Vacina contra ‘peidos de vaca’
Gil Reis*
Comecemos pelo começo: não existem ‘fakes news” (notícias falsas), notícias são notícias e falsidades são meras falsidade. Qualquer profissional de imprensa sabe que notícias são fatos e que quando não são testemunhados precisam ser investigados. O maior valor embutido no jornalismo é o respeito do profissional de imprensa por si mesmo, pelo veículo que utiliza e pelo leitor. Vivemos em uma época de guerras de narrativas, saímos de uma época em que as notícias eram fatos verdadeiros e hoje são opiniões daqueles que abandonaram o jornalismo.
O site “Climate REALISM” publicou, em 13 de fevereiro de 2025, a matéria “Desculpe, CNN, nenhuma vacina contra ‘peidos de vaca’ é necessária ou irá parar as mudanças climáticas”, assinada pela jornalista Linnea Lueken que transcrevo trechos.
“Um artigo recente da CNN, ‘Como uma vacina contra peido de vaca pode ajudar a enfrentar as mudanças climáticas’, discute uma vacina em desenvolvimento para ser dada às vacas para reduzir a quantidade de metano que seus processos digestivos produzem. A esperança é que a vacina reduza significativamente as emissões do gado, desacelerando assim as mudanças climáticas. Não vai. O metano do gado contribui pouco, se é que contribui, para o aquecimento global. Como resultado, tentar mudar os processos biológicos desses animais parece trazer riscos que excedem em muito quaisquer benefícios possíveis.
A CNN explica que o metano é produzido quando a grama fermenta no rúmen, e afirma que ele é mais ‘potente’ do que o dióxido de carbono, mas admite que ele tem uma vida relativamente curta na atmosfera. O autor, Jacapo Prisco, continua afirmando que ‘a pecuária é responsável por cerca de um terço das emissões de metano relacionadas aos humanos, que são coletivamente responsáveis por cerca de 30% do aquecimento global’.
Aqui, o autor da CNN ou não entende as alegações feitas sobre o metano ou está enganando os leitores intencionalmente. O autor cita a Agência Internacional de Energia (AIE) como a fonte de sua alegação sobre as emissões de metano da pecuária. A AIE diz que o metano é estimado como responsável por 30% do aquecimento global, um ponto que ela admite estar aberto a debate. O que ela não diz, no entanto, é que as emissões de metano da pecuária são responsáveis por 30% do aquecimento, que é o que a alegação de Prisco implica. As emissões da pecuária são apenas uma pequena parte das emissões de metano atribuíveis a causas humanas, muito menos as emissões globais de metano como um todo. Também é importante observar que as estimativas da AIE de emissões antropogênicas (causadas pelo homem) de metano são muito maiores do que a maioria das avaliações oficiais do governo calcula. Para ser claro, a AIE não é uma organização científica, mas sim uma instituição criada para avaliar os suprimentos globais de energia, estoques e necessidades futuras – nos últimos anos, ela se desviou de sua missão de se tornar uma defensora do ativismo e da legislação climática.
Dados da EPA mostram que a produção de carne bovina responde por apenas 2% de todas as emissões de gases de efeito estufa nos EUA, com apenas parte disso vindo do metano dos processos digestivos das vacas. Isso é notável, especialmente porque os Estados Unidos produzem mais carne bovina e de vitela do que qualquer outro país. A produção de safras agrícolas, em contraste, produz 10% de todas as emissões de gases de efeito estufa dos EUA. Não é irracional supor que o mesmo seja verdade para o resto do mundo.
Um artigo recente escrito pelos físicos William Happer, Ph.D., da Universidade de Princeton e WA van Wijngaarden, Ph.D., da Universidade York de Toronto, explica que, ao contrário das alegações, o metano é um superaquecedor na atmosfera, ‘a contribuição do metano para o aumento anual do forçamento é um décimo (30/300) do dióxido de carbono’. Com base nesse fato, os cientistas concluem que ‘propostas para impor restrições severas às emissões de metano devido a temores de aquecimento não são justificadas por fatos’.
Como o Realismo Climático discutiu em outras ocasiões, aqui, aqui e aqui, por exemplo, o metano tem uma capacidade limitada de contribuir significativamente para o aquecimento pelo fato de que muitas das faixas de absorção de energia afetadas pelo gás já estão cobertas por vapor de água, que constitui uma proporção enorme dos gases de efeito estufa na atmosfera. Como resultado, o metano é virtualmente inconsequente em relação ao aquecimento global. As concentrações atuais estão em torno de 1,9 partes por milhão (ppm). Para comparação, a atmosfera contém 18 ppm de Neon e 426 ppm de CO2.
A vacina discutida na história ainda não existe, ela está sendo pesquisada pelo Instituto Pirbright do Reino Unido e tem sido um esforço de mais de uma década de várias organizações de pesquisa, sem ‘resultados tangíveis até o momento’, relata a CNN. Efeitos colaterais para o animal já foram levantados como hipóteses, como ‘uma redução na quantidade de alimento que o rúmen pode absorver, o que significa que o gado pode precisar de mais comida, aumentando os custos para os fazendeiros’. Tornar o gado menos eficiente no processamento de alimentos em energia e massa é uma péssima ideia em um mundo onde a fome ainda é muito comum.
Parece que os processos digestivos do gado e o papel da produção de metano neles ainda são mal compreendidos. Considerando o fato de que a produção de metano é possivelmente uma etapa fundamental nos processos digestivos de animais do rúmen, incluindo gado como gado bovino, ovino e caprino, é essencial entender a importância do metano no processo digestivo antes de mexer com ele no esforço vão de mitigar as mudanças climáticas. Isso é especialmente verdadeiro considerando que o esforço para controlar as emissões do gado é uma solução em busca de um problema, sem benefício tangível para o mundo e consequências desconhecidas para os animais envolvidos.
A CNN engana os leitores ao exagerar a influência que as emissões de metano têm nas temperaturas globais, bem como a quantidade que a pecuária contribui. Dados mostram que a agricultura como um todo, e a produção pecuária mais particularmente, têm pouco ou nenhum impacto no clima global.”
A matéria demonstra o trabalho e investigação de uma jornalista séria como Linnea Lueken que exercendo sua obrigação profissional foi ‘destrinchar’ a informação descobrindo que a tese publicada era eivada de falsidades e não merecia ser denominada de notícia, é impressionante como maus profissionais de imprensa conseguem desvalorizar um veículo de comunicação outrora sério como a CNN. Vale lembrar a esses maus profissionais do jornalismo que que insistem em divulgar opiniões como notícias que em todo o veículo de comunicação sério possui espaço para opiniões. É preciso respeitar e proteger a casa que os acolheu.
“Teses são ‘propostas intelectuais’ emitidas por cientistas e quando não checadas por seus pares valem menos que o papel onde foram escritas, por favor não caiam na armadilha” – Anônimo.
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

