Alta dos juros desvaloriza dólar e reduz preços das commodities

Ivanir José Bortot, jornalista – Reprodução: Youtube

Ivanir José Bortot*

O efeito do aumento necessário de juros, novamente adotado pelo Banco Central (BC), a fim de conter a inflação, é ainda incerto. A taxa Selic foi elevada nas últimas reuniões de 2% ao ano para 3,5%, e a autoridade monetária já deu a entender que vem novo aumento de 0,75% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

O sistema financeiro aposta que, até o final de 2021, os juros oficiais serão da ordem 5,5%, o necessário para reduzir a atual inflação de 7,67% nos últimos 12 meses, ou entre 7,5% e 8% nos próximos meses, como estimou o presidente do BC, Roberto Campos Neto. A inflação tem sido alimentada pela elevação dos preços das commodities, dos alimentos exportados pelo Brasil, dos combustíveis, do material da construção civil e a desvalorização do real diante do dólar.

Com os últimos aumentos dos juros, já começou a ocorrer uma desvalorização do dólar, pelo ingresso da moeda estrangeira de investidores que passam a ver boas oportunidades no mercado brasileiro. Um real menos desvalorizado contribui também na redução dos preços das commodities. Soja, milho, trigo a preços menores ajudam no esforço de conter preços e elevar a oferta de comida aos brasileiros.

O percentual das taxas é uma incógnita tanto para a autoridade monetária quando para os economistas do mercado. A única certeza do Copom é de que terá de lançar mãos deste instrumento monetário para promover uma contração da economia e, com isso, desestimular para trazer os preços e a inflação para dentro da meta. A cada reunião do Copom são feitas avaliações sobre os impactos dos juros em vigor a partir dos indicadores econômicos da economia e definidos novos percentuais de juros necessários.

A dificuldade maior é que um aumento de juros hoje leva em média seis meses para produzir os seus efeitos contracionistas. Porém, o impacto destes juros é imediato ao Tesouro Nacional e aos poupadores.

Explosão da dívida pública

O custo de rolagem da dívida pública será de mais de 100% do que era quando os juros estavam em 2%. As pessoas que têm dinheiro na poupança terão uma melhora na sua rentabilidade, uma vez que até aqui os juros pagos pelos bancos são negativos se comparados com as taxas que recebem e a inflação do período que corrói o principal da aplicação.

Embora seja difícil definir de antemão qual dose de juros é necessária para atingir o objetivo de preservar o poder de compra da moeda, sabe-se que uma política monetária expansionista e um déficit público elevado, como o atual, jogam contra.

Neste aspecto, o Banco Central tem pela frente uma situação dramática. O déficit público explodiu. A dívida pública é equivalente hoje a 90% do Produto Interno Bruto (PIB) e a injeção de recursos públicos para socorrer a população pobre e desempregada e a ajuda financeira às empresas de pequeno, médio e grande porte são fatores que dificultam a vida das autoridades monetárias de controlar a inflação. Assim, quanto melhor for o resultado fiscal e mais restritos os mecanismos de compulsórios ou injeção de recursos no mercado, os juros têm tração maior na economia. Com juros menores é possível controlar a inflação.

A dura realidade é que, além destes fatores e as distorções provocadas pela covid-19, a economia não está dando sinais de retomada de crescimento, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos e outros países. Sem crescimento e com aumento das taxas de juros, continuaremos com mais de 14 milhões de desempregados, cuja única fonte de renda é a venda da sua força de trabalho.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

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