Felicidade versus produtividade

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Waldir Leite Roque*

O que produtividade tem a ver com felicidade? Aparentemente são conceitos bem distintos e uma elevada correlação entre eles não seria esperada. Mas não é bem assim. É comum ouvirmos dizer que as pessoas devem escolher a profissão por amor ao que gosta ou que gostaria de fazer, em vez de levar em consideração apenas questões de natureza puramente financeira ou de status social. Então, parece que uma pessoa trabalha mais contente se faz aquilo que tem prazer. Em princípio, essa pessoa é capaz de ser mais produtiva ao realizar seu trabalho do que outra que é infeliz com a profissão que escolheu. Vemos, então, que há uma correlação entre felicidade e produtividade e não deve ser tão baixa assim.

Estudos e observações científicas mais recentes vêm mostrando que essa correlação é bem mais elevada do que se imagina. Na última reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos, o psicólogo Adam Grant e o economista e historiador Rutger Bregman participaram do painel sobre Redução da Desigualdade, onde apresentaram argumentos e resultados de experimentos evidenciando que a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana proporcionaria maior produtividade, uma vez que os trabalhadores teriam maior foco e atenção na realização de tarefas, produzindo tanto ou mais quanto antes, mas com melhor qualidade e criatividade, além de se tornarem mais leais à organização na qual trabalham e que está disponibilizando mais tempo livre para tratarem de suas vidas fora do ambiente de trabalho. Em outras palavras, dando margem para serem mais felizes.

A proposta de uma semana de trabalho mais curta não é nova. No entanto, apenas mais recentemente resultados científicos estão comprovando a sua eficácia. Nos anos 1930, o investidor Henry Ford já propunha que baixando a carga horário semanal de 60 horas para 40 geraria um ganho de produtividade, tendo em vista que os empregados retornariam mais dispostos ao trabalho. Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que países com longas jornadas de trabalho, em geral, apresentam baixa produtividade e menor produto interno bruto. O ensaio Utopia para Realistas, de R. Bregman, discute com bastante leveza e seriedade a proposta de final de semana de três dias.

Em seu livro, R. Bregman aponta que a menos de dois séculos cerca de 99% da população mundial vivia em condições de extremamente pobreza, eram famintas, malnutridas e doentes. Em 1820, 94% da população ainda vivia em extrema pobreza, o que significa sobrevivendo com menos de 1,25 dólares por dia. Mas, em 1981, esta percentagem já havia caído para cerca de 44% e no século atual este número reduziu para em torno de 10%. O processo de industrialização e o grande desenvolvimento de técnicas agrícolas foram fundamentais para esta redução dos níveis de pobreza. A elevação da produção agrícola permitiu a oferta e a diminuição dos preços e isso gerou maior acessibilidade a alimentos básicos da dieta.

Por outro lado, vemos que a grande evolução dos processos de industrialização e do agronegócio levou à redução de mão de obra tanto na manufatura quanto no campo. Isso levou à migração para o setor de serviços, mas também tem gerado um grande contingente de pessoas com baixa formação, levando-os ao subemprego ou desemprego. Este é um fantasma que ronda especialmente os países subdesenvolvidos e em desenvlvimento.

Obviamente não é simplesmente reduzindo a jornada de trabalho, especialmente em um país como o Brasil, que proporcionaremos maior felicidade e produtividade. Sem dúvida, para o Brasil trilhar este novo caminho são necessárias políticas públicas muito bem elaboradas, com sustentabilidade, em diversos setores, especialmente na educação, e mudanças de paradigmas que sejam capazes de gerar as condições mínimas adequadas para elevarmos ao máximo a correlação felicidade versus produtividade.

Prof. Titular – UFPB

 

 

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