Gil Reis: “Agricultura orgânica, nicho de mercado impulsionado pelo modismo”

Gil Reis*

Hoje virou modismo a agricultura orgânica. Nos tempos atuais, o mundo está impregnado por ativistas que pregam que todo o desenvolvimento humano e evolução não fazem bem à humanidade. A ideia é implantar o novo: novos tempos, nova ordem etc. A pregação é de que todas as conquistas da humanidade foram maléficas e que precisamos nos redimir dos erros do passado para que os seres humanos não sejam extintos. Já está sendo implantada, de todas as formas, na consciência de todos, a ideia de que a humanidade é um vírus destruidor do planeta.

Há total desprezo e desconhecimento da nossa história. Todos estão sendo contaminados por uma espécie de ‘Mal de Alzheimer Universal’. A lembrança do salto evolutivo ocorrido no século passado que superou toda a evolução dos 10 mil anos anteriores está sendo apagada na memória humana. A implantação dos famigerados ‘novos tempos’ necessita que a humanidade retroaja e volte a viver da forma que se vivia no período anterior ao século XVIII. A volta ao passado envolverá a perda de milhões de vidas e é tratada como mero efeito colateral com a justificativa de salvar o planeta.

O processo de mudança que está sendo proposto envolve centenas de bilhões de dólares ou euros e provocará o enriquecimento ilícito de alguns poucos países e o empobrecimento de todos os outros. Tudo que envolva produtos químicos deve ser banido, shampoos, medicamentos, defensivos etc.  Com certeza brevemente deverá ser indicado para substituir o uso de desodorantes um bom banho com leite de cabra.

A lembrança do salto evolutivo ocorrido no século passado que superou toda a evolução dos 10 mil anos anteriores está sendo apagada na memória humana”

Mas voltemos a agricultura orgânica, no último 24 de maio foi publicado, no site ‘Mail Online’, artigo de Tom Leonardo, com uma manchete quilométrica: “Como a primeira nação agrícola totalmente orgânica do mundo levou à fome, tumultos e ruína econômica no Sri Lanka… As consequências foram nada menos que catastróficas”. Transcrevo alguns trechos:

“Desde as lojas de produtos de origem ética de Islington até os acres livres de produtos químicos da fazenda Highgrove do Príncipe de Gales, quase dava para ouvir a torcida há três anos, quando o futuro presidente do Sri Lanka prometeu uma revolução. Não estaria nas ruas, mas nos campos — como Gotabaya Rajapaksa prometeu em sua bem-sucedida campanha eleitoral de 2019 para transformar o país na primeira nação agrícola totalmente orgânica do mundo.

Papagaiando as reivindicações feitas durante anos pelo príncipe Charles e outros defensores da “agricultura sustentável”, o político citou razões sanitárias e ambientais para essa medida drástica — em particular brandindo alegações não comprovadas de uma ligação entre fertilizantes químicos e a alta taxa de doença renal crônica do Sri Lanka.

A perda de receita do chá e de outras culturas de exportação superou, em muito qualquer, economia por não importar mais fertilizantes. Em uma humilhação final, o Sri Lanka – um país até recentemente autossuficiente em arroz – teve que gastar US$ 450 milhões importando grandes quantidades dele, que o governo então teve que subsidiar. Em outubro do ano passado, ele estava desesperadamente pedalando, relaxando a proibição de fertilizantes para culturas de exportação cruciais, incluindo chá, borracha e coco. Essa humilhante reviravolta não impediu o presidente Rajapaksa de se gabar de suas credenciais orgânicas um mês depois na Cúpula das Mudanças Climáticas da ONU em Glasgow.

A descida veio tarde demais para evitar o colapso econômico. A inflação anual dos preços dos alimentos está atualmente em 50%, com vegetais como cenoura e tomate até cinco vezes mais caros do que no ano passado.

