O tsunami branco não é uma fatalidade

Waldir L. Roque é pesquisador e consultor em C&T/Foto: Arquivo pessoal

Waldir L. Roque*

Alguns economistas chamam de tsunami branco, penhasco demográfico ou bomba-relógio demográfica, os problemas que poderão ser causados à economia devido ao crescimento da população com idade acima de 65 anos. Os dados demográficos recentes apontam que a maioria dos países desenvolvidos terá mais de 25% de suas populações formadas por pessoas com idade acima de 65 anos por volta do ano de 2050. O Japão já possui 28%, Portugal 22%, União Europeia 20% e Brasil 9%. E essa é a tendência, pois ainda estamos vivendo o aumento da expectativa de vida da população, embora nos últimos anos a aceleração de crescimento da expectativa não esteja mais tão acentuada.

Argumentos ameaçadores em favor do tsunami branco, ou também denominado  tsunami cinza, devido às pessoas com mais de 65 terem os cabelos brancos ou, em alguns países, serem ditas com cabelos cinzas, é que esta massa de pessoas será improdutiva, enquanto recebem recursos como aposentadorias, que são, em parte, cobertas pelos trabalhadores que ainda estão na ativa. Tecnicamente, os economistas se referem ao tsunami branco como razão de dependência, ou seja, o tamanho da população em idade de trabalho relativa àquela população muito idosa ou, ainda, muito jovem.

Um estudo, realizado por uma economista americana, com base em dados entre 1980 e 2010, apontou que 10% no crescimento da população acima de 65 anos levou a um decréscimo no produto interno bruto per capita dos Estados Unidos em 5,5%. Se isso for extrapolado, seremos realmente atingidos por um tsunami branco, mas não é bem assim. Outro grupo de economistas argumenta que durante os últimos anos tem sido observado uma diminuição de produtividade, possivelmente causada não porque os mais idosos são, necessariamente, menos produtivos, mas porque muitos desses idosos se aposentam e, portanto, uma população com mais conhecimento e experiência é deixada de lado e, com isso, a força de trabalho dos mais jovens perde em capacidade produtiva.

Outro grupo de economistas observou, com dados do produto interno bruto americano de 1990 a 2015, que não houve correlação entre a demografia do envelhecimento e a diminuição do crescimento econômico. Ou seja, não há evidências concretas de que o envelhecimento da sociedade seja necessariamente ruim, economicamente falando. Na verdade, algumas nações que apresentam uma taxa de envelhecimento muita alta têm servido de exemplos da capacidade de crescimento econômico, como é o caso do Japão, da Coréia do Sul e da Alemanha.

As novas tecnologias têm mostrado que mesmo os 60+ podem continuar altamente produtivos em algumas áreas e que aliados à força de trabalho e talentos dos mais jovens, a produtividade não está fatalmente destinada a cair. A pandemia tem evidenciado que aqueles 60+ que nunca tinham utilizado ferramentas tecnológicas de informação e comunicação, rapidamente aprenderam a utilizá-las para trocar mensagens com seus entes queridos e que aqueles que pouco ou não utilizavam as novas tecnológicas em suas atividades de trabalho, tiveram que dominá-las para continuar trabalhando, agora de casa e não nos escritórios. O mesmo aconteceu com aqueles que trabalham com pequenos negócios agrícolas ou no comércio, passando a oferecer seus produtos por meio das redes sociais e criando estratégias de entrega.

Certamente, o nível educacional e a capacidade de utilização de novas ferramentas tecnológicas permitem que as sociedades adquiram maior potencial para se manterem produtivas, economicamente viáveis e ativas. Além disso, as novas tecnologias na área de saúde, com melhores medicamentos; na área de alimentação, com produção de alimentos mais saudáveis e nutritivos; e em outras áreas com políticas sociais adequadas, favorecerão, ainda mais, a participação na economia de uma sociedade que envelhece.

Alguns países têm uma cultura mais desenvolvida em termos de respeito, acolhimento e participação ativa das populações mais idosas. Outros, dentre eles o Brasil, ainda estão longe deste nível cultural da sociedade e, com isso, tendem, realmente, a se tornarem menos produtivos, o que afetará, mais adiante, a economia e qualidade de vida de todos.

Há mais de uma década alguns jovens de sucesso, como Mark Zuckerberg, criador do Facebook, e o investidor em novas tecnologias, Vinod Khosla, argumentavam que os jovens eram mais espertos e capazes de gerar mais ideias, no entanto, estudos conduzidos por várias universidades mostram que entre os 2,7 milhões de fundadores de empresas que fizeram parte do estudo, os melhores empreendedores foram aqueles de meia idade, ou seja, com média de 45 anos. Uma coisa é força de trabalho, outra é a capacidade produtiva.

Na área acadêmica, especialmente nas universidades brasileiras, vimos o crescimento do número de doutores formados, mas nem sempre isso significa que novos pesquisadores talentosos estão sendo disponibilizados. As formações de diversos desses doutores são muito restritas, seguindo um modelo do tipo canudo: longo, porém estreito, e muitas vezes, muito estreito e curto. A experiência dos pesquisadores mais idosos é importante para ampliar a capacidade produtiva de uma força de trabalho ainda latente. Mas isso não acontece, não há qualquer incentivo pelos órgãos de apoio à pesquisa e/ou universidades, que, na prática, vivem de recursos públicos.

Acredita-se que o baixo desempenho do Vale do Silício no desenvolvimento de startups em áreas como biomedicina, energias limpas e renováveis e mesmo em tecnologias avançadas para a computação, está no fato de que tais áreas requerem pessoas com alto conhecimento técnico-científico e experiência de trabalho nesses setores. A média de idade dos agraciados com o Prêmio Nobel na área de ciências é de 58 anos.

O envelhecimento da sociedade é inevitável, especialmente com a contínua redução da taxa de natalidade entre as nações mais desenvolvidas. O Brasil vem reduzindo a aceleração da natalidade e alongando a expectativa de vida, mesmo diante de tantas adversidades. O mais importante não é apenas termos ampliação da expectativa de vida, mas, sim, que haja qualidade de vida durante o período da terceira idade. O tsunami branco não é necessariamente uma fatalidade, mas poderá vir a ser se a redução da produtividade não for evitada por um tsunami de conhecimento e experiência dos cabelos brancos.

*Pesquisador/Consultor em C&T

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