Câmara Setorial do Leite do Mapa precisa ajudar a fazer a autorregulação do setor

edilberto carneiro produtor leite goias

Da redação/AGROemDIA

A Câmara Setorial do Leite e Derivados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) precisa reavaliar sua atuação para exercer, de fato, um papel de convergência entre os elos da cadeia produtiva, assegurando que todos os interesses sejam contemplados, especialmente os dos produtores de leite. Ou seja, é necessário reorganizar o setor, por meio de uma reengenharia, para que ela seja competitiva e tenha sustentabilidade, com geração de emprego e renda em todos os elos.

A avaliação é do pequeno produtor de leite Edilberto Carneiro, do município goiano de Palminópolis. Para ele, o colegiado consultivo do Mapa deve incentivar uma reengenharia dentro do setor, que resulte numa autorregulação que venha a contribuir para eliminar os desequilíbrios existentes hoje entre o setor primário e a indústria de lácteos.

Em entrevista ao AGROemDIA, nesta quarta-feira (3), Edilberto Carneiro falou sobre as perspectivas dos produtores em relação à Câmara Setorial do Leite e Derivados. Nessa quarta-feira (2), o colegiado elegeu seu novo presidente, o pequeno produtor de leite Ronei Volpi, da Federação da Agricultura do Estado do Paraná e vice-presidente da Comissão de Leite da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Edilberto fez parte do grupo de produtores de leite de Goiás que participou, como convidado, da reunião da Câmara Setorial do Leite e Derivados nessa quarta (2). A expectativa de Edilberto é que a situação tome outro rumo a partir da eleição do Volpi e do apoio que a ministra Tereza Cristina se comprometeu em dar aos produtores de leite.

Ele lembra que o setor enfrenta uma séria crise nos últimos cinco anos, provocada principalmente pela pressão de preços ao produtor e pelos altos custos de produção. Nesse cenário, ressalta, o produtor vive atualmente entre a decepção e a revolta. A esperança, segundo ele, é que o governo do presidente Jair Bolsonaro, que contou com apoio majoritário do setor para se eleger, contribua para rever a situação, ouvindo mais os produtores de leite.

A nossa esperança é que, com a ministra Tereza Cristina, a Câmara do Leite realmente repercuta os interesses do produtor brasileiro de leite”

A seguir, os principais trechos da entrevista:     

AGROemDIA – Quando começou a crise o setor de leite?

Edilberto Carneiro – O produtor brasileiro de leite está vivendo um momento de muita perplexidade e agonia porque amarga uma crise que perdura há cinco anos. Nesta crise econômica em que o país mergulhou de 2014 para cá, a atividade leiteira é uma das mais sacrificadas porque produz um produto, o leite, que é de consumo da população em geral, incluindo as famílias de baixa renda. Com esse nível de desemprego e os problemas dele decorrentes, todo o resultado dessa situação deságua no elo mais fraco da cadeia produtiva de lácteos, que é o produtor. Anos após ano a crise se repete.

AGROemDIA – Em alguns momentos, parece que a situação melhora, mas em seguida o cenário piora. Qual a razão dessa instabilidade na cadeia produtiva?

Edilberto – Quando os preços começam a se recuperar, o produtor se anima, mas logo o mercado fica saturado e influências artificiais, como importações desnecessárias e consumo retraído, fazem a crise voltar. Este ano, por exemplo, tivemos um alento, de janeiro a maio, com a recuperação de preços. Mas agora, em junho, já houve sinalização de que haverá uma queda de preços significativa, entre R$ 0,20 e R$ 0,30, o que é uma tragédia para um produtor de leite. Isso equivale a cerca de 15% da redução de preço num produto de margem muito pequena e com pressão de custo importante neste momento. Os preços do milho e do farelo de soja, principais componentes de custo numa fazenda de leite, estão em alta. Então, temos, de um lado, a pressão de custo, e de outro, a baixa do preço de leite. É uma situação desesperadora, tendo em vista que o produtor já vem de crises anteriores. No ano passado, tivemos uma grande crise, com queda de preço de até R$ 0,50. E agora, quando estamos recuperando o fôlego, fala-se em outra queda de preços, sinalizando nova crise.

 

produtores de leite de goias
Produtores de leite de Goiás no Mapa – Divulgação

AGROemDIA – Isso tem levado muitos produtores a abandonar o setor de leite?

