Hospital Veterinário faz cirurgia guiada por vídeo em animais de grande porte

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Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Por Gisele Pimenta –  Secom UnB

A égua Delicinha perdeu a mobilidade da articulação próxima ao casco de uma de suas patas. Por isso, teve sua capacidade de cavalgada reduzida. Essa condição provavelmente motivou o abandono do animal.  Encaminhada ao Hospital-Escola para Animais de Grande Porte (HVet) da UnB (Universidade de Brasília) ela está sendo preparada para doação. Nesses casos, a castração – ovariectomia, na nomenclatura técnica –, é procedimento padrão. A novidade é que Delicinha foi operada por meio de uma técnica inédita na UnB: a videolaparoscopia, uma cirurgia guiada por câmera.

Funciona da seguinte forma: de pé, o animal recebe uma anestesia local, depois o cirurgião veterinário faz três cortes abdominais de, no máximo, dois centímetros. Em um deles, insere o endoscópio rígido conectado à câmera e à fonte de luz. As imagens são projetadas em um monitor e o profissional consegue conduzir a cirurgia visualizando toda cavidade e órgãos internos do animal. No método tradicional – a laparotomia –, o mesmo procedimento é feito com o animal deitado, sob efeito de anestesia geral e por meio de um corte que pode chegar a 30 centímetros.

“Na cirurgia aberta tradicional, não conseguimos a visualização completa do procedimento, agimos por palpação. Entramos com a mão, buscamos e tracionamos a estrutura. Na cirurgia fechada, por videolaparoscopia, conseguimos ter essa visualização e a técnica fica mais bem empregada e mais precisa”, explica Fábio Ximenes, professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAV) da UnB.

Este tipo de operação propicia outras vantagens, segundo o docente. Para o animal, o trauma é menor. “O risco de contaminação reduz drasticamente. É considerável a diferença entre uma incisão de 30 centímetros [feita pelo método tradicional] e outra com um corte dois centímetros [videolaparoscopia], no qual introduzimos apenas equipamentos estéreis”, analisa.

A recuperação de Delicinha será mais rápida, em torno de uma semana. Nesse tempo, ela receberá os cuidados – analgésicos, curativos, alimentação e higienização – em uma das baias do HVet. Se fosse pela cirurgia aberta, precisaria de 30 dias de repouso.

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Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Outras aplicações

A videolaparoscopia ainda pode ser usada para fechar diagnósticos, em casos nos quais os exames clínicos não conseguem identificar anormalidades ou patologias. Ximenes ressalta a inexistência de equipamentos de ressonância magnética ou de tomografia computadorizada para examinar um cavalo da cabeça aos pés, como é feito com humanos.

“Recebemos aqui no Hospital, por exemplo, duas vacas com média de peso de mil quilos. Tentamos uma biópsia hepática, guiada por ultrassom, sem sucesso. Então, fizemos o procedimento por laparoscopia. Com o animal de pé, entrei com o laparoscópio e guiei a agulha de biópsia para alcançar o fígado e retirar o fragmento para o exame. Quando terminou, a vaca saiu andando, foi para o piquete, comeu e bebeu água”, conta.

O procedimento também contempla o aspecto estético, uma vez que a cicatriz pós-operatória deixada na pele do animal é muito pequena. “Muitos proprietários não querem marcas visíveis. A cirurgia tradicional deixa uma cicatriz grande. A laparoscopia não”, destaca Ximenes.

A técnica engloba funcionalidades acadêmicas e pedagógicas. “É possível reunir vários alunos e mostrar, via monitor, estruturas abdominais que eles não teriam oportunidade de ver, a não ser em uma necropsia. Na cirurgia tradicional, não posso permitir que muitas pessoas coloquem a mão na cavidade e tenham essa experiência”, aponta o professor.

Letiana da Silva, residente em Clínica e Cirurgia, participou de dois procedimentos por videolaparoscopia no HVet. Antes da residência, não havia tido contato com a técnica. “O procedimento possui uma complexidade menor em sua execução, o mesmo ocorre ao se realizar os curativos e a medicação pós-operatória. E ainda ganhamos novas experiências, algo que agrego ao currículo”, afirma.

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Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Especialização

Segundo Ximenes, é preciso investir em formação específica para trabalhar com videocirurgias. “Operar um animal de pé é totalmente diferente de operá-lo deitado, porque os órgãos mudam de posição. Com o tempo, você cria essa distinção na cabeça, mas no início é difícil. É fundamental treinar a habilidade manual com os instrumentais e formar uma equipe”, completa.

A videolaparoscopia em animas de grande porte foi introduzida nas rotinas do HVet em abril, por Fábio Ximenes. O docente aperfeiçoou a técnica no seu doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp-Botucatu), onde pesquisou e trabalhou com cirurgias por vídeo em mulas. Até agora, na UnB, duas éguas e duas vacas passaram por procedimentos guiados por vídeo.

“Não temos toda estrutura e equipamentos necessários aqui no Hospital, estamos trabalhando em parceria com laboratórios particulares. Nosso principal desafio é adquirir os equipamentos, que são muito caros, e investir em pesquisas. Comecei projetos com alunos da iniciação científica, estou trabalhando em publicações, concorrendo a editais de fomento e pretendo ofertar uma disciplina na pós-graduação”, enumera o professor da FAV.

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Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Comunidade

Os serviços oferecidos pelo Hospital Veterinário para Animais de Grande Porte são cobrados, porém, possuem preços abaixo da média de mercado. De acordo com Fábio Ximenes, uma consulta que custa até R$ 500 em clínicas particulares, no HVet é R$ 120. A média de preço para os procedimentos de videolaparoscopia é de R$ 800, valor bem mais acessível comparado a procedimentos realizados em clínicas privadas.

Em 2017, o setor de grandes animais do HVet realizou 1.430 exames, 384 consultas, 108 cirurgias e 47 necropsias em asnos, bois, búfalos, cabras, cavalos, mulas, ovelhas e porcos. O atendimento é feito em regime de plantão.

Serviço

Hospital-Escola para Animais de Grande Porte

Atendimento 24 horas, em regime de plantão

Telefone: 61 3468 7255

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