que não tem carteira de trabalho assinada e, consequentemente, não contribuem para a Previdência Social. “Não há um programa governamental que leve assistência médica às mulheres do setor para que possam fazer exames preventivos de câncer de mama, por exemplo.”

Recentemente, Cirlane expôs a situação das produtoras de leite num encontro com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, em Anapólis (GO). Segundo ela, Damares foi receptiva as suas ponderações e ficou de estudar uma política pública de apoio às mulheres do setor. “A ministra falou que no governo Bolsonaro ninguém fica para trás e que acolheria as mulheres da cadeia de leite. Estou esperando o contato dela, ou da sua equipe, para levarmos o assunto adiante.”

Aos 47 anos e mãe de um filho, Cirlane divide o tempo entre o trabalho de biomédica no serviço pública e a atividade leiteira, junto com o marido. Há 28 anos no setor, ela observa que, além do cansaço físico, a atividade leiteira causa problemas emocionais, ainda mais neste momento de pandemia de covid-19, de altos dos custos de produção e de queda do preço ao produtor. “A pecuária de leite já teve bons momentos, mas hoje está muito ruim, o que impossibilita as mulheres até sonharem em tirar férias. Tudo isso resulta em baixa autoestima.”

Brigida Diniz, produtora de leite no município de Panamá (GO) – Foto: Arquivo pessoal

Produtora no município goiano de Panamá, Brigida Diniz acrescenta: “Também nos falta assistência técnica. Nossas entidades, prefeituras e governos estaduais e federal poderiam dar um apoio maior, olhar mais para a gente.”

Há 19 anos no setor, Brigida administra uma fazenda com 200 animais, dos quais 86 em lactação, e produção de 1.500 litros de leite/dia. “Mas atualmente está difícil para os pequenos e médios produtores crescerem no mercado por causa dos altos custos de produção, da queda do preço ao produtor e do sistema de remuneração, no qual a gente entrega o produto sem saber quanto vai receber.”

ENTREVISTA//LILIAN DE FÁTIMA GONÇALVES

“É preciso reconhecer o papel das mulheres no campo”

Arquiteta por formação e agropecuarista por amor e opção, Lilian de Fátima Gonçalves administra, com o marido, Donizete Ferreira de Faria, uma fazenda de gado de leite e corte em Itapagipe (MG). Hoje, eles têm um rebanho de 80 vacas, com 45 em lactação, produzindo cerca de 400 litros de leite/dia, em apenas uma ordenha. Para ela, a mulher tem papel fundamental na unidade familiar e no processo de produção leiteira. Por isso, considera imprescindível a valorização das mulheres “por sua força gigantesca de proatividade, dedicação e generosidade.”

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Lilian de Fátima Gonçalves, produtora de leite em Itapagipe (MG) – Foto: Arquivo pessoal

AGROemDIA: Como a senhora avalia a participação da mulher na pecuária de leite?

Lilian Gonçalves: A cadeia de leite no Brasil ainda é fortemente estruturada em sistemas produtivos de base agrofamiliar. Portanto, é fundamental reconhecermos a legítima participação das mulheres dentro dessa estrutura de trabalho familiar e processo de produção. A mulher desempenha papel fundamental dentro da unidade familiar tanto quanto na cadeia de leite. Sua atuação é ímpar, seja dentro do núcleo familiar, dando suporte às atividades em campo, com todo o suprimento doméstico, ou, em, muitos casos, ajudando ativamente na lida com o gado e na ordenha.

AGROemDIA: Como é conciliar tarefas comuns às mulheres, como a educação dos filhos e atividades domésticas, com a lida na atividade leiteira?

Lilian Goncalves: A vida e o trabalho na zona rural não são nada fáceis para as mulheres. É preciso muita resistência, resiliência e organização para conciliar as atividades domésticas, os cuidados com a família e as atividades da lida. No ambiente agrofamiliar, onde a família mora e desenvolve suas atividades na propriedade, geralmente a rotina de trabalho da mulher é severa, de domingo a domingo (muitas vezes sem remuneração e sem férias), principalmente quando ela se disponibiliza a ajudar na lida do leite. As atividades são diversas: limpeza da casa, dos terreiros e do barracão, manejo da horta, alimentação dos animais, ordenha, cuidado com os filhos, ajuda nas tarefas escolares, lavagem de roupa etc. Enfim, isso pode representar um trabalho diário que varia de 8, 10 até 16 horas. É um batidão sertanejo.

AGROemDIA: Como a mulher é vista pelos demais produtores e colaboradores na pecuária de leite?

Lilian Gonçalves: Infelizmente, as mulheres ainda são, na grande maioria das vezes, vistas como coadjuvantes do homem, porque não participam ativamente do processo decisório produtivo da propriedade, tais como planejamento, definição de metas, reciclagens, implementação de novas técnicas e tecnologias. Em contrapartida, as mulheres que se dedicam mais às atividades de planejamento e gestão na propriedade muitas vezes se destacam e são respeitadas, mas encontram alguma estranheza por parte da maioria masculina com quem convive ou lidera.

