Produtores gaúchos protestam contra a crise no setor de leite

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Manifestação dos produtores de leite em Porto Alegre – Foto: Facebook MST

Cerca de mil produtores de leite do Rio Grande do Sul fizeram um protesto, na manhã desta terça-feira 15, em Porto Alegre, contra as instruções normativas 76 e 77, por meio das quais o governo federal estabeleceu padrões de qualidade do produto. Eles também reclamaram do preço que os laticínios pagam aos agricultores pelo leite.

Ainda pela manhã, os pecuaristas do setor leiteiro também participaram de audiência pública na Assembleia Legislativa. Durante a reunião, o deputado estadual Elton Weber (PSB) defendeu a suspensão das normas estabelecidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A manifestação começou com uma caminhada, puxada por duas vacas, até Superintendência Federal do Mapa na capital gaúcha. Com faixas, cartazes e caixas de leite, os produtores de várias regiões do RS mostram sua insatisfação com a forma de implementação das duas instruções normativas.

Os pecuaristas esclareceram que não são contra as medidas que tratam da qualidade do leite, mas alegam que as normativas, publicadas em novembro de 2018 pelo governo federal, inviabilizam a produção dos pequenos e médios produtores. As normas especificam os padrões de identidade e qualidade do leite e estabelecem alterações na forma de produzir, coletar e armazenar o produto.

Preocupação com a temperatura do leite

Uma das mudanças que mais preocupam os produtores é a temperatura máxima permitida para o leite chegar ao estabelecimento industrial. Com as novas regras, caiu de dez para sete graus. Segundo eles, essa alteração ignora a realidade daqueles que moram em locais muito distantes e o tempo de viagem necessário para transportar a matéria-prima dessas propriedades até a indústria.

“Em Piratini, por exemplo, o caminhão faz 180, 200 km para chegar à indústria. O leite não chega com menos de 8 graus no inverno e a temperatura aumenta no verão. Com as normas antigas nem produtor, nem consumidor tiveram problemas”, observa Adelar Pretto, da Cooperativa de Produção Agropecuária Vista Alegre (Coopava).

Novas regras geram abandono da atividade

Os agricultores explicam que, na prática, as novas regras eliminam os pequenos em favor dos grandes, pois os produtores que não se adaptarem sairão do mercado num curto tempo. Também há previsão de que o problema atingirá o consumidor, que em função do monopólio da indústria poderá pagar mais caro pelo litro de leite nos supermercados.

Os produtores relatam que as instruções os obrigam a fazerem mais investimentos para se adequarem, enquanto a produção segue desvalorizada, e aumentam o número de desistentes da atividade. Eles acrescentam que o abandono já ocorre de forma acelerada nos últimos anos no RS. De acordo com a Emater, em 2015 havia 198 mil produtores de leite. Já em 2017 foram contabilizados 19 mil a menos.

Produção é essencial à economia dos municípios

O RS é um dos estados que mais produzem leite no país. De acordo com os manifestantes, arte da produção está concentrada nas mãos dos grandes produtores. Essa concentração, argumentam, prejudica os pequenos e médios agricultores.

Dados da Emater-RS indicam que até 2017 a atividade leiteira era exercida em 491 dos 497 municípios gaúchos, sendo responsável por 2,81% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado, conforme o Sindicato da Indústria de Laticínios do RS.

Além da agricultura familiar, os assentamentos da reforma agrária também são responsáveis por parte da produção leiteira do RS. Cerca de 6 mil famílias assentadas no estado produzem mais de 120 milhões de litros de leite ao ano.

Preço não compensa a produção

O preço do leite pago ao produtor também gera um grande descontentamento e desestimula a produção. Na maioria dos municípios o preço do litro gira em torno de R$ 1,00, conforme preço de referência. No entanto, se gasta praticamente o mesmo valor para produzir. Ou seja, não sobra quase nada no bolso do agricultor.

Audiência pública e reunião com o governador

A mobilização na superintendência do Mapa reuniu produtores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Federação dos Agricultores na Agricultura Familiar (Fetraf), Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag) e representantes de cooperativas.

O evento foi proposto pelos deputados estaduais Edegar Pretto, Jeferson Fernandes e Zé Nunes, do PT; Elton Weber (PSB); e Edson Brum (MDB). Parlamentares e produtores pretendem entregar ainda nesta terça-feira ao governador Eduardo Leite (PSDB) um documento com uma síntese da audiência, cobrando o envolvimento do governo gaúcho diante dos problemas enfrentados na cadeia produtiva do leite.

Da redação, com informações do Brasil de Fato e do Jornal do Comércio

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