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Alimentos inovadores

Gil Reis*

“O planeta tem 510 milhões de quilômetros, dos quais 71% são ocupados pelas águas e os demais por montanhas, pantanais e vulcões. O pouco que resta é ocupado por floresta, animais silvestres e seres humanos. A Floresta Amazônica possui 5,5 milhões de quilômetros, ou seja, ocupa 1% do planeta”, diz Luís Carlos Molion, meteorologista, pesquisador e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas. A população humana em 40 mil anos chegou a 1 bilhão de habitantes e cresceu nos últimos 200 anos para 8 bilhões. Isso mostra a necessidade de um esforço conjunto para que haja alimentos para todos.

A orientação do Clube de Roma de redução populacional não é a solução. As alternativas para alimentar o crescimento populacional estão sendo estudadas e desenvolvidas, como demonstra artigo publicado pela CNN Brasil, em 14 de maio de 2023, sob o título “Seis inovações que podem ajudar a alimentar o mundo no futuro”, de Nick Presniakov e Mark Tuttonda. Transcrevo trechos:

“Quando se trata de alimentar o planeta, enfrentamos alguns desafios monumentais. A população global aumentou de 7 bilhões para 8 bilhões nos últimos 12 anos, e a Organização das Nações Unidas (ONU) projeta que atingirá cerca de 10,4 bilhões de pessoas na década de 2080. São muitas bocas extras para alimentar. Ao mesmo tempo, a crise climática significa que os alimentos se tornarão mais escassos e mais caros, de acordo com o painel de mudanças climáticas das Nações Unidas, enquanto algumas culturas perderão seu valor nutricional. Enfrentar o desafio pode exigir uma nova revolução agrícola. A CNN pediu a três especialistas que delineassem as inovações que podem ajudar a aumentar a produção de alimentos sem prejudicar o planeta.

Uma maneira de prolongar a vida útil do produto é cobri-lo com um revestimento comestível à base de plantas, diz Richard Munson, autor de ‘Tech to Table: 25 Innovators Reimagining Food’. Munson dá o exemplo da empresa norte-americana Apeel, que, segundo ele, criou ‘coberturas insípidas, inodoras, invisíveis e comestíveis — compostas de ácidos graxos e outros compostos orgânicos extraídos das cascas e da polpa dos produtos — que agem como uma barreira física para manter a água dentro e o oxigênio fora’. Ele diz que os revestimentos da Apeel podem dobrar o prazo de validade de abacates, laranjas e outros produtos. Pesquisadores na Índia também desenvolveram revestimentos comestíveis que, segundo eles, podem manter os alimentos frescos por mais tempo.

Para muitas partes do mundo, a mudança climática significa que a água está se tornando cada vez mais escassa, e isso representa um grande problema para os agricultores em regiões como o Oriente Médio, que depende da água do mar dessalinizada em muitos lugares. Globalmente, mais de 1 bilhão de hectares de terra — uma área maior que a China — já estão degradados pela salinidade, de acordo com Dr. Tarifa Alzaabi, diretor-geral do Centro Internacional para Agricultura Biosalina (ICBA), uma organização de pesquisa sem fins lucrativos com sede em Dubai.

O Centro Internacional de Agricultura Biosalina está pesquisando o potencial de culturas tolerantes ao sal, incluindo a quinoa / Showkat Rather/ICBA. Uma solução é cultivar produtos que prosperam em solo salgado. Ela diz que o ICBA identificou diversas variedades de tamareira tolerantes ao sal, e está cultivando com sucesso a Salicornia, uma planta comestível encontrada em muitas partes do mundo. Alzaabi o descreve como um ‘super-herói do deserto’ por sua capacidade de crescer na salmoura criada como subproduto do processo de dessalinização da água. Ela acrescenta que o ICBA também testou tecnologias como hidrogéis (géis que retêm água) e sistemas de irrigação subsuperficial, e descobriu que eles podem reduzir significativamente o uso de água pelos agricultores.

Em todo o mundo, os alimentos são cultivados em terras de todos os tamanhos e tipos, mas essa diversidade significa que os agricultores muitas vezes não levam em consideração a complexidade da paisagem e a variabilidade do solo, de acordo com Chandra A. Madramootoo, professor de Engenharia de Biorecursos da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Ele diz que uma solução é a agricultura de precisão, uma abordagem que ‘permite a seleção de culturas e aplicações de produtos químicos e água em zonas de terra e solo espacialmente semelhantes’.

Uma fonte tradicional de proteína em partes da África, Ásia e América do Sul, o cultivo de insetos para alimentação está se tornando mais popular em outros lugares. Em 2020, a Nestlé lançou a ração Purina Beyond Nature’s Protein, que inclui proteína de insetos, painço e favas.  A Insectta, com sede em Singapura, usa larvas de mosca soldado negro para converter resíduos de alimentos orgânicos em fertilizantes e ração animal. ‘As fazendas de criação de aves e peixes há muito dependem de produtos químicos […] e irrigação para cultivar milho e soja’, diz Munson. ‘Insetos, como os besouros da farinha, oferecem alternativas. Eles ocupam pouco espaço, vivem felizes quando amontoados, sobrevivem sem luz, reproduzem-se o ano todo, emitem poucos poluentes ou gases de efeito estufa e requerem pouca alimentação’.

‘A produção de alimentos está sendo realizada às custas da perda de biodiversidade’, diz Madramootoo. Uma razão, diz ele, é a falha em considerar a ‘multiplicidade de ecossistemas adjacentes’. ‘Os benefícios incluem a produção de proteína a partir de recursos marinhos, integração de zonas úmidas com sistemas de aquicultura e piscicultura, e o uso de sistemas florestais para produzir também alimentos’, diz Madramootoo e, ainda, que uma abordagem de paisagens inteiras também pode ser aplicada à produção de alimentos em áreas urbanas e periurbanas — espaços imediatamente ao redor de uma cidade. ‘Os telhados […] podem ser usados para cultivar alimentos. Podemos aproveitar a água cinza e energia desperdiçada das casas para cultivar alimentos em pequenos lotes, casas sombreadas ou túneis cobertos onde é provável que ocorra geada. Em áreas periurbanas congestionadas, podemos usar fazendas verticais em armazéns ou prédios abandonados, por exemplo, para produzir alimentos. Isso reduz a necessidade de água e insumos químicos de alto custo e reduz o fluxo de resíduos.”

Naturalmente as soluções propostas no artigo podem alimentar a crescente população humana pelos próximos 200 ou 300 anos, não é preciso açodamento. Precisamos, sim, de conscientização dos seres humanos para reduzir a procriação, sem que seja preciso seguir as orientação dos ambientalistas, impedindo e reduzindo a produção de alimentos para eliminação gradativa dos pobres pela fome. Talvez tenhamos que seguir a orientação de Stephen Hawking, o que já está sendo profundamente estudado pela comunidade científica especializada. Já se fala na exploração do planeta Marte após a sua ‘terraformação’, termo criado por autores da ficção científica.

“Não creio que a raça humana possa sobreviver aos próximos 1.000 anos, a menos que nos espalhemos pelo espaço” -Stephen Hawking (1942-2018), físico teórico, cosmólogo e autor britânico, reconhecido internacionalmente por sua contribuição à ciência, sendo como um dos mais renomados cientistas deste século.

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

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