Banco Mundial quer exigir redução de rebanhos para financiar pecuária de baixo carbono

 

 

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Gabriel Rezende Faria/Embrapa

Mais uma polêmica à vista no mercado internacional de produção pecuária. O Banco Mundial está disposto a financiar países que decidam adotar políticas públicas de incentivo à pecuária de baixo carbono desde que eles reduzam seus rebanhos. Brasil, Argentina e Uruguai já se manifestaram contra a possibilidade de limitação do número de animais em troca de financiamento.  

A informação sobre a proposta do Banco Mundial provocou contrariedade entre alguns dos participantes da reunião da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) sobre mudanças climáticas e desenvolvimento da pecuária na América Latina e Caribe, realizada dias atrás na Costa Rica. Entre eles, o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos, SP), Alexandre Berndt.

Conforme relatos feitos na Costa Rica, o Banco Mundial lançará um guia com informações sobre como ter acesso aos recursos, com sete princípios para que os países tenham acesso ao financiamento. No documento, a instituição reforçará a necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis e de sensibilizar a sociedade para práticas mais sustentáveis.

O princípio da limitação dos tamanhos de rebanhos bovinos dos países interessados foi rechaçado na reunião. “A proposta foi criticada imediatamente por países como Brasil, Uruguai e Argentina. Decidimos aguardar a formulação do documento para consulta pública. Quando recebermos, vamos compartilhar no portfólio de Mudanças Climáticas da Embrapa e preparar nota técnica com especialistas para rebatê-la”, adiantou Berndt.

A preocupação dos países latino-americanos é que uma decisão do Banco Mundial tem abrangência global, o que pode impactar negativo na produção e no consumo de carnes no mundo. Segundo o chefe de P&D, não ficou claro também se o financiamento será com recursos próprios da instituição ou se ele atuará como catalisador de fundos internacionais.

Acordo brasileiro

Durante a reunião, Berndt fez uma apresentação sobre medidas que o Brasil está adotando para cumprir as NDCs (Nationally Determined Contributions), pontos acordados na COP 21, em Paris, em dezembro de 2015. Por meio delas, o país se comprometeu a reduzir a emissão de gases de efeito estufa na pecuária em propostas baseadas na ciência. No caso, o conhecimento científico acumulado pela Rede Pecus serviu de base para o acordo brasileiro.

O rigor científico em ações de redução dos efeitos das mudanças climáticas foi cobrado no encontro de Costa Rica. “Vários países apresentaram iniciativas que desenvolvem em relação à pecuária sustentável e mostraram avanços em tecnologias de monitoramento de sistemas de produção de baixo carbono. Mas as propostas têm que ser fundamentalmente embasadas em ciência”, afirma Berndt.

Em sua apresentação, ele abordou tecnologias como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), agricultura de precisão, uso de imagens de satélite, aviões e de drones e do sistema de colares para monitoramento do comportamento animal, além de relatar resultados da Rede Pecus (essa rede pesquisou a relação entre a pecuária e as mudanças climáticas em todos os biomas brasileiros). Foram apresentados alguns fatores de emissão de metano entérico e óxido nitroso, assim como o potencial sequestro de carbono em solos de pastagens e árvores do ILPF.

Ele também demonstrou preocupação em relação à durabilidade de políticas públicas. O Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), por exemplo, que financia ações ligadas à agropecuária sustentável, um dia será encerrado. “Quem vai sustentar essas medidas? É preciso estabelecer um arranjo duradouro envolvendo a iniciativa privada”, acrescenta.

Divididos em grupos, os países debateram não apenas demandas de pesquisas como a necessidade de financiamento para novos estudos e formas de aplicação prática de resultados. O encontro foi promovido pela FAO, Banco Mundial e Global Research Alliance. Participaram da reunião 67 representantes de 18 países.

Da redação, com informações da Embrapa

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