O produtor rural não é bandido, diz presidente interino da Aprosoja Brasil

José Eduardo da Fonseca Sismeiro, presidente interino da Aprosoja Brasil – Foto: Aprosoja Brasil/Divulgação

João Carlos Rodrigues//Da redação AGROemDIA

O produtor rural não é bandido, avisa o sojicultor paranaense José Eduardo da Fonseca Sismeiro. A frase, dita com um leve sorriso, mostra a sua preocupação em melhorar a imagem do agricultor entre a população urbana. Empossado na última quarta-feira (1º) como presidente interino da Aprosoja Brasil, em substituição a Antonio Galvan, pré-candidato ao Senado pelo Mato Grosso, Sismeiro manterá a luta pela agenda prioritária da entidade, mas trouxe uma nova frente de ação: a de tentar aproximar mais os produtores da sociedade.

Para ele, a aproximação com o público urbano não requer nenhuma ação de comunicação arrojada na mídia, mas um comportamento mais proativo dos próprios produtores no seu relacionamento com a imprensa e nas mídias sociais.  “Temos que ter pessoas que queiram realmente comunicar [a realidade do setor]”, enfatiza Sismeiro, produtor de soja, milho e trigo nos municípios de Goioerê, Juranda e Manoel Ribas e formado em Odontologia pela Unimar, de Marília (SP), em 1989.

Na atividade agrícola desde 2002, ele participou da criação da Aprosoja Paraná em 2013, na qual exerceu a presidência por dois mandatos. Na Aprosoja Brasil, é o atual o vice-presidente imediato, o que o levou ao comando da entidade enquanto Galvan está envolvido com as eleições de 2022. Neste período, quer contribuir para melhorar a imagem do produtor: “É difícil fazer uma coisa tão nobre, como produzir alimentos, e ser tachado como bandido. É ruim para gente”.

Num momento de crise como o atual, com a inflação passando de 12% no acumulado dos últimos 12 meses e a carestia dos alimentos, em consequência da pandemia de covid-19, da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e da política econômica do governo Bolsonaro, o presidente interino da Aprosoja Brasil considera essencial esclarecer a população sobre a situação enfrentada pelos produtores rurais, que convivem com a disparada dos custos de produção, além de eventuais problemas climáticos.

O fertilizante que eu paguei R$ 1.870,00 para plantar a safra de soja 2020, vou pagar perto de R$ 7 mil para plantar a de 2023”

“O que chega à sociedade – e não é de hoje e não ocorre só no Brasil, é uma coisa mundial – não é inteiramente a verdade. Sou consumidor, vou no supermercado e vejo o quanto subiu [o alimento], mas sei por que subiu”, diz. “Por exemplo: o fertilizante que eu paguei R$ 1.870,00 [t] para plantar a safra de soja 2020, vou pagar perto de R$ 7 mil para plantar a de 2023. Em 30 de março, paguei pelo balde de 20 litros de glifosato R$ 383,00 e vou pagar R$ 2 mil na próxima safra.”

Há quatro anos, relata Sismeiro, o produtor plantava um alqueiro de soja com R$ 5 mil, R$ 5,5 mil.  “Hoje, ele precisa de R$ 20 mil”, pontua, acrescentando que problemas climáticos se somaram à alta dos insumos nos últimos anos. “No Paraná, perdemos mais de 50% da safra”, afirma, defendendo a necessidade de levar tais informações à população urbana, porque impactam no preço final dos alimentos. “As redes sociais têm ajudado, mas é um trabalho formiguinha.”

Além de uma melhor comunicação entre os produtores e a sociedade, Sismeiro está preocupado com o julgamento, no Supremo Tribunal Federal (STF), do marco temporal na demarcação das terras indígenas. Na ação, o STF analisa se os indígenas podem reivindicar a demarcação das terras ocupadas antes da promulgação da Constituição, em 1988. O julgamento deve ser retomado no dia 23 deste mês.

“Esse problema nos preocupa muito.  Se o STF julgar improcedente o marco temporal, teremos um problema muito grande. Vamos dizer assim: o Rio de Janeiro vai desaparecer, porque vai ser todo do índio. Tudo era do índio. Como é que nós vamos fazer? Então, a gente tem que ter um pouco de discernimento nisso.”

O grão que não nos pagam é melhor que o grão que visualmente é mais bonito”

Outro tema cuja discussão precisa avançar, pontua Sismeiro, é o da classificação de grãos. “Já estivemos no Ministério da Agricultura tratando disso. A Aprosoja Mato Grosso fez um trabalho muito bom, com cientistas, com professores renomados. A conclusão é que o grão que não nos pagam é melhor que o grão que visualmente é mais bonito.” A associação defende a revisão dos critérios de classificação. “Vamos lutar pelo produtor.”

A mobilização, reforça Sismeiro, passa por levar mais informações sobre a agricultura à sociedade. “Temos agora um novo dado da Embrapa: mais de 33% das nossas florestas estão em propriedades rurais. É um patrimônio que o produtor rural cuida para o mundo. A gente comprou, pagou e não pode usá-lo para beneficiar o mundo? São coisas assim que precisamos levar à população urbana, porque só chega para ela coisas negativas a nosso respeito.”

O presidente interino da Aprosoja Brasil esclarece, entretanto, que a legislação ambiental precisa ser respeitada. “Se é legal, tem que ser cumprida. Não defendo desmatamento ilegal. Se é crime, tem que ser tratado como tal. Agora, se eu comprar uma fazenda de mil hectares na Amazônia, posso desmatar 200 hectares pela lei.”

O produtor paranaense lembra também que o Brasil tem uma das legislações mais rigorosas do mundo sobre a proteção de florestas, o Código Florestal Brasileiro, que esta semana completou 10 anos. Por isso, sublinha, é inaceitável que países com reservas florestais de 10%, 12% dos seus territórios queiram impor regras ao Brasil, que preserva 66% de sua área.

 

AGROemDIA

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