Agricultor chileno é reconhecido pelo IICA como líder da ruralidade das Américas

Emilio Sepúlveda, “Líder da Ruralidade das Américas” – Foto: IICA/Divulgação

O agricultor familiar chileno Emilio Sepúlveda, membro do povo mapuche, foi declarado “Líder da Ruralidade das Américas” pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

A distinção, denominada “Alma da Ruralidade”, reconhece o seu trabalho de toda uma vida a favor da produção de alimentos saudáveis e nutritivos e a sua vontade de inovar e empreender novos projetos, como demonstra a sua produção atual de um azeite de oliva classificado por especialistas como de categoria mundial.

O reconhecimento dos Líderes da Ruralidade das Américas pelo IICA premia e dá visibilidade aos que atendem a um duplo papel insubstituível: ser avalistas da segurança alimentar e nutricional e, ao mesmo tempo, guardiões da biodiversidade do planeta por meio da produção em qualquer circunstância. Trata-se de homens e mulheres que deixam rastro e fazem a diferença no campo da América Latina e do Caribe.

A paixão de Sepúlveda pela agricultura é um exemplo positivo para as zonas rurais da região. Ele se interessou pelas espécies de oliveira que tradicionalmente são cultivadas no norte do Chile e transferiu a atividade para Araucanía, uma das 16 regiões do país, localizada mais de 700 km ao sul da capital, Santiago.

Seu sonho é chegar aos mercados internacionais com o seu azeite de oliva e deixar aos filhos e às novas gerações um legado de paixão pelo campo e pela atividade agropecuária.

O IICA considera a agricultura como um instrumento para a paz e a integração dos povos e trabalha com as suas 34 Representações nas Américas na escolha dos #Líderesdelaruralidade.

Emilio Sepúlveda, o camponês de Araucanía que deu vida ao azeite de oliva mais austral do mundo

Emilio Sepúlveda passou toda a sua vida no campo. Desde antes de ter memória, aprendeu a cultivar a terra e a criar animais em Araucanía, região do Chile localizada mais de 700 km ao sul de Santiago, a capital, que é a marca de sua identidade, da mesma forma que a sua pertinência ao povo mapuche, a etnia indígena mais numerosa nesse país do sul das Américas.

“Estou certo de que não poderia viver sem o verde, o ar puro e o alimento fresco que temos no campo. Creio que em uma cidade eu morreria em pouco tempo. Aqui trabalho todos os dias para ter o meu sustento e para dar um amanhã melhor aos que virão depois de nós. Se não planto, não tenho esperança”, conta Emilio, orgulhoso de ser um agricultor familiar e defensor da cultura indígena americana.

Hoje, na sua propriedade de cinco hectares localizada na comuna de Los Sauces, Sepúlveda produz, com a esposa, os filhos, um irmão e primos um azeite de oliva cuja qualidade foi destacada pelos especialistas em uma zona que nunca tinha pensado nesse produto.

“Como família, nos chamaram muito a atenção”, relembra, “as oliveiras do norte do Chile, e há cerca de seis anos decidimos começar a cultivá-las aqui, para fazer o azeite de oliva mais austral do mundo, que atualmente já é orgulho do povo mapuche. Daqui para o sul, não existem mais oliveirais. Para nós as oliveiras significam a paz e a harmonia, primeiro entre nós mesmos e depois com os outros. Eu estou convencido de que a raça não deve nos dividir, porque todos somos seres humanos”, diz Sepúlveda.

Política Nacional Chilena de Desenvolvimento Rural

O seu projeto ainda é pequeno, mas já rende frutos, apesar da crise hídrica que o país atravessa e tem impactado os níveis dos cursos de água de Araucanía, criando obstáculos à atividade agrícola.

Hoje, esse agricultor tem cerca de 500 plantas de oliveiras, faz o trabalho de moagem e prensagen para obter o azeite e sonha em produzir com qualidade cada vez maior para competir no mercado com os grandes produtores do norte do país, que com contam com centenas de hectares.

Mas a paixão de Sepúlveda não termina no azeite de oliva. Além de colher trigo e aveia, tem uma horta em que cultiva morangos, cria porcos e aves e, como se ainda fosse pouco, tem abelhas para a produção de mel.

Tudo isso ele conseguiu graças ao grande interesse em se capacitar, tendo participado com a família de uma iniciativa piloto da Política Nacional Chilena de Desenvolvimento Rural, lançada para promover a associatividade e a chegada de investimentos para a atividade produtiva à Região de Araucanía. Trata-se de um projeto do Ministério da Agricultura do Chile, desenhado para melhorar as condições de vida das comunidades rurais.

Emilio, além disso, valoriza muito o apoio técnico do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário (INDAP) do Chile e do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), que lhe permitiram ter o seu azeite de oliva acabado como produto e pronto para a venda.

Quando perguntado sobre seus projetos, Emilio se entusiasma e responde que gostaria de exportar, porque modernizou o seu trabalho e se sente capacitado para chegar com o seu azeite de oliva aos mercados internacionais mais exigentes. No entanto, tem consciência de que o mais importante não é ter um cliente em algum lugar longe do planeta, mas preparar um legado de paixão pelo trabalho rural.

“Meu sonho”, afirma, “é deixar oliveiras para as futuras gerações. Sempre estamos pensando no futuro, porque algum dia nós iremos, mas temos que ensinar os nossos filhos. Meu sonho é deixar sabedoria para eles; não quero deixar-lhes dinheiro, porque se lhes deixo dinheiro irão brigar entre si. Prefiro que tenham inteligência e instrução para lidar bem com as novas tecnologias e para que o futuro seja deles. Se lhes deixarmos educação, não precisarão ir para as cidades, ficarão no campo. E o que queremos é isto: que as nossas famílias e os nossos vizinhos possam viver cada dia melhor onde nascemos, que cuidem da terra e valorizem o povo mapuche”.

Uma história de superação

Emilio aprendeu o trabalho rural quando era criança, ao lado da avó, que era agricultora e sustentava o dia a dia da sua família cultivando vegetais na horta e criando carneiros. Nenhum dos seus avós teve educação formal, mas levaram uma vida marcada por sacrifícios, da mesma forma que a sua mãe.

“Nasci no campo”, afirma ele, “e continuo vivendo no campo. Sou filho de mãe solteira e sofri muito quando pequeno. Vivíamos em uma casinha de barro e dormíamos sobre sacos cheios de palha. Felizmente e graças a Deus eu pude sair da pobreza. Primeiro trabalhei cortando lenha, arando com os animais, fazendo carvão ou cavando poços para os vizinhos. Depois, aprendi a construir casas e a fazer trabalhos de eletricidade e mecânica. Aqui no campo, temos que fazer de tudo e aprendi tudo olhando. Muitos camponeses da minha zona migraram para as cidades, em busca de uma vida menos sacrificada, mas eu não troco a que tenho por nada: trabalhar no campo é a coisa mais bonita que existe. Aqui somos fortes para aguentar o frio ou o calor. A minha vida está aqui”.

Emilio tem duas filhas e um filho, aos quais deu sempre os mesmos conselhos: o camponês deve cultivar o esforço e a perseverança; jamais deve render-se. Nunca lhes disse que as coisas no campo são fáceis, porque o trabalho rural não permite os dias de descanso que costuma haver na cidade. “É preciso alimentar as aves, os porcos e o resto dos animais todos os dias”, diz esse agricultor mapuche, que não se cansa de repetir qual é, para ele, o único segredo da vida rural: dormir tarde e levantar-se cedo todos os dias.

Do IICA

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

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