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União Europeia reprime moda

 Gil Reis*

Os ambientivistas paridos do útero da Europa não se limitam a atacar vizinhos e não vizinhos. Eles também têm voltado sua sanha contra a própria mãe, e a cada dia escolhem um setor novo para atacar. Agora resolveram atacar o setor de moda, atirando contra as fábricas de roupas. Realmente não estão satisfeitos com a atual civilização; o nosso modo de nos vestirmos os está incomodando profundamente. O ranço dos ambientivistas ultrapassa a mera preocupação com o planeta, com o meio ambiente e as alterações climáticas, a existência dos seres humanos, bem vestidos ou mal vestidos os ofende.

Para que os leitores possam entender melhor a sanha dos ambientivistas contra os seres humanos e o atual momento civilizatório transcrevo trechos da matéria “Empresas de fast fashion preparam-se para a repressão da UE às montanhas de resíduos”, publicada no dia 1º de setembro deste ano pela Agência Reuters e assinada por Corina Pons, repórter de negócios baseada em Madri focada na cobertura de varejo, e Helen Reid, repórter baseada em Londres que cobre o sector retalhista europeu através de uma perspectiva global.

“UE obrigará as empresas a lidar com milhões de toneladas de resíduos. Em um armazém nos arredores de Barcelona, ​​mulheres estão diante de esteiras rolantes, separando manualmente camisetas, jeans e vestidos de grandes fardos de roupas usadas – um pequeno passo para enfrentar o enorme problema europeu de moda descartada. Dentro de um ano, o centro de triagem administrado pela instituição de caridade de reutilização e reciclagem de roupas Moda Re planeja dobrar o volume que movimenta para 40 mil toneladas métricas anualmente. ‘Isto é apenas o começo’, disse Albert Alberich, diretor da Moda Re, que faz parte da instituição de caridade espanhola Caritas e administra a maior rede de roupas usadas da Espanha.

Parcialmente financiada pela Inditex (ITX.MC), proprietária da Zara, a Moda Re expandirá unidades em Barcelona, ​​Bilbao e Valência, em alguns dos primeiros sinais de um aumento planejado na capacidade de triagem, processamento e reciclagem de roupas em resposta a uma enxurrada de novas propostas da União Europeia para conter a indústria da moda. Também em Espanha, rivais como a H&M, a Mango e a Inditex criaram uma associação sem fins lucrativos para gerir resíduos de vestuário, em resposta a uma lei da UE que exige que os Estados-membros separem os têxteis de outros resíduos a partir de Janeiro de 2025.

Apesar destes esforços, menos de um quarto dos 5,2 milhões de toneladas de resíduos de vestuário da Europa são reciclados e milhões de toneladas acabam todos os anos em aterros, afirmou a Comissão Europeia em Julho. Os dados precisos sobre o crescimento dos resíduos de vestuário são escassos, mas a recolha para reciclagem e reutilização aumentou gradualmente em vários países europeus desde cerca de 2010, afirmou um relatório da UE de 2021. A fast fashion, ou seja, fabricar e vender roupas baratas com vida útil curta, é ‘altamente insustentável’, afirmou a Comissão em julho. A indústria têxtil é um dos principais contribuintes para as alterações climáticas e os danos ambientais, observou. A Inditex, que em Março afirmou ter colocado 10% mais peças de vestuário no mercado global no ano passado do que em 2021, pretende utilizar 40% de fibras recicladas em peças de vestuário até 2030 como parte dos objetivos de sustentabilidade anunciados em Julho.

Serão necessários entre 6 e 7 mil milhões de euros de investimento até 2030 para criar a escala de processamento e reciclagem de resíduos têxteis que a UE pretende, estimou a consultora McKinsey num relatório do ano passado. A Reuters não conseguiu estabelecer qual o nível de investimentos que estavam sendo feitos atualmente na indústria. A Inditex disse que investirá 3,5 milhões de euros na Moda Re ao longo de três anos e terá contentores de reciclagem em todas as suas lojas espanholas. Não respondeu a um pedido de comentário sobre a sugestão de que precisava fazer mais.

Serão necessárias centenas de fábricas semelhantes, juntamente com investimentos em tecnologia e intervenções no mercado, para cumprir as metas da indústria de reciclar 2,5 milhões de toneladas de resíduos têxteis até 2030, afirmou a McKinsey no relatório. Catorze empresas de reciclagem de têxteis na Europa têm planos para aumentar a sua capacidade de produção, de acordo com a Fashion For Good, uma empresa de investimento start-up em fibra reciclada que entrevistou 57 recicladores num relatório de setembro de 2022. A UE não estabeleceu metas específicas para o conteúdo reciclado no vestuário, mas até 2030 pretende que todos os produtos têxteis vendidos no bloco ‘em grande parte’ sejam feitos de fibras recicladas, além de serem duráveis, reparáveis ​​e recicláveis.

Para criar a capacidade para cumprir os objetivos, a ReHubs Europe, uma associação criada pelo grupo de lobby do vestuário EURATEX, promove investimentos na reciclagem ‘fibra em fibra’: processos que transformam peças de vestuário usadas em fios para fabricar novos têxteis. Na fábrica de Barcelona, ​​as roupas chegam de mais de 7.000 caixas de doações em supermercados e lojas Zara e Mango. Máquinas infravermelhas doadas pela Inditex identificam a composição das fibras das roupas para acelerar a classificação, em grande parte manual.

Atualmente, cerca de 40% das roupas que a Moda Re recebe são encaminhadas para outras instalações para reciclagem. Desse total, apenas um quinto é reciclado fibra a fibra, uma parcela que a Moda Re espera que cresça para 70% nos próximos três a quatro anos. Por enquanto, a maior parte da reciclagem é destinada a produtos de qualidade inferior, como panos de cozinha. Quase metade das roupas doadas à Moda Re são enviadas para revenda em países africanos, incluindo Camarões, Gana e Senegal. A Moda Re afirma que as roupas que exporta podem ser reaproveitadas. ‘É um tsunami de legislação’, disse Mauro Scalia, diretor de negócios sustentáveis ​​da EURATEX”.

O leitor, analisando atentamente a reportagem assinado pelas repórteres Corina Pons e Helen Reid, vai poder perceber que os ambientivistas não estão interessados em atingir apenas a indústria da moda. Há, sim, nas exigências da Comissão Europeia, maquinadas por eles, a intenção de atingir, por tabela, os mais pobres. Afinal, com o custo adicionado para a fabricação, os preços se elevarão, tornando as melhores roupas inacessíveis às pessoas de menor poder aquisitivo. Paralelamente, ainda por tabela, atingirão os pequenos produtores rurais que fornecem fibras para a indústria têxtil. Não vou me alongar listando todos os setores atingidos.

“Acontecimentos futuros projetam antes suas sombras” – Thomas Campbell (1777-1844), poeta escocês lembrado principalmente por sua poesia sentimental em lidar especialmente com assuntos humanos. Foi um dos iniciadores de um plano para fundar o que se tornou a Universidade de Londres.

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

 

 

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