O jogo europeu

Gil Reis*

A cada dia, a campanha ambientalista relativa às alterações climáticas e aquecimento global se parece mais com um jogo de cartas marcadas. A União Europeia, que lidera a religião ambientalista parida nos corredores da ONU, continua usando a política de ‘faça o que digo e não o que faço’. Os alvos de tal campanha são os países, fora da UE, que produzem alimentos, preferencialmente o Brasil, não importando o fato de que nos preocupemos com a natureza desde os idos tempos do Império e que tenhamos a legislação mais rígida do mundo na proteção do meio ambiente.

O Brasil esteve na COP26 e apresentou, com ‘prova provada’, as políticas públicas e as ações do agro na preservação ambiental. Infelizmente, parece que falamos para ouvidos surdos e as nossas demonstrações foram exibidas para olhos cegos, o que não é de causar espanto. Afinal, os ouvidos do mundo já foram ‘emprenhados’ pelos ambientalistas europeus com relatos inverídicos sobre o nosso país produzidos por ONGs e divulgados por articulistas e empresários colaboracionistas que sofrem com a ‘síndrome de Estocolmo’.

Como já em outro artigo, a nítida impressão que se tem é que os ambientalistas europeus e seus argumentos começam a deixar de ser os ‘queridinhos’ diante de tantas contestações científicas que estão transformando as teses ambientais em meras hipóteses sem comprovação. Leiamos alguns trechos de reportagem publicada pelo Financial Times, no dia 1º de janeiro deste ano, sob o título ‘Bruxelas propõe rótulo verde para gás natural e nuclear’:

“A Comissão Europeia abre caminho para investimentos, apesar das preocupações com resíduos e emissões de CO2. Bruxelas quer reconhecer a energia nuclear e as formas de gás natural como atividade “verde” como parte de um esquema de classificação da UE para ajudar os mercados financeiros a decidir o que é considerado investimento sustentável. Em planos há muito aguardados, a Comissão Europeia abriu caminho para investimentos em novas usinas nucleares por pelo menos as próximas duas décadas e gás natural por pelo menos uma década, sob um sistema de rotulagem verde conhecido como “taxonomia para finanças sustentáveis”.

O sistema de rotulagem, que cobrirá as indústrias que geram cerca de 80 por cento de todas as emissões de gases de efeito estufa na UE, é a primeira tentativa de um grande regulador global para decidir o que conta como atividade econômica verdadeiramente sustentável e ajudar a erradicar o chamado greenwashing em setor financeiro. Um projeto de texto legal, visto pelo Financial Times, diz que o rótulo verde da UE deve ser concedido a fontes de energia controversas, incluindo energia nuclear e gás natural, sob certas circunstâncias.

A decisão foi tomada depois que um grupo vocal de países pró-nucleares, liderados pela França, e governos pró-gás no sul e no leste da Europa exigiram que a taxonomia não punisse as fontes de energia que fornecem a maior parte de sua geração de energia. A energia nuclear não emite gases de efeito estufa, mas produz lixo tóxico que requer descarte seguro e pode representar riscos de radiação. O gás natural produz dióxido de carbono, mas seus defensores dizem que é muito menos poluente do que os combustíveis fósseis tradicionais e é uma forma vital de ajudar a pavimentar o caminho para emissões mais baixas.

A batalha para reconhecer a energia nuclear e o gás natural como verdes se intensificou nos últimos meses, com os países da UE enfrentando preços recordes de eletricidade neste inverno, impulsionados pela demanda crescente por importações de gás natural. O texto preliminar da taxonomia diz que a energia nuclear deve ser considerada uma atividade econômica sustentável, desde que os países da UE que hospedam usinas de energia possam descartar resíduos tóxicos com segurança e atender a um critério para “não causar danos significativos” ao meio ambiente.

A construção de novas usinas nucleares será reconhecida como verde para licenças concedidas até 2045, diz o texto.  O investimento em gás natural também está incluído no rótulo verde como uma energia “de transição”, mas deve atender a um conjunto mais detalhado de condições, incluindo a produção de emissões inferiores a 270g de CO2 por quilowatt e se estiver substituindo os combustíveis fósseis tradicionais, como a geração de carvão. A UE importa cerca de três quartos das suas necessidades de gás natural, a maior parte do qual é fornecida pela Rússia. A crise de energia do bloco gerou críticas de alguns Estados-membros de que Moscou está elevando artificialmente os preços do gás e que a UE deve acelerar as importações de gás para energias renováveis.  O texto da taxonomia precisará da aprovação da maioria dos estados membros da UE e membros do Parlamento Europeu.

O comissário francês da UE, Thierry Breton, disse ser a favor de rotular ambas as tecnologias como verdes, pois isso ajudaria a UE a cumprir a meta de reduzir as emissões de CO2 a zero até 2050, em comparação com os níveis de 1990. “O gás não é o melhor para atingir nosso objetivo porque você gera algum CO2, mas pelo menos é melhor como uma transição do que o carvão”, disse Breton a repórteres no mês passado. “Precisamos ter o financiamento certo na taxonomia, incluindo energia nuclear.”

Os países da UE continuam pressionando o agro brasileiro com normas que eles mesmos criam e são mais elásticas que fralda de bebê, para eles. Enquanto isso, aqui no Brasil, continuamos a ser grandes importadores de produtos europeus sem culpas e sem, ao menos, ter a curiosidade de saber se as áreas as uvas que produzem os vinhos obedecem às normas de preservação ambiental, se o gado europeu, que não emite metano, é criado ou se obedece às regras de bem-estar, já os patos que produzem o famoso ‘patê de foie gras’ não obedecem, assim ocorre com os demais produtos europeus que importamos com muito prazer.

A reportagem publicada pelo Financial Times começa a desnudar o véu por trás das normas europeias e deixa bem claro que a UE não está tão preocupada com a preservação do meio ambiente, mas sim com a área financeira e com a própria sobrevivência dos países sob o seu ‘guarda-chuva’, além do claro interesse em ‘extirpar’ os produtos brasileiros do comércio internacional.

*Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

AGROemDIA

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