Sempre aos Domingos: Você decide

Zé Tito*

Eloy Barbosa Guedes foi três vezes vereador e duas vezes prefeito de um pequeno município do Nordeste. Em muitas oportunidades, ele também exercia o papel de juiz de paz, conselheiro, confidente, compadre e “socorrista” na minúscula comunidade de sertanejos. Quando um correligionário se via apertado, lá estava Eloy a emprestar dinheiro a longo prazo e sem cobrar juros.

Mas eis que um dia ele foi escolhido a dar uma vexatória e triste notícia para o seu fiel eleitor Aristarco: sua infiel esposa Beatriz o traía com o vizinho Davi. Essa infidelidade corria à solta na vereda do Pau d,Arco, onde casal morava. Porém, ninguém se atrevia a contar tal infortúnio ao enganado. Afinal, Aristarco era violento, brigão; a todos intimidava e para dar um bofetão numa criatura nem prestava atenção. Era violento, mas tinha um refinado gosto musical. Curtia Juazeiro, cantada por Luiz Gonzaga.

Quem ousaria contar que ele estava com um par de chifre na cabeça? Ninguém, mas ninguém mesmo. A Eloy foi dada essa ingrata missão. E ele não se fez de rogado. No dia da feira, encontra Aristarco e convida o fanático eleitor para tomar um café no seu gabinete na prefeitura. Na hora marcada, lá estava o valentão todo serelepe. Eloy o recebe com cortesia, pede-lhe para sentar e manda servir o café.

Para afugentar o nervosismo do encontro, pergunta daqui, pergunta dali, pergunta pelas crianças, pergunta por dona Beatriz, pergunta se lá na vereda do Pau d’Arco está chovendo etc; até que toma coragem e conta o que está se passando para Aristarco. O homem envermelhou, amarelou, arroxou, chorou. E não acreditou no que acabava de saber, eis que o traído é mesmo o último a saber. Não podia ser mentira. Para ele, Eloy era confiável.

– Tudo verdade, Aristarco, mandei apurar. Todo mundo já sabe que Beatriz lhe trai.

Com o coração possuído pelo ódio, Aristarco fita o telhado, olha para o chão, vira para o prefeito amigo e diz:

– Eloy, quando a gente mata um ou dois, ou três, a gente é criminoso, vai preso, paga pelo crime, vai solto, fica livre e deixa de ser criminoso. E corno, você nunca deixa de ser, mesmo que arrume outras mulheres, sempre será corno por toda a vida.

– É verdade, concordo com você, graças a Deus tenho uma santa dentro de casa, uma santa.

– Eloy, estou confuso, com o pensamento fervendo na cabeça, pensamento turvo. Acho que vou matar esse Davi pra ele aprender a respeitar um homem trabalhador. Vou lavar a minha honra com o sangue daquele desgraçado. Ele vai me pagar.

– Tenha calma, homem. Isso não se resolve com violência, com crime. As coisas podem piorar para o seu lado. Pense melhor –, ponderou o prefeito.

– Eloy, me dê uma sugestão, um conselho eu lhe peço. Você acha que é melhor eu procurar outra Beatriz, ou ficar essa mesma, que é desse jeito, mas é a mãe dos meus filhos, cuida bem deles e não vai maltratar as crianças?

– Difícil opinar. Você decide.

*Jornalista e contador de causos

AGROemDIA

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