Barbas de molho
Tito Matos
Jornalista
A invasão da Venezuela pelo presidente Trump nos reporta à Doutrina Monroe, de 33 páginas, lançada em 1823 pelo então presidente James Monroe. Tornou-se um mantra para o imprevisível presidente dos EUA: “A América para os americanos.” Todas as Américas, todo o Hemisfério Ocidental. O resgate da Doutrina Monroe vai ao encontro do lema: Make América Great Again (Maga), — tornar a América grande novamente — que segmentos ideológicos espraiaram por aqui com os bonés na cabeça. No fundo, no fundo, Trump quer reviver os tempos da América Latina como quintal dos EUA, onde se acham muitas riquezas, petróleo e terras raras. Terras raras em amplo sentido. Neste contexto se insere as terras produtivas do agronegócio brasileiro. O continuado êxito deste setor assusta os nossos concorrentes, os EUA principalmente. Na colheita de muitos produtos já passamos deles. Hoje nossa safra de grãos passa de 350 milhões de toneladas. Não fosse o Tesouro de Washington, com altos subsídios, e mais as tarifas, a gente estava despejando nos portos americanos soja, carnes, algodão etc aos montes e a preços bem mais baixos. Somos hoje o maior exportador mundial de soja, açúcar, suco de laranja, carne, frango e café; o segundo maior em milho. E com viés de alta. Os ministros da Agricultura Francisco Turra, Pratini de Moraes, Roberto Rodrigues e Guedes Pinto, com os quais trabalhei, diziam com ênfase, em suas entrevistas e em suas palestras, que a agricultura brasileira não crescia sobre as nossas florestas. Crescia por causa de uma tecnologia tropical bastante avançada, tecnologia tropical, autóctone. E cresce em produtividade pela competência de quem sabe trabalhar a terra, com sustentabilidade. Vem daí a inveja e o despeito dos concorrentes. São deles o documento: Farms Here, Forest There. Ou seja, fazendas aqui, florestas lá. Dá para entender? Estaria a Amazônia ameaçada? Tudo isso sem considerar que temos uma legislação ambiental que é a mais rigorosa do mundo.
Não se admirem se em breve a ressurreição da Doutrina Monroe não alcançar também o agronegócio brasileiro, eis que os organizados, patrocinados, ativos e poderosos lobbies dos EUA virem com tudo em defesa da agropecuária americana, em detrimento da nossa. Faz sentido, não? Todo este furdúncio me faz lembrar do que dizia minha saudosa avó: “Quando vires a barba do teu vizinho queimar, põe a tua de molho.”
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

