Traficantes ameaçam produtores de abacate com extorsão e sequestros

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Foto: Pixabay License

Homens armados com fuzis AR-15 vigiam áreas estratégicos nas plantações de abacate. São agricultores que se veem obrigados a alternar a lida do campo com o convívio com as armas pesadas para se proteger dos cartéis de drogas no estado de Michoacán, no oeste do México, maior produtor mundial da fruta, chamada de “ouro verde” naquele país. Além do roubo da produção, os traficantes ameaçam os produtores com extorsões e sequestros.

O boom das exportações de abacate nos últimos anos, impulsionado pela acentuada expansão do consumo nos Estados Unidos e na Europa, despertou a cobiça dos traficantes, segundo reportagem da Associated Press (AP). Se de um lado o sucesso comercial da fruta tirou milhares de produtores da pobreza, de outro o cheiro do dinheiro atraiu os cartéis de drogas e outras organizações criminosas, semeando violência entre os pomares.

Nesse cenário, os agricultores dizem que só restou se armar para enfrentar o crime organizado. “Se não fosse pelos abacates, teria que procurar um emprego, talvez ir para os Estados Unidos ou qualquer outro lugar”, contou à AP o dono de um pequeno pomar, sem se identificar, no posto de controle do município San Juan Parangaricutiro.

Os agricultores se sentem envolvidos numa guerra entre gangues e autoridades corruptas. Dono de uma área de apenas 2,5 hectares, onde produz cerca de 50 toneladas de abacate/ano e chega a ganhar até US$ 100 mil, o produtor Carlos Martínez, do município de Ziracuaretiro, desabafou à AP: “Essa situação afeta a todos. Acordo todas as manhãs esperando que isso não aconteça comigo.”

Como a maioria dos agricultores, Martínez montou cercas mais seguras e contratou um guarda. Mas o que mais o preocupa, relatou à AP, são os sequestros e os pedidos de pagamentos em troca da proteção dos criminosos. “Não atendo chamadas de números que não conheço.”

Crime ameaça economia da região

O crime organizado também não poupa as empresas do setor de abacate. À AP, o produtor Hipolito Mora, fundador do movimento de autodefesa armada civil, revelou que várias embaladoras já foram assaltadas pelas quadrilhas. “Se os empresários fecharem suas fábricas, a economia da região entra em colapso.”

De acordo com a AP, a crescente violência em Michoacán põe em risco a nova prosperidade. Há o receio de que o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) suspenda o envio periódico de inspetores que vão ao estado verificar a qualidade da produção de abacate. Isso poderia causar uma profunda crise no setor, que exporta somente para os EUA mais de R$ 2,4 bilhões por ano.

Em meados de agosto, conforme a AP, uma equipe de inspetores do USDA foi ameaçada no município de Ziracuaretiro. A agência dos EUA não especificou o que aconteceu, mas as autoridades locais comentam que uma quadrilha teria roubado o caminhão no qual os técnicos estavam viajando.

Diante disso, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos teria ameaçado suspender o envio de inspetores. A medida pode significar o bloqueio das exportações, com reflexos na geração de emprego e renda e na própria sobrevivência do setor.

Carta de advertência do USDA

A Associação de Produtores e Empacotadores de Abacate de Michoacán (AGPA), informou a AP, tornou pública uma carta de advertência do USDA, atitude vista como um aviso às quadrilhas de criminosos para que saibam que podem pôr fim ao mais próspero setor do agro mexicano.

Protegido pelo anonimato, o chefe de polícia de uma cidade da região do “ouro verde” descreve como age o cartel de Viagras, o mais poderoso do estado: “Eles fazem de tudo: extorsão, usam drones e querem instalar laboratórios [para produzir drogas] em pomares”.

Os Viagras agora também viraram alvos, relatou a AP. O cartel da Nova Geração, de Jalisco, quer se mudar para Michoacán. Em agosto, o grupo – conhecido por sua crueldade – pendurou nove corpos em um viaduto no município Uruapan.

Na tentativa de dominar o território dos Viagras, o Nova Geração matou outras 10 pessoas e jogou seus corpos à beira de uma estrada. Além disso, pendurou uma faixa com um pedido: “Seja um patriota, mate um Viagra”.

O México fornece cerca de 43% das exportações mundiais de abacate, quase todas de Michoacán. Se o crime organizado conseguir fazer prevalecer sua força sobre o trabalho dos agricultores, é bem provável que as milhares de pessoas que saíram da pobreza graças ao cultivo de abacate passem a praticar crimes, disse à UP Adriana Villicaña, professora da Universidade Católica Univa, de Uruapan. “O mais provável é que elas aumentem o número de gangues.”

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