Política econômica pode frustrar tentativa de reeleição de Bolsonaro

Ivanir José Bortot*

A intensidade da atual política monetária contracionista do Banco Central deve consolidar o fracasso da economia do governo Jair Bolsonaro no seu último ano de mandado, em 2022. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, diz que tudo será feito para manter a inflação dentro da meta, indicando que os juros tendem ir às alturas para que isso ocorra.

A ata do Comitê de Política Monetária do BC (Copom) já sinalizou que serão elevados para 6,25% os juros básicos em setembro, juros nominais, o que ainda ficaria abaixo da inflação estimada para este ano, de 7,02%. Serão necessários novos aumentos de juros acima da variação da inflação para que os preços voltem a cair.

A eficácia de novos juros reais no combate da inflação, no entanto, é duvidosa, já que seus impactos sobre os preços administrados são limitados. As pessoas não deixam de consumir energia elétrica, óleo diesel e gás em função do aumento dos juros. São incertos, também, os efeitos que possam ocorrer sobre o câmbio. Embora juros altos possam contribuir para o ingresso de divisas estrangeiras, provocando uma valorização do real, isso pode não ocorrer, tendo em vista à deterioração das contas públicas e às constantes ameaças de crises institucionais provocadas por nada mais nada menos que o próprio presidente da República.

O certo é que juros reais vão provocar uma contração nos gastos da economia e consolidar as estimativas dos economistas do mercado de que o Brasil crescerá bem abaixo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. É uma péssima realidade para todos os agentes econômicos, em especial para as pessoas que dependem de um emprego para pagar suas contas.

Jair Bolsonaro concluirá estes quatro anos de seu governo com indicadores econômicos muito piores do que recebeu do ex-presidente Michel Temer. O nível de desempregados tende a ficar no atual patamar de 14 milhões de pessoas, a inflação continuará subtraindo parte da renda das pessoas e o próprio governo terá dificuldade de arrecadar mais impostos.

É uma verdade que o novo coronavírus provocou um grande estrago na economia e uma tragédia sanitária que levou à morte de milhares de pessoas. O despreparo de Bolsonaro para liderar o país contribuiu para o fracasso de seu governo em áreas importantes, como a economia, e o deixa sem qualquer bandeira ou discurso convincente aos eleitores.

Paulo Guedes, com pouca experiência na máquina pública, não conseguiu colocar de pé seu projeto de crescimento sustentável para o Brasil. Perdeu o momento para fazer privatizações, reforma tributária e outras medidas de estímulo ao setor produtivo. Era contra utilizar recursos públicos para estimular a economia, mas, diante da pandemia, foi obrigado a injetar bilhões para socorrer empresas e famílias necessitadas. Este dinheiro em circulação é que está contribuindo para a economia dar uma respirada em 2021.

Guedes demorou para entender que o ganho de arrecadação de impostos ocorridos nos últimos meses é fruto do aumento da inflação e que a melhora no desempenho fiscal está relacionada a este mesmo fator, coisa que não se repete no ano que vem. Para piorar, descobriu que terá que pagar precatórios e levantar recursos para o programa de assistência social que substituirá o Bolsa Família.

Economia e reeleição

A equipe econômica está sem qualquer receituário que possa tirar a economia do buraco. O feijão com arroz que está fazendo se deve à dura realidade de um país que está sem espaços para fazer qualquer coisa na área fiscal, a não ser administrar receitas e despesas para não agravar ainda mais uma dívida pública que anda na casa dos 83% do PIB. A dívida só não é maior uma vez que, no último ano, o Tesouro Nacional foi beneficiado pela prática de juros negativos médios da ordem de 3% na rolagem de seus papéis ao custo dos poupadores, que receberam juros nominais abaixo de 2%.

Bolsonaro poderá ter frustrada a sua expectativa de reeleição pelo fracasso na sua política econômica que ficará cada vez mais evidente nos próximos meses, apesar do ministro da Econômica acreditar que terá alguma continuidade este crescimento de 5,5% do PIB, previsto para 2021, em 2022, fato completamente fora da realidade diante da atual política monetária recessiva do Banco Central, cujo efeitos vão se prolongar ao longo do ano que vem.

O desempenho da economia sempre teve um grande peso na escolha dos eleitores brasileiros. Fernando Henrique Cardoso ganhou duas eleições seguidas por ter controlado a inflação, gerado empregos e aumentado o poder de compra das pessoas em ambiente de equilíbrio fiscal. A credibilidade na capacidade do governante de conduzir bem a política econômica é um fator relevante para o cidadão que vai depositar seu voto na urna.

* Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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