Edilberto – O país deve estar perdendo cerca de 40 mil produtores de leite por ano. Essa crise dos últimos cinco anos já deve ter provocado a saída do setor de pelo menos 200 mil produtores de leite no Brasil. Então, é uma situação muito angustiante. O produtor, na sua perplexidade e desespero, está esperando um socorro.

AGROemDIA – E de onde os senhores esperam que venha esse apoio?

Edilberto – De onde é que pode vir o socorro para o produtor de leite brasileiro? Aí, o produtor olha para o governo, que ele considera patriótico. O presidente Bolsonaro teve como principal base eleitoral o produtor rural, particularmente o de leite. Então, o produtor, nesta crise, olha para o governo, para Brasília. E o ministério que cuida disso é o da Agricultura, que tem como ministra Tereza Cristina. Nós temos muita expectativa em relação à ministra. Muita esperança, porque ela é sensível, é produtora e esperamos que adote a causa do produtor de leite brasileiro e realmente defenda os interesses do produtor, o elo mais fraco da cadeia produtiva do leite.

Precisamos de uma relação propositiva em que todos ganhem, de confiança, de respeito entre todos, de transparência, de compromisso com a sociedade”

AGROemDIA – E qual a expectativa dos produtores, nesse contexto, em relação à Câmara Setorial do Leite e Derivados?

Edilberto – Na estrutura do Mapa, há um órgão consultivo que é a Câmara Setorial do Leite. Ela é composta por representantes de vários elos da cadeia produtiva, como as entidades representativas do produtor, a indústria e a Embrapa, que é a área de ensino e pesquisa. A Câmara Setorial é um órgão de assessoramento, não é um órgão executivo. No entanto, como representa a cadeia produtiva, ela é muito importante para subsidiar a ministra para que sejam estabelecidas as políticas públicas, os instrumentos regulatórios adequados, para nortear a atividade leiteira no país, principalmente no setor primário.

AGROemDIA – Qual a avaliação que o setor faz sobre a atuação da Câmara Setorial do Leite e Derivados desde sua criação, na gestão do ex-ministro Roberto Rodrigues, durante o primeiro governo Lula, até agora?

Edilberto – Na perspectiva do produtor de leite, o trabalho da Câmara Setorial do Leite tem deixado muito a desejar, principalmente nos últimos sete anos. Nosso sentimento é o de que a Câmara Setorial, embora esteja no Mapa, tem atendido muito mais os interesses de outros elos da cadeia produtiva. Isso para nós tem sido claro, o que tem nos deixado muito revoltados com essa postura da Câmara Setorial do Leite nos últimos anos, notadamente durante os governos da esquerda. Lamentavelmente, não tivemos na Câmara Setorial do Leite ressonância em relação ao produtor. Houve vista grosso quanto à importação de leite, além da aprovação de medidas regulatórias contrárias aos interesses do produtor. Então, estamos muito insatisfeitos com a Câmara Setorial do Leite do Mapa.

AGROemDIA – Qual a expectativa em relação ao colegiado a partir de agora?

Edilberto – A nossa esperança é que, com a ministra Tereza Cristina, a Câmara do Leite realmente repercuta os interesses do produtor brasileiro de leite. O papel da Câmara Setorial é pautar o governo. Se ela for competente, bem articulada e representativa, acabará pautando o governo. O governo precisa ser pautado para repercutir o que a sociedade quer e para que possa executar as políticas públicas. A Câmara Setorial existe para isso, mas tem falhado nessa atribuição. Até agora, ela tem sido uma foto das velhas práticas, com muitos interesses, muitos deles espúrios. O produtor foi muito pouco ouvido pela Câmara Setorial do Leite.

AGROemDIA – Que tipo de ações os produtores de leite esperam da Câmara Setorial?

Edilberto – Uma Câmara Setorial eficiente, que desenvolva conteúdos inteligentes para pautar o Mapa e colocá-lo a serviço dos interesses da sociedade, principalmente daquele setor para o qual o Ministério da Agricultura foi criado para defender, o produtor rural. A nossa expectativa é que a Câmara Setorial assuma esse papel. E, neste momento, entendemos que está saturado o relacionamento do produtor com a indústria. Precisamos de uma relação propositiva em que todos ganhem, de confiança, de respeito entre todos, de transparência, de compromisso com a sociedade. Isso tem que ser construído na Câmara Setorial do Leite. É preciso que essa reengenharia seja feita, a fim de que tenhamos uma autorregulação envolvendo o governo e todos os elos da cadeia. A Câmara Setorial do Leite tem um papel muito importante para que isso venha a ser feito.

produtores de leite de goias
Divulgação

 

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