Gil Reis: Sempre a agropecuária

Gil Reis*
Certo amigo meu normalmente me zoa quando escrevo em alguns artigos “os corredores tenebrosos da ONU”. Para um melhor entendimento creio que vale a pena conhecer o significado de tenebroso do dicionário Michaelis, ou seja, é aquilo que “provoca ou espalha horror; assustador, terrível. Difícil de compreender; obscuro”. Para os integrantes do mundo rural os tais corredores são inegavelmente tenebrosos, porque grande parte das campanhas contra a agropecuária se origina neles.
As campanhas contra a agropecuária são tenebrosas na medida que servem de base para certas providências da intitulada ‘mitigação’ dos gases de efeito estufa, que, em vez de promover a elevação da produção de alimentos em um mundo tão carente com aumento populacional cada vez mais acelerado, simplesmente sabotam os produtores e suas produções. Caso prosperem tais ações de mitigação, fruto de mentes tortuosas que nada entendem de agropecuária e estão se ‘lixando’ para as consequências, assistiremos à morte de milhões de pessoas no mundo inteiro, vitimadas pela fome.
A frase ‘as acusações contra a indústria pecuária (carne) são políticas misantrópicas das Nações Unidas’ não é de minha autoria, mas de Kip Hansen em artigo publicado no site Watts com isso?, sob o título “O vórtice de carne equivocado”, em 26 de maio deste ano. No texto, ele ‘desmonta’ a argumentação do ensaio ‘The Coming Meat Vortex’, de Alex Smith, analista de Alimentos e Agricultura da Breakthrough, repercutido pelo Breakthrough Institute. Transcrevo alguns trechos:
“A agricultura é responsável por aproximadamente 10% das emissões de gases de efeito estufa dos EUA e até 25% das emissões globais. OK, isso é vagamente correto – mas não é preciso de forma alguma. Esses tipos de pontos de discussão sempre incluem coisas como as emissões da produção do aço que fabrica os tratores – ad infinitum. Observe que a afirmação não se limita à pecuária – mas à agricultura como um todo. Alimentar os 8 bilhões de humanos no planeta não é apenas um negócio sério, mas uma necessidade existencial. Devemos fazê-lo ou morrer. É apenas interessante que essa ampla atividade absolutamente necessária produza qualquer porcentagem de emissões de CO2 – as próprias emissões sendo apenas discutivelmente importantes.
A carne é responsável por grave poluição da água e do ar. Esta é simplesmente uma afirmação sem suporte – outro ponto de discussão anti-carne. Geralmente, a produção de carne não produz ‘poluição do ar’ a menos que estejamos falando da questão do metano – que não é um poluente – é um produto natural de muitas formas de vida e um produto natural do processo de decomposição biológica.
As más práticas de produção pecuária podem levar à poluição da água – assim como qualquer tipo de atividade humana em escala industrial mal planejada e executada ou até mesmo atividades individuais, incluindo piqueniques. Se houver uma operação pecuária produzindo poluição da água, as leis e regulamentações estaduais e federais antipoluição devem ser aplicadas para eliminar o problema.
A carne é responsável pela perda de biodiversidade. Tanto quanto posso dizer, isso é inteiramente inventado – entre aquela classe especial de fatos científicos que são tantas vezes repetidos, mas nunca têm nenhuma ciência real por trás deles. Pode haver perdas de biodiversidade em algumas áreas do mundo – inevitáveis à medida que as populações humanas crescem e ocupam mais espaço, tanto para viver quanto para se sustentar. E, ao longo da história, quando as sociedades humanas expandiram seus territórios para novas áreas – trazendo consigo a agricultura e a pecuária – isso danificou e mudou os habitats, diminuindo a biodiversidade.
Pense em enormes áreas do Oriente Médio e da Grécia cujas encostas foram desnudadas por ovelhas e cabras soltas. Mas no mundo moderno este não é um problema universal ou generalizado, e tem muito mais a ver com a mudança geral do uso da terra do que com a produção de carne.
De onde vêm essas ideias quase sempre falsas? Vou dar aos leitores um palpite…Você acertou na primeira tentativa! Sim, são as Nações Unidas! O discurso de Smith sobre os horrores da produção de carne vem diretamente de um relatório de 2006 do livreto da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO): ‘LIVESTOCK’S LONG SHADOW — questões ambientais e opções’. Veja se você reconhece a introdução de Smith nesta citação:
O setor pecuário surge como um dos dois ou três maiores contribuintes para os problemas ambientais mais sérios, em todas as escalas, do local ao global. As conclusões deste relatório sugerem que deve ser um foco importante de política ao lidar com problemas de degradação da terra, mudanças climáticas e poluição do ar, escassez de água e poluição da água e perda de biodiversidade.
As acusações contra a indústria pecuária (carne) são políticas misantrópicas das Nações Unidas envoltas em mudanças climáticas e bobagens ambientalistas. Smith apenas os repete sem a aplicação de habilidades de pensamento crítico. Eu não digo isso de ânimo leve. Leia o relatório da FAO – não há ciência real nele, apenas opiniões baseadas na ideia ilógica de que uma má prática encontrada em um lugar ao mesmo tempo justifica difamar e, se possível, eliminar toda uma indústria existencialmente necessária.”
Com toda a argumentação exposta por Kip Hansen, creio ser absolutamente desnecessário que me aprofunde mais no tema. Seria ‘chover no molhado’. Resta apenas seguir o conselho de Mark Twain, considerado o pai da literatura norte-americana – “Não devemos prestar reverência a Satanás, pois isto seria imprudente, mas podemos, pelo menos, respeitar seus talentos”.
*Consultor em Agronegócio

