O mito dos alimentos ultraprocessados
Gil Reis*
Os seres humanos, ao longo dos milênios, têm criado e acreditado em “mitologias”, nos mais diversos aspectos, começando com as religiões, saúde, alimentação e outras. Vamos definir mitologia: A mitologia é um sistema de crenças composta por uma série de narrativas chamadas de mito. Essas histórias buscam explicar tudo o que existe e é importante para uma sociedade. Os mitos são histórias que explicam a existência de diversos elementos da natureza, assim como ensinam sobre o comportamento humano. E os mitos o que são?
Qual é a diferença entre mito e mentira? Esse é um dos sinônimos atuais da palavra mito, um outro sinônimo ainda mais conhecido e utilizado é a mentira. Quando algo não é verdade dizemos: é mito! Estou utilizando os termos mito e mitologia como forma educada de não chamar quem divulga mitos de mentiroso.
O site Watts Up With That? – O que há com isso? publicou, em 14/02/2025, a matéria “Controvérsias científicas modernas: A guerra contra a comida”, assinada por Kip Hansen. Transcrevo trechos:
“O artigo típico da mídia sobre alimentos ultraprocessados geralmente começa com algo assim, usado em um artigo do New York Times, intitulado ‘Quão ruins são os alimentos ultraprocessados, realmente?’ por Alice Callahan:
Os alimentos ultraprocessados são prejudiciais? ‘A maioria das pesquisas que relacionam UPFs a problemas de saúde é baseada em estudos observacionais, nos quais pesquisadores perguntam às pessoas sobre suas dietas e então monitoram sua saúde ao longo de muitos anos. Em uma grande revisão de estudos publicada em 2024, cientistas relataram que o consumo de UPFs estava associado a 32 problemas de saúde, com as evidências mais convincentes de mortes relacionadas a doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e problemas comuns de saúde mental, como ansiedade e depressão. Lembre-se:
O estatístico de classe mundial, William ‘Matt’ Briggs, autor do livro ‘Uncertainty: The Soul of Modeling, Probability & Statistics’, nos diz, em termos inequívocos, que: ‘A epidemiologia é o campo que oficialmente confunde correlações com causalidades’. E essa é a afirmação mais básica que podemos fazer sobre a batalha passageira contra os alimentos ultraprocessados.
Os princípios básicos de uma ‘boa dieta’ são a) Adequado, ou seja, o suficiente, proteínas, carboidratos, gorduras e vitaminas e minerais essenciais. b) Não muito de nenhuma coisa, especialmente muito açúcar (de todos os tipos), muita gordura (de todos os tipos), muita proteína (de todos os tipos) e, para algumas pessoas, muito sal. c) Definir ‘muito’ e ‘adequado, o suficiente’ é complicado, mas você entendeu a ideia. d) Muita variedade, incluindo grãos integrais, frutas e vegetais de todos os tipos.
O que isso tem a ver com alimentos ultraprocessados? Quase nada. Alimentos Ultraprocessados (UPFs daqui em diante) são uma categoria de alimentos baseada unicamente na ‘extensão e propósito do processamento de alimentos’. Biologicamente, nutrição é o propósito de comer. No entanto, valores nutricionais não fazem parte das características definidoras dos UPFs. Lembre-se, UPFs não significam ‘junk food’. UPFs não significam refrigerantes açucarados, hambúrgueres, batatas fritas, doces e salgadinhos. Essas são uma preocupação nas sociedades modernas, mas, embora sejam frequentemente incluídas em UPFs, não são o núcleo de UPFs.
Qual é o núcleo dos UPFs? ‘Quase tudo nas prateleiras, nos corredores, do seu supermercado e nos armários e refrigeradores da sua casa’. Em um artigo do NY Times (‘Quão ruins são os alimentos ultraprocessados, realmente?’), a jornalista Alice Callahan cita a Dra. Lauren O’Connor [uma cientista nutricional e epidemiologista que pesquisou esse tópico como ex-funcionária do USDA e do NIH] dizendo:
‘É verdade que há uma correlação entre esses alimentos e doenças crônicas, ela disse, mas isso não significa que os UPFs causam diretamente problemas de saúde.’ … ‘A Dra. O’Connor questionou se é útil agrupar esses alimentos totalmente diferentes’ — como Twinkies e cereais matinais — em uma categoria. Certos tipos de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes e carnes processadas, são mais claramente prejudiciais do que outros.’ Essa citação pareceu um pouco ‘proposital’ demais para mim, então escrevi para a Dra. O’Connor e perguntei a ela: ‘Você realmente disse ‘são claramente mais prejudiciais’? (O que implica que os próprios UPFs são prejudiciais, alguns mais do que outros) ou essa é a opinião da jornalista?
A Dra. O’Connor foi gentil o suficiente para fornecer um esclarecimento expandido e mais matizado, reescrito como abaixo, após reconhecer que ‘para crédito de Alice [Alice Callahan], conversamos por quase uma hora, então posso ter sido desleixado com minha linguagem:
‘É verdade que há uma correlação entre esses alimentos e doenças crônicas, ela disse, mas isso não significa que alimentos classificados como ultraprocessados causem diretamente problemas de saúde. Correlação não é igual a causalidade. Precisamos de mais ensaios clínicos randomizados nos quais a causa e o efeito possam ser determinados. Atualmente, há apenas alguns pequenos RCTs publicados, mas vários outros estão em andamento.’
Mesmo esses efeitos são pequenos e podem não representar diferenças clinicamente importantes mínimas (DCM) para a maioria das pessoas.
- Não há evidências de que a categoria ‘Alimentos Ultraprocessados’ seja uma preocupação válida para qualquer consideração sobre dietas humanas. Ela é muito ampla e abrange ‘quase tudo’ sem levar em conta o valor nutricional.
- Evitar UPFs pode levar a deficiências nutricionais, especialmente para aqueles com menos recursos e acesso limitado a uma grande variedade de alimentos acessíveis – não apenas para populações pobres e marginalizadas, mas até mesmo para famílias de classe média.
- Isso não nega as evidências que sugerem que quantidades extremas de açúcar na dieta de um indivíduo podem prejudicar a saúde, principalmente se levarem, ou levaram, à obesidade ou estiverem em combinação com qualquer um dos tipos de diabetes.
- As evidências dos efeitos nocivos dos alimentos de origem animal (carnes) são controversas [e aqui] e devem ser consideradas separadamente.”
As narrativas em relação aos alimentos que devemos consumir são cansativas, incoerentes, incongruentes e sem base cientifica sólida, não testadas pelos pares de quem levantou as teses, meras propostas intelectuais individuais. O leitor tem o livre arbítrio de acreditar ou não na mitologia alimentar. Caso acredite, correrá o risco de simplesmente morrer de ‘inanição’, porque 90% dos alimentos que consome para se manter vivo são processados ou ultraprocessados.
No nosso querido Brasil criou-se de forma ditatorial o tal imposto seletivo, empurrado ‘goela abaixo’ de todos, cujos produtos serão definidos por sábios do governo.
“Ditadores montam em tigres dos quais eles não têm coragem de desmontar. E os tigres estão ficando com fome.” Winston Churchill, ex-primeiro-ministro do Reino Unido.
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