AGROemDIA: Há desafios inerentes às mulheres na atividade leiteira?

Lilian Gonçalves: Muitos, principalmente quando pensamos na diversidade de perfis de mulheres,  no nível de escolaridade e na cultura do núcleo familiar ou da comunidade onde vivem. Podemos pensar em investimentos em requalificação, em empreendedorismo, em empoderamento dessa mulher. Mas, sem dúvida, o maior desafio é o reconhecimento desse papel de epicentrismo que as mulheres do campo exercem no núcleo familiar e na sua comunidade. Por isso, é imprescindível a valorização dessa força gigantesca de proatividade, dedicação e generosidade. A sociedade precisa valorizar mais para ajudar a empoderar e criar mecanismos para lapidar as mulheres rurais, com incentivo à participação, à opinião e ao posicionamento, com respeito a nossa importância, necessidades e vontades.

AGROemDIA: Como as mulheres lidam com problemas que afetam, no momento, toda a cadeia, como os altos custos de produção, as baixas nos preços do produto ao produtor, os impostos elevados?

Lilian Gonçalves: Com certeza com grande preocupação e impotência, pois o reflexo na receita familiar é imediato e negativo quando equacionamos custos elevados com baixa rentabilidade no leite, e esta, infelizmente, sempre foi uma constante em nossos orçamentos. Todavia, o que não parecia poder ficar pior, vem ficando insustentável diante da liberalidade do mercado exportador, que prioriza o lucro, os gráficos do PIB, a balança comercial e a fome dos chineses etc. Penso que isso precisa ser regulado, regulamentado, enfim, revisto. Visualizar soluções me parece complexo demais, pois são tantas frentes a trabalhar, e todas dependem do apoio público ou político. O país parece ter esquecido a importância de desenvolver políticas públicas de proteção à agricultura familiar e, principalmente, à segurança alimentar de seu povo. Precisamos urgente de ações de proteção a esses sistemas de produção. É preciso criar mecanismos para preservar a agricultura familiar, nossa atividade produtiva, os postos de trabalho e manter essa população rural no campo para o bem da cadeia do leite, do meio ambiente e até para a sustentabilidade da vida nas cidades. Preocupo-me, pois na minha região a monocultura vem avançando, e a sucessão familiar não terá grandes chances, visto que os jovens não querem para si essas condições de trabalho, ou vida sem igualdades de condições em infraestrutura, comunicação, educação, saúde e segurança.

O país parece ter esquecido a importância de desenvolver políticas públicas de proteção à agricultura familiar”

AGROemDIA: Qual a contribuição que as mulheres estão dando, e ainda podem dar, para melhorias na cadeia leiteira?

Lilian Gonçalves: A mulher já contribui, e muito, continuando no campo. A mulher é o termômetro do êxodo rural, se ela decide partir, o campo esvazia. Por isso, é preciso criar mais condições e qualidade de vida para que a mulher seja feliz no ambiente rural, se qualifique e participe mais do processo de gestão e decisão dentro da propriedade. As mulheres poderão agregar mais valor quando se dedicarem à administração de seus negócios familiares.

AGROemDIA: A mulher produtora de leite tem algumas necessidades específicas na área de saúde pública que os governos deveriam estar dando mais atenção?

Lilian Gonçalves: Toda a comunidade rural é carente de serviços essenciais, como saúde, educação, mobilidade, estradas, comunicação, telefonia e conectividade. A zona rural é um território esquecido. Quando se quer algo tem que ir à cidade e se sujeitar à disponibilidade da demanda urbana. A saúde da mulher é essencial e deveria haver uma estrutura pública para dar esse suporte, com pessoal, equipamentos e horários orientados a toda população rural ou um serviço móvel no campo.

AGROemDIA: O sistema público de ensino da zona rural é compatível com a importância socioeconômica do setor agrícola?

Lilian Gonçalves: A questão da educação é preocupante na zona rural. Deveria haver um sistema de ensino integral para que as crianças pudessem ser mais bem assistidas e pudessem ter as mesmas condições daqueles que moram nas cidades. As crianças passam grande parte do tempo no transporte escolar, enfrentando péssimas condições de deslocamento entre barro e poeira. Quando retornam cansadas, encontram pais também cansados e muitas vezes despreparados para dar o devido suporte aos estudos. A falta de conectividade é atualmente um grande fator de exclusão e agora ainda mais evidente e agravado pela pandemia. Sem falar que em muitos locais até hoje não existe nem serviço de telefonia. Ou seja, o sistema de telecomunicação no Brasil também é só para as cidades.]

 

 

AGROemDIA

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