Brasil tem número recorde de pessoas passando fome; mulheres sofrem mais

Pela primeira vez, o Brasil supera a média mundial de insegurança alimentar, com aumento quatro vezes maior que a elevação ocorrida no planeta, entre 2019 e 2021. É o que mostra pesquisa do FGV Social, da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada nesta quinta-feira (2). “A parcela de brasileiros que não teve dinheiro para alimentar a si ou a sua família, em algum momento nos últimos 12 meses, subiu de 30% em 2019 para 36% em 2021, atingindo novo recorde da série iniciada em 2006”, informa o levantamento.

De acordo com o economista Marcelo Neri, líder da pesquisa, os principais resultados são o forte aumento da insegurança alimentar durante a pandemia no Brasil e o processo de feminização da fome. Ou seja, um maior número de mulheres está passando fome durante o governo do presidente Bolsonaro.

Leia, abaixo, a íntegra da nota da pesquisa do FGV Social:

O Brasil ocupa lugar de destaque no tema insegurança alimentar, pelo contraste entre a alta produção agrícola com as dificuldades que os brasileiros têm de lidar com falta de comida. Nesse contexto, o FGV Social realizou um mapeamento dos dados sobre o assunto e o acompanhamento das mudanças no período da pandemia.

Segundo Marcelo Neri, líder da pesquisa, os principais resultados são o forte aumento da insegurança alimentar durante a pandemia no Brasil e o processo de feminização da fome. “É a primeira vez que o Brasil ultrapassa a média mundial e o aumento foi quatro vezes maior a elevação ocorrida no mundo, entre 2019 e 2021”, revela Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Os dados foram analisados e processados a partir do Gallup World Poll. Esta base permite comparabilidade entre 160 países, em bases anuais desde 2006, possibilitando medir diferenças de prazo mais longo de insegurança alimentar entre o Brasil e o mundo, assim como de seus determinantes próximos como renda, escolaridade, gênero e idade.

Fome na pandemia

A parcela de brasileiros que não teve dinheiro para alimentar a si ou a sua família em algum momento nos últimos 12 meses subiu de 30% em 2019 para 36% em 2021, atingindo novo recorde da série iniciada em 2006. É a primeira vez desde então que a insegurança alimentar brasileira supera a média simples mundial.

Mais importante, comparando a média simples dos mesmos 120 países com o Brasil, antes e durante a pandemia, a insegurança alimentar subiu 4,48 pontos percentuais mais no país, que no conjunto de países (aumento percentual quatro vezes maior no Brasil), sugerindo ineficácia relativa de ações nacionais.

“Ao olhar para as causas desse aumento, percebe-se a forte ligação com a pobreza. De acordo com a pesquisa, existe o processo de pauperização da fome, ¾ dos pobres hoje estão ou estiveram em insegurança alimentar em 12 meses”, ressaltou Neri.

Pobreza

O aumento da insegurança alimentar entre os 20% mais pobres no Brasil durante a pandemia foi de 22 pontos percentuais, saindo de 53% em 2019 chegando a 75% em 2021. Já os 20% mais ricos, experimentaram queda de insegurança alimentar de três pontos percentuais (indo de 10% para 7%).

Ao olhar para as causas desse aumento, percebe-se a forte ligação com a pobreza” – Marcelo Neri, economista e líder da pesquisa do FGV Social

Feminização da fome

Observa-se uma diferenciação entre gêneros nesse quesito, visto que durante a pandemia os homens ficam relativamente estáveis na insegurança alimentar e entre as mulheres subiu de 33% para 47%. Como resultado, a diferença entre gêneros da insegurança alimentar em 2021 é 6 vezes maior no Brasil do que na média global.

Vale ressaltar que ela já era mais alta no Brasil, pelos impactos nas mulheres e nas crianças, cuja tendência de proximidade com os filhos é maior, principalmente no Brasil. Isso gera consequências para o futuro do país, uma vez que subnutrição infantil deixa marcas permanentes físicas e mentais para toda vida.

Países

O ranking dos 10 países com mais insegurança alimentar em 2021 é liderado por países africanos próximo aos brasileiros pobres. A menor insegurança alimentar é na Suécia (5%), não muito distante da observada para os 20% mais ricos brasileiros (7%).

Comparando pessoas iguais ao longo do tempo, a partir de modelos econométricos estimados sobre quase 20 milhões de entrevistas, as chances de insegurança alimentar sobem 63,5% no mundo entre 2006 e 2018. Por outro lado, na comparação 109 países apresentam segurança alimentar maior que a brasileira, 48 países apresentam insegurança alimentar menor que a brasileira e 8 países apresentaram igualdade estatística com os níveis brasileiros. O Brasil se encontrava antes da pandemia abaixo da norma internacional dado seu nível de renda. Este quadro mudou com a pandemia.

Clique aqui para acessar a pesquisa completa.

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