Lamento do sertão: Produtora perde mais de R$ 40 mil com sementes de tomate

Cícera: “Tive despesas por 36 dias com mão de obra, insumos para as planta e barbante para amarrar os pés de tomate” – Foto: Arquivo pessoal

João Carlos Rodrigues//AGROemDIA

A agricultora Cícera Maria Ferreira Alves foi tomada pelo aborrecimento há pouco mais de uma semana. “Estou triste, magoada, sentida”, queixa-se a pernambucana de 57 anos, dona de um sítio de 36 hectares no distrito de Poço da Cruz, em Ibimirim – município de 27 mil habitantes a 339 quilômetros de Recife –, onde planta tomate, pimentão, milho, cebola e cria 36 cabeças de gado e 80 ovelhas.

Não é para menos: dias atrás, Cícera teve um prejuízo de mais de R$ 40 mil por ter plantado 3 mil pés de sementes que lhe foram vendidas como se fossem de tomate rasteiro, mas na verdade eram de vara. “Quando as primeiras folhas começaram a aparecer, eu estranhei, porque estavam diferentes. Só notei mesmo que havia algo errado quando vieram os frutos.”

Foi no dia 6 deste mês que Cícera dos Tomates – como é conhecida por ser a única mulher que se dedica ao cultivo da hortaliça na região – descobriu que a empresa que lhe vendeu as sementes havia misturado a maior parte das duas variedades. “Comprei 8 mil e 500 sementes de tomate: 3 mil do rasteiro e 5 mil e 500 de vara. A semente de vara veio misturada com o de chão.”

A produtora tratou logo de telefonar ao fornecedor avisando que havia erro na entrega. “No dia seguinte, um técnico da empresa veio aqui e constatou o problema, mas o rapaz que fez a entrega responsabilizou o pessoal que trabalha comigo pelo erro. Só que quem confere tudo no campo sou eu. Não foi aqui. E ainda tem semente misturada para comprovar o erro do fornecedor.”

Foto: Arquivo pessoal de Cicera Alves

Aqui sou eu que tomo conta de tudo”

“Tive despesas por 36 dias com mão de obra, insumos para as plantas, barbante para amarrar os pés de tomate e aí descubro que as sementes vieram misturadas”, lamenta a sertaneja, que trabalha na lavoura das 6h às 18h de segunda a sexta-feira. “Aqui sou eu que tomo conta de tudo. Um dos meus quatro filhos me ajuda, principalmente na venda da produção.”

Cícera propôs um acordo ao fornecedor para cobrir parte do prejuízo. “Como a perda supera R$ 40 mil, pedi que me pagasse pelo menos a metade. Mas ele calculou o prejuízo em R$ 15 mil e queria me dar R$ 7,5 mil para pegar em planta. Não aceitei. Prefiro não receber nada. Vou me sacrificar com meu filho para pagar o que comprei.”

Há quase 30 anos na lida da lavoura, a sertaneja diz que agora só quer comprovar que o erro não foi dela nem dos seis diaristas que trabalham em sua propriedade. “Sou uma mulher de pouco estudo, mas tenho caráter. Não quero levar vantagem sobre ninguém. Isso nem me faria bem”, diz Cícera, casada com o aposentado Luís Alves Siqueira. “Meu marido já tem mais de 70 anos, deixou a lida do campo por problema de saúde.”

Mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus, Cícera segue tocando a lavoura, a exemplo da maioria dos demais produtores rurais do país. “O pessoal está se cuidando, usando máscaras”, conta a sertaneja, que precisou arrancar todos os pés de tomate de vara que plantou no mês passado em sua propriedade, pensando que fosse da variedade rasteira.

Foto: Arquivo pessoal de Cícera Alves

Plantas são como crianças: num dia estão bem; no outro, aparece algo diferente”

Em média, Cícera colhe 2 mil caixas de 30 quilos de tomate em cada uma das três safras anuais. A propriedade da sertaneja produz cerca de 6 mil caixas de 30 quilos da hortaliça por ano para abastecer o mercado da região. Com a perda deste mês, a produção está comprometida. Para compensar, ela espera ter bom resultado com o cultivo de 10 mil pés de pimentão. A sertaneja destina três hectares da propriedade ao cultivo de hortaliças e outras culturas. O restante é ocupado pelo animais e área de caatinga.

A falta de assistência técnica também incomoda Cícera. “A cada 60 dias, um técnico vem na minha propriedade, mas é pouco. A gente precisa de mais assistência, porque as plantas são como crianças: num dia estão bem; no outro, já aparece algo diferente.”

Apesar da adversidade momentânea, a sertaneja segue acalentando um sonho. “Já tive mais de 70 cabeças de gado. Depois, reduzi o rebanho, mas ainda quero arrumar algum valor para ir comprar um gado bonito no Maranhão”, diz Cícera, filha de trabalhadores rurais que conseguiu juntar dinheiro para comprar a própria terra. “Graças a Deus, não preciso mais trabalhar na terra dos outros.”

Foto: Arquivo pessoal de Cícera Alves

Assista aos vídeos da plantação de tomate sendo arrancada e da produção na propriedade de Cícera Alves:

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta