Sempre aos domingos: Nara Leão, a cantora revolucionária

Tito Matos*

Quando Nara Leão (1942/1989) criou coragem e disse ao pai que decidira ser cantora, Dr. Jairo Leão não acreditou e, num gesto de reprovação, disse para a filha:

— Ah, quer dizer que você vai virar vagabunda?

Mesmo com a falta de apoio do pai, ela não desanimou e foi participar de um show no restaurante Au Bom Gourmet, a convite de Carlinhos Lira e Vinícius de Moraes.

O começo da carreira não foi nada fácil. Nem mesmo o seu noivo Ronaldo Bôscoli, produtor e letrista, via nela qualidades como cantora. Nara cumpriu a temporada de três semanas, apresentando-se neste restaurante, com relativo sucesso. Era começo da Bossa Nova. Foi aí que ela começou a namorar o cineasta Rui Guerra (Os Cafajestes), depois que Bôscoli a trocou por Maysa.

Em seu livro Chega de Saudade, Rui Castro relata que o disco Nara, gravado no final de 1963, não foi a estreia de Nara em gravações. Ela participou do terceiro disco de Carlinhos Lira, “Depois do carnaval”.

Magoada com Bôscoli, Nara resolveu romper com a temática do mar e do amor da Bossa Nova e foi buscar no morro coisas da favela e pobreza “inteiramente estranhas ao movimento”, segundo Rui Castro. Nara gravou os sambas “Diz que fui por aí”, de Zé Keti.; “O sol nascerá”, de Cartola e Elton Medeiros; e “Luz Negra”, de Nelson Cavaquinho, músicas que nada tinham a ver com a Bossa Nova; eram músicas ditas engajadas. Por causa disso, foi duramente criticada pelo jornalista Sérgio Bitencourt, filho de Jacob do Bandolim. Ela também se aproximou do pessoal do Cinema Novo. Em 1964, a cantora faz uma excursão ao Japão e no Brasil com patrocínio da Rhodia.

Ao criticar o movimento contra a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, promovido em São Paulo, em 1965, Nara Leão, já considerada a musa da Bossa Nova, passou a viver uma rixa com a cantora Elis Regina, que fazia lembrar os tempos de Marlene e Emilinha. Considerada cantora de vanguarda, ela teve um entrevero com o Exército ao dizer que os militares podiam entender de canhão, mas não sabiam nada de política.

Convocado para dar explicações, o pai dela disse que a filha era maior de idade e livre para dizer o que pensava. Com o AI-5, em 1968, Nara se mudou para Paris, já casada com o cineasta Cacá Diegues, depois de dar por encerrada a sua carreira. Com a filha Isabel Diegues, fez as pazes com a Bossa Nova e grava o disco Dez Anos Depois, com maioria das músicas de Tom Jobim. Em 1979, aparece um tumor na cabeça da cantora. Apesar dos sintomas, ela continuava a produzir, fazer shows e gravar discos. Em 1981, Dr. Jairo se suicida. Foi um baque na vida da cantora. Nara Leão gostava de uma vida amorosa. Em 1965, o poeta Ferreira Gullar dela se enamorou.

A guerra de Nara com a Bossa Nova foi declarada mesmo com o politizado show Opinião, em dezembro de 1964, do qual participaram João do Vale e Zé Keti. “Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer…Carcará, pega, mata e come…” O show foi considerado a ideologia da pobreza. Segundo Rui Castro, todos os textos e canções do espetáculo falavam de miséria.

O show matou a Bossa Nova de ciúmes. “Não quero passar o resto da minha vida cantando Garota de Ipanema. Quero ser compreendida. Quero ser uma cantora do povo”, disse Nara. E foi defender “A Banda’’, de Chico Buarque, no festival da TV Record, em 1966, tão vitoriosa quanto “Disparada”, de Geraldo Vandre, na voz de Jair Rodrigues. Ela também se enveredou pala Jovem Guarda, dando uma nova interpretação às canções de Roberto Carlos. Nara foi mesmo uma cantora revolucionária. Ela própria se definiu: “Sou a mulher mais corajosa que conheço. Na intimidade, podem me chamar de Nara Coração de Leão”.

*Jornalista

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