O Sri Lanka, que deve US$ 51 bilhões a credores internacionais, na semana passada inadimplente em suas dívidas pela primeira vez desde que ganhou independência da Grã-Bretanha em 1948. O país foi paralisado por greves e confrontos violentos entre partidários do Rajapaksa e opositores nos quais pessoas morreram. Um museu dedicado à família governante foi incendiado: o sonho orgânico literalmente subiu na fumaça.

O príncipe Charles foi amplamente ridicularizado pelos agricultores quando transformou sua fazenda de 1.000 acres em Highgrove, em Gloucestershire, para se tornar completamente orgânico em 1985. Ele disse: ‘Na agricultura, como na jardinagem, eu acredito que se você tratar a terra com amor e respeito… então ele vai recompensá-lo em espécie. Esse pensamento pode ser bom em uma fazenda de jardim doméstico ou hobby, mas não na agricultura internacional, segundo especialistas.

Quase toda a agricultura orgânica, eles observam, serve apenas as pessoas mais ricas e muito pobres do mundo. Embora estes últimos sejam forçados a fazê-lo por necessidade, já que eles não podem pagar fertilizantes químicos e pesticidas, para o primeiro é uma escolha de estilo de vida caro. Como ilustra o sucesso da gama de produtos orgânicos do Príncipe Charles (Waitrose Duchy Organic), não há escassez de clientes britânicos dispostos a pagar um prêmio por esse importante rótulo orgânico. Os céticos se perguntam por que, citando testes que mostram que alimentos orgânicos não têm gosto melhor nem são mais nutricionais (embora o lobby orgânico insista que contém níveis mais altos de vitamina C e Ômega 3 no leite). Também não, acrescentam os críticos, há qualquer evidência conclusiva dos efeitos na saúde dos pesticidas.

E a agricultura orgânica nem sempre é mais verde, principalmente porque a menor produção de culturas que oferece significa que muito mais terra tem que ser cultivada — terra que poderia ser usada para cultivar árvores e reduzir as emissões de carbono. Também depende fortemente de campos de plantio que podem acelerar a exaustão do solo. À medida que o Sri Lanka desce ao caos e seus líderes correm para se esconder, os defensores presunçosos da agricultura sustentável devem compartilhar a culpa – para convencê-los de que seu sonho iludido era mesmo possível.”

A proibição da agricultura tradicional e a implantação da agricultura orgânica ‘à ferro e fogo’ sempre levará ao desastre”

A proibição da agricultura tradicional e a implantação da agricultura orgânica ‘à ferro e fogo’ sempre levará ao desastre. Ao agricultor cabe a decisão da escolha do tipo de agricultura que usará para produzir os alimentos que servirão para o consumo de sua família e para comercializar. Há casos de clientes que preferem os chamados produtos orgânicos. Ninguém deve se iludir com a campanha deslanchada por ambientalistas que nunca plantaram um pé de couve ou um tomateiro. Aliás, muito jamais pisaram descalços na terra nua ou deram uma topada em uma pedra com o consequente berro de palavrões para, em seguida, chorar copiosamente por ter perdido sua plantação infestada por pragas que seriam facilmente controladas com o uso de defensivos.

É muito fácil promover campanhas contra os defensivos agrícolas e promover a agricultura orgânica com um copo de whisky escocês nas mãos, sentado em uma confortável poltrona de seu apartamento em qualquer uma das famosas avenidas deste grande país. Fica aqui um convite aos palpiteiros e inimigos do agro para vir visitar uma lavoura e acompanhar a luta de sol a sol dos produtores rurais.

Naturalmente, este artigo não tem a pretensão de negar ou demonizar a agricultura orgânica. Afinal, trata-se de um nicho de mercado para algumas pessoas de maior poder aquisitivo que encaram os seus produtos como ‘iguarias’ e vaidosamente citam que se alimentam dos mesmos. A maior parte da população mundial ainda está distante desses alimentos e é alimentada pela agricultura convencional, responsável pelas safras exuberantes que atendem o nosso mercado interno e cerca de 200 mercados mundo afora.

*Consultor em Agronegócio

 

 

 

 

 

 

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