Seu Jair, quando será cumprida a promessa de solução para o Funrural, hein?

agricultor enxada 2020 2020 2020

Joao Carlos Rodrigues*

Seu Jair pegou no cabo da enxada, do ancinho, da pá e até arou o solo com junta de bois para ver as lavouras florescerem. Está na lida campeira desde que se entende por gente, sempre com a família. Primeiro, ajudando os pais, num pedaço de terra em meio a coxilhas num canto do sul do país. Depois, tocando plantações com o auxílio dos filhos e já com máquinas modernas, numa área bem maior que comprou no Brasil central.

Lá se vão mais de sete décadas de trabalho, de sol a sol, de domingo e domingo, enfrentando as adversidades climáticas, a ganância dos bancos, a abusividade de normas determinadas pelo governo, a elevada carga tributária, o alto custo dos insumos, os preços nem sempre compensatórios pagos pela produção, a insegurança na zona rural.

Nunca desistiu da roça.

– É o destino. Fazer o quê? – costuma dizer seu Jair quando proseia com seus botões, nos fins de tarde, hora em que sorve um chimarrão – hábito que carrega desde o sul –, reza, janta e, logo em seguida, vai dormir para acordar cedo no outro dia. Faça chuva ou faça sol. Não tem tempo ruim.

Não se entregou aos queixumes nem mesmo nas épocas em que as colheitas não foram como eram esperadas. Seu Jair não é homem de reclamar; prefere lutar, buscar soluções. Nem que seja na mesa de gerentes de bancos que, por anos e anos, abusaram – e abusam – nos juros e lhe empurraram diferentes apólices de seguro para lhe “estender a mão”.

Raras vezes seu Jair viu algum reconhecimento por produzir alimentos para a gente da cidade. Também nunca ligou para isso. “Faço a minha parte. É o meu negócio”, gosta de falar. Só sentiu algum conforto em 2010 e 2011, quando o filho mais novo lhe contou que a Justiça havia declarado ilegal a cobrança do Funrural:

– Os capas pretas decidiram que é o imposto é inconstitucional.

– Até que enfim os homens lá de cima resolveram fazer alguma justiça com o produtor – pensou seu Jair.

Assim como muitos seus vizinhos produtores, ele parou de recolher o tributo, baseado na decisão do Supremo Tribunal Federal.

– Um imposto a menos é sempre bom neste país em que os governos municipais, estaduais e federal arrancam o olho do vivente – comentou seu Jair à época, embora sempre tenha ficado com a pulga atrás da orelha com qualquer decisão de Brasília.

A desconfiança de seu Jair se confirmou. Em 2017, o Supremo voltou a julgar o Funrural e mudou a decisão de 2010 e 2011, declarando o tributo constitucional.

– Pai, os capas pretas agora querem que a gente pague esses anos que ficamos sem recolher o Funrural seguindo o que eles próprios decidiram.

– Não pago. Essa dívida não é nossa. O diabo que a carregue, junto com que a inventou – respondeu seu Jair, o sangue lhe subindo a cabeça, as bochechas rosadas de raiva.

A revolta o levou à resistência. A exemplo de milhares de produtores país afora, resolveu participar da luta para reverter a injustiça sentenciada pela Justiça.

– Não podemos se entrega pros home – repetia – e ainda repete – o refrão da música do cantor gaúcho Leopoldo Rassier para injetar ânimo na resistência, que ganhou força por muitos rincões e passou a se chamar Movimento Brasil Verde e Amarelo.

Alquebrado pelo tempo, mas jamais desacorçoado, seu Jair também despertou para a política. À mulher Ermínia, disparou numa conversa na cozinha numa noite de 2016:

– Chega de ficar vendo essas barbaridades. É hora tentar dar um jeito nessa pouco vergonha que transformaram o Brasil, com a roubalheira se espraiando como erva daninha.

Quando soube que o tocaio, o deputado-capitão Jair Bolsonaro, ia se arriscar concorrer a presidente, não teve dúvida:

– Taí o meu candidato. É um homem de coragem, quer resgatar os valores da família, o patriotismo e acabar com a ladroagem.

Começou, então, a buscar votos na vizinhança e entre os parentes, a maioria ainda no sul do país, para o tocaio forjado na caserna.

Ficou ainda mais faceiro quando soube, durante a campanha de 2018, que Jair Bolsonaro havia prometido dar fim à dívida que os capas pretas jogaram nas costas do produtor, o tal passivo do Funrural.

Viu que o tocaio era um sujeito de palavra quando ele reafirmou, depois de eleito, que daria um jeito no Funrural, sem Refis Rural, como sempre pediram os produtores. Seu Jair era só empolgação:

– O homem deu a palavra que vai acabar com essa injustiça do Funrural – passou a alardear no meio rural.

Com o passar dos meses do primeiro ano de governo do capitão, seu Jair começou a ouvir produtores da vizinhança lhe perguntarem cada vez com mais insistência:

– Seu Jair, quando será cumprida a promessa de solução para o Funrural, hein?

Meio desenxavido e já um tanto ressabiado, o produtor de cabelos grisalhos e neto de imigrantes europeus sempre deixa escapar:

– Agora só depende do Jair, o Bolsonaro. A decisão é política. Tudo até já foi chuleado com o [Paulo] Guedes [ministro da Economia].

Mas a vizinhança insiste sempre que o vê:

– Seu Jair, quando será cumprida a promessa de solução para o Funrural, hein?

Ele se impacienta e resmunga:

– Não vejo a hora de poder dizer que o Funrural foi resolvido. A promessa foi cumprida. Jair, o Bolsonaro, é um homem de palavra.

Noite dessas, seu Jair falou a Ermínia que se for preciso se bandeia até Brasília, junto com outros produtores, para pressionar Jair, o Bolsonaro, a cumprir com o prometido. Disse que já está ficando cansado de ouvir:

– Seu Jair, quando será cumprida a promessa de solução para o Funrural, hein?

A ver, seu Jair. 2020 está aí. E já é o segundo ano de governo do Jair, o Bolsonaro.

*Jornalista, Reg. Profissional 5178/RS, editor do portal AGROemDIA

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Um comentário em “Seu Jair, quando será cumprida a promessa de solução para o Funrural, hein?

  • 30 de janeiro de 2020 em 20:54
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    Infelizmente isso não vai acontecer estamos vendo um país com dólar de R$ 4.26 hoje dia 30/01/2020 só para equilibrar a balança comercial onde os insumos sobem a cada dia e estamos vendo alta inflação igual; seu Jair fiquei o ano passado inteiro aguardando a remissão mas vejo que só foi mais uma promessa de campanha promessas de mais um; estou negativado devido a decisão dos capas pretas e quando vou tirar minha matrícula está lá bem disponível para Receita Federal do Brasil. Isso aí pais que onde você trabalha sol a sol os capas pretas decide pela inconstitucionalidade e depois voltam atrás para uma conta de responsabilidade fiscal que teria que fechar a base de marretadas onde o primeiro a dar o voto foi o capa preta careca que acredito eu nunca pegou num cabo de enxada posto para assumir naquele ano pelo presidente Michel Temmer, isso é Brasil e nunca vai mudar hoje acredito que tende a piorar porque o nosso ministro está mais interessado em ajudar banco que somam bilhões e bilhões em empréstimos a empreiteiras que fizeram empréstimos sem garantias e quem vai pagar a conta somos nós produtores primários.

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