Reflexões sobre o ano novo
Gil Reis*
Neste próximo dia 31 chega um novo ano, nos despedimos de um sofrido de 2025, alguns não tem coragem de afirmar, eu afirmo. Cabe a todos nós construirmos 2026 para que não seja um mero repeteco de 2025. Não devemos esperar nenhum milagre, pois estarmos vivos já é um milagre. Somos todos alimentados pela esperança que construiremos um futuro melhor, para nós e para todos. Uma andorinha só não faz verão. Escolhi hoje para os meus leitores as reflexões de Eugenio Mira em artigo publicado em 18/12/2020, sob o título “Feliz ano-novo e próspero Natal”, onde o autor procura traduzir a chegada de um novo ano. Transcrevo trechos:
“Enquanto um representa realmente união dos povos e renovação, o outro é mais uma grande fuzarca de gastos sem fim. E eu nem vou me prolongar no fato de que o nascimento de Jesus em 25 de dezembro é só uma amálgama de datas e feriados relacionados a coisas como o dia mais longo do ano. Aniversário de Apollo e décimo terceiro salário (se bem que acho que esse veio depois, né?)
Natal é legal, mas cansa né? E pior, o que supostamente deveria ser uma festa religiosa acaba deixando o objetivo principal da comemoração em terceiro plano. Além do que, é Brasil, né? Neve? Renas? A única vez que vi uma rena aqui no BR ela parecia estar mais incomodada do que motorista de Uber em carro sem ar condicionado na 25 de março em 24 de dezembro.
Toda a semiótica natalina não evoca nada muito tropical, então a gente fica meio que sempre com esse clima de decoração anacrônica. Seria tipo os estadunidenses comemorando a ação de graças com umas palmeiras e cocos verdes com guarda-chuvinhas de drink. E pra ficar claro, não quero dizer que existe algum problema com o Natal, mas, tenho meus motivos para celebrá-lo como uma preparação para o que realmente importa.
Veja bem: Os dias mais detestáveis para se trabalhar em nosso país são aqueles que separam o natal do ano novo. Isso porque o natal ativa no nosso cérebro um tipo de modo avião que começa nos preparar para o reboot do sistema de esperança e recompensas que começa às 00:00 do dia primeiro de janeiro (além daquela leseira causada pelo seu corpo tentando se livrar das toxinas, álcool e gordura que você bombeou deliberadamente pra dentro do seu fígado na ceia).
A mudança do ano, ao contrário do natal, é uma festa democrática e de baixo custo. Todos veem o show de fogos no céus e desejar um feliz ano novo não custa nada (AINDA). O ano novo não é um feriado religioso, pelo contrário: Ele celebra o que há de mais mundano que é a contagem inexorável do tempo que oxida nossas células como um relógio atômico determinando que, não importa sua etnia/credo/classe social, seu tempo é finito aqui nessa terra/plano/whatever.
A mudança de ano é a contagem de um ciclo da terra em volta do sol, uma sutil lembrança de que, não importa o tamanho da sua casa ou conta bancária, nós somos menores que tudo isso. Ínfimos, do ponto de vista universal. Se o sol explodir hoje, ateus e cristãos vão virar poeira. Os presentes embaixo da sua árvore também, assim como a muralha da China e as pirâmides de Gizé. Nenhuma traço da terra ou das obras humanas restaria por aqui, exceto talvez aquelas sondas enviadas para o espaço. Um cartão postal de final de ano no pé da árvore de algum extraterrestre gigante com um senso de humor duvidoso.
Mas não é essa mensagem de pequenez e fragilidade que eu quero deixar nesse final de ano terrível. Também não vim dizer que o sol vai explodir (embora eu não ficasse surpreso se acontecesse porquê… né?). Quando o primeiro sapiens se deu conta que, tempo após tempo, as estrelas voltavam ao mesmo lugar, ele com certeza percebeu que o que ele fizesse entre a passagem desse caminho celestial realmente importava, e fez o que nós humanos sempre fizemos de melhor: Ele começou a planejar.
Ao imaginar o futuro, e quantificá-lo, ele se deu conta que o que importa de verdade não é o começo do novo ciclo, mas como aproveitamos esse tempo. Ao verem suas colheitas crescendo regularmente, após o início de cada verão, os grupamentos humanos ficaram satisfeitos por terem entendido finalmente o relógio natural e quiseram comemorar. Ou registraram a noite mais longa do ano e quiseram se unir para que, caso algo ruim acontecesse, estivessem juntos. Lá, em alguma planície distante no oriente médio, quando as estrelas voltavam na sua posição, os seres humanos aprenderam a agradecer. Para um Deus invisível, estrela ou outra divindade, não importa: Em algum momento de chuvas torrenciais ou noites frias e longas, os nossos antepassados se deram conta de que éramos pequenos e indefesos em um mundo grande e cruel, e que a cada ciclo completado deveríamos ser gratos.
Esse ano eu sou grato por muitas coisas, e eu tenho certeza que todos aqui na terra tem algo a agradecer. Em um ano como esse, estar escrevendo (ou lendo essas linhas) já é motivo para agradecer. Que tal darmos uma grande banana para tudo que nos dividiu (e não se iluda, continuará dividindo em 02 de janeiro) e celebrarmos como as primeiras tribos de macacos pelados que viveram nesse planeta azul?
Agradecermos o começo de um novo ciclo de tempo, embaixo do mesmo sol e das mesmas estrelas. Planejar nossa próxima colheita e se juntar, na noite longa ou na chuva forte, para abraçar nossos irmãos humanos, e desejar um novo fôlego e melhor sorte no ano que se inicia. E sugiro que no dia 31 de dezembro desse ano, todos nós sapiens mostremos o dedo do meio para o universo e digamos: Ok natureza, não foi dessa vez! Estamos aqui ainda, e estamos ainda mais fortes e unidos. Tente de novo!”
Eugenio Mira nos presenteia com uma reflexão muito forte e verdadeira, e enfatizando a frase latina ‘carpe diem’ (a frase vem do poeta romano Horácio e sugere “colher o dia como uma flor”, valorizando cada momento e as oportunidades que ele traz) e é justamente essa mensagem que trago aos meus leitores – aproveite o dia”, um convite para viver intensamente o presente, sem se preocupar excessivamente com o futuro, pois a vida é breve e incerta.
É o sentimento que me vem do fundo coração que todos tenham um 2026 muito feliz e prospero. A felicidade e a prosperidade não caem do céu, teremos que trabalhar muito para alcançar. Assim vamos à luta, a vida no Brasil este ano de 2025 que se vai não foi nada fácil para a maioria de nós, fomos resilientes e sobrevivemos e não vai ficar somente nisso – vamos sobreviver ao 2026.
“Você criou o fogo e então pensou: ‘Ei, vamos ver para que serve esse troço. Beleza! … Não precisamos mais comer mastodonte cru! Quero o meu malpassado, por favor. Ah, merda, taquei fogo no Zé!’ — Opa, foi mal, Zé. Agora, você precisa descobrir como tratar uma queimadura. E como enfrentar alguém que goste de tacar fogo em outros zés e, talvez, queimar a aldeia. Quando menos se espera, você evoluiu e tem hospitais, tiras, controle climático e carne de porco por encomenda” – Nora Roberts na obra “Origem mortal”
